O encontro foi marcado para uma quinta-feira à tarde na igreja Batista da Lagoinha, região central de Belo Horizonte. O templo, onde acontecem os cultos religiosos, impressiona pela grandiosidade e beleza: uma construção circular, em três níveis, tudo impecavelmente limpo e bem cuidado. Além do templo, a construção se desdobra em outros andares, com diversas salas. Quem nos recebe é Paula Maia, esposa de Guilherme de Pádua. Cerca de quarenta minutos depois chega Guilherme, ofegante, após subir a pé a ladeira que dá acesso à entrada principal do templo. “Estou meio fora de forma”, comenta. Ele nos mostra o local em que passa boa parte do dia trabalhando, um pequeno cômodo no fundo do templo, com equipamentos de edição e um computador. Seguimos para o local onde funciona a rádio Lagoinha. É lá que acontece a entrevista. O cômodo, com cerca de quatro metros quadrados, possui uma mesa circular, vários microfones e paredes revestidas de espuma por uma questão de acústica. Dois gravadores posicionados, uma câmera de vídeo devidamente montada sobre um tripé e tem início a conversa. Sentada ao lado de Guilherme, a esposa Paula. Os dois permanecem de mãos dadas durante uma hora e meia de duração da entrevista. Perdão, culpa, preconceito, discriminação, resignação. Nada é abstrato na vida de Guilherme. Ele convive diariamente com seus fantasmas. Perguntado se acha, intimamente, que pagou pelo que fez, responde com outra pergunta: “Os erros que a gente cometeu na vida, as pessoas que magoamos, como medir isso?”
Entenda o caso
Atriz, Daniela Perez tinha 22 anos quando interpretou a personagem Yasmim, na novela De Corpo e Alma, de autoria de sua mãe, a autora Glória Perez. No dia 28 de dezembro de 1992, a atriz foi encontrada morta em um matagal no Rio de Janeiro, assassinada com 18 golpes de tesoura. Desde o início, ele e a esposa ficaram presos e foram acusados do crime. A promotoria alegou que Guilherme e Paula teriam fechado o carro de Daniela em frente a um posto de gasolina, que ele e a atriz teriam saído de seus carros discutindo e que ele teria dado um soco em Daniela, desacordando-a. Ele então teria arrastado a vítima para o carro dela, tomado a direção enquanto sua ex-esposa conduzia o outro carro até o local onde cometeram o crime.
Inicialmente, por cerca de oito meses, Guilherme assumiu a autoria do crime sozinho, mas posteriormente, depois que Paula começou a acusá-lo, mudou a versão do assassinato, dizendo ter separado uma briga entre a esposa e a vítima, movida por ciúmes. Em sua defesa, ele alegou que segurara a vítima com muita força na tentativa de proteger a esposa, que estava passando por uma gravidez delicada e que isso teria resultado no desmaio ou na própria morte de Daniela. Segundo o que passou a declarar, ao pensarem que Daniela estivesse morta, Paula teria cometido os golpes de tesoura na tentativa de forjar um crime de algum fã fanático enquanto ele tentava adulterar a placa do veículo para escaparem do local sem serem responsabilizados.
Paula, por sua vez, sempre se declarara inocente, dizendo que nem mesmo estava no local do crime e que teria passado mais de oito horas esperando pelo marido em um shopping. O ator Guilherme de Pádua e sua mulher na época, Paula Thomaz, foram condenados a dezenove e a dezoito anos e seis meses, respectivamente, por crime qualificado, como queria a acusação.
Por terem ambos cumprido cerca de seis anos e nove meses de prisão (por questões burocráticas Paula ficou alguns dias a mais na prisão), Glória Perez iniciou uma campanha popular para modificar a Lei dos Crimes Hediondos. Desde então, o homicídio qualificado (praticado por motivo torpe ou fútil, ou cometido com crueldade) não permite pagamento de fianças, com o dever de o condenado cumprir um tempo maior de pena para a progressão do regime fechado ao semiaberto.
Quem é o Guilherme de Pádua hoje?
Você fala que trabalha muito. O que você faz?
E como é sua vida?
Você falou que poderia ter morrido dez vezes. É sobre o tempo na prisão?
E qual era a sensação neste momento?
Você é feliz hoje?
Como é conviver com isso: ter seu nome sempre associado a uma pessoa e a um fato ruim?
Você sente que pagou pelo que fez?
Mas, e intimamente, você sente que pagou o que tinha de pagar?
Mas você ainda pensa no que aconteceu todos os dias?
Quando aconteceu o crime, você era uma pessoa que estava construindo uma carreira na maior emissora do país. Você não acha que as pessoas ainda fazem a relação do Guilherme de hoje com o Guilherme de antigamente?
Por que você escolheu um programa como o do Ratinho para fazer sua volta? Por que não falou o que queria? Teve medo?
Mas você falou que não pode ir a um restaurante, ir a um cinema, sair com as pessoas. Você sente falta disso, dessa vida de poder sair e mostrar a cara sem ter o risco de sofrer qualquer tipo de discriminação, preconceito ou rejeição? |
Você já pensou em mudar de nome, de país, começar sua vida em outro lugar?
Se tivesse oportunidade de ficar frente a frente com a Glória Perez. O que diria a ela?
Você já falou que sente raiva, às vezes não tem pensamentos bons. Diante disso, como é conviver com o fato de a Glória Perez monitorar o que você está fazendo?
E o que seria essa coisa milagrosa?
Mas você não acha que falar em perdão para você é mais fácil? Ela tem a ausência da filha... |
O que motivou o assassinato da Daniela Perez: foi vaidade, ciúme?
Mas não é possível falar sem citar nomes?
Mas teria mais coisas a dizer, muitos fatos novos?
Você se sente frustrado por isso, de ser obrigado a ficar calado pelo resto da sua vida?
Sua mulher acaba de lançar um livro Que amor é esse? A história real de Guilherme de Pádua. Ela vai detalhar alguma coisa, será sua vida pós-prisão ou terá fatos que as pessoas não conhecem?
Seria uma forma de desabafar pelo fato de você não estar podendo falar?
Mas há detalhes do crime?
Houve ameaça no twitter, você diz que tem um documento dos advogados de Glória Perez. Não tem medo que o livro gere um processo contra você?
Você é diretor de um grupo de teatro na igreja. Pensa em voltar a atuar?
Você e sua esposa pensam em ter outros filhos?
Você acha que seu filho sofreria?
Você já sonhou ou ainda sonha com a Daniela Perez?
Se tivesse um minuto em rede nacional o que você gostaria de falar?
Se não estivesse na igreja hoje, como estaria?
E os seus pais, como ficaram?
E você ainda conserva amigos de antes do crime?
Esse caminho errado foi o maior motivador do crime? |