Meios modernos dão a localização exata. Apuram, filtram e mostram: está na avenida Bandeirantes, no Mangabeiras, bairro nobre da capital mineira. A casa branca, de três andares, como qualquer outra, uniformiza-se no ajuntamento de construções, sem identificação nem símbolo religioso. Focar ali, aproximar a visão: lá vivem oito homens, celibatários, graduados, que assistem à missa todos os dias, às 7 horas, num dos cômodos transformados em capela. Trabalham, estudam fora no meio da multidão. Rezam terço. Autoflagelam-se com o cilício, cinto com pontas, cravado na parte superior da coxa por duas horas diárias e só se livram desse incômodo nos dias de festa. Golpeiam com chicote as nádegas nuas uma vez por semana em nome do sofrimento de Cristo. Outros, somente homens, vão ao Centro Cultural Mangabeiras, para meditar, estudar, conversar com diretores espirituais. Seguem os princípios, mas vivem em suas casas ou estão em processo de aceitação. Noutro bairro, na região da Savassi, rua Tomé de Souza, no prédio de cinco apartamentos por andar, antes residencial, moram oito mulheres, que fizeram voto de castidade, seguem os preceitos dos homens. Mas nem imaginam como é o outro centro, proibido a mulheres de qualquer idade. Estão neste mundo separados por sexo, mas perfilados lado a lado nos dogmas do Opus Dei, movimento católico criado pelo padre espanhol Josemaria Escrivá, que veio aos holofotes arranhados com o filme Código da Vinci e vai voltar este ano às telas, com imagens mais polidas, na película do cineasta britânico Roland Joffé. Ele vai contar em There Be Dragons a vida de Josemaria, morto em 1975, elevado a santo em 2002, num dos processos de canonizações mais rápidos da história da igreja, pelo papa João Paulo 2º, que o monsenhor Slawonir Oder diz no livro Por que um Santo? se autoflagelava com cinto.
Que doutrina é essa?
Quem é quem?
Fonte: Assessoria de imprensa do Opus Dei, escritora Betty Silberstein, Rodrigo Coppe Caldeira, doutor em Ciência da Religião, Lindomar Rocha, doutor em Filosofia e Teologia
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Esse mais e menos nesta doutrina da Igreja Católica, tão fechada e que se diz aberta, onde convivem leigos e sacerdotes em pé de igualdade com as bênçãos diretas de Roma, levaram-nos a ver o que se passa entre as paredes no dia a dia, ouvir quem vive lá e os que não aguentaram o jugo e saíram da sintonia plugada à tradição de 2 mil anos atrás. É, tentar traçar o roteiro de filme real. Na hora marcada, com a identificação no interfone, a porta se abre, as escadas à frente e lá em cima numa das várias salas da casa, com quadros de paisagens e de são Josemaria Escrivá que se repetem no feminino, o médico geriatra Luís Felipe José Ravic Miranda, subdiretor do Centro Cultural Mangabeiras, nos atende. Está nessa vida de celibato, trabalho, terços há 25 anos. Primeiro em São Paulo, logo que passou no vestibular, e desde 1994 em BH, onde veio como um dos primeiros cristãos dessa prelazia. |
Preceitos de cada dia, semana, ano
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“Um grande amigo meu me chamou para ir ao centro, onde havia olimpíada de matemática. Aquele ambiente me cativou, senti bem à vontade”, diz Ravic, indiano que se considera brasileiro. Aliou os estudos, o trabalho de médico, o doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) ao de numerário, como são chamadas as pessoas que moram nos centros do Opus Dei (obra de Deus em latim). “Vi que podia ser amigo de Deus. Ele é alguém próximo.” Acredita que selou a amizade, considera-se feliz e natural repassar todo o salário ao Opus Dei. “Os pais não medem esforços para atender às necessidades dos filhos? Só depois veem as suas?” É. As explicações de normalidade se sucedem. Não se esquiva das perguntas. Usou cilício? Dói? “Já. Usa quem quer. Isto não é exclusividade do Opus Dei. A ideia de penitência é variada: ir a Aparecida do Norte, fazer jejum. As pessoas não levantam peso na musculação e ninguém diz nada.” Pois é. |
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Afina as ideias, divide o espaço físico e espiritual da casa com outros sete: sacerdote, engenheiro, estudante de engenharia, dois administradores de empresa, professor de matemática, doutor em física. Parece que estão sempre bem, felizes, com sorriso aberto até mesmo quando se fala em sacrifício, cena que se repete no feminino. O administrador de empresas Leonardo José de Almeida confirma que usa o cilício todos os dias, chicoteia as nádegas uma vez por semana. “Ofereço a Deus. Não acho isto anormal. Fazer academia é mais difícil. Minha irmã depila a laser e acredito que doa mais”, justifica. A vida para eles é assim. Têm certeza de que foram convocados por Deus. “Ele me pediu algo mais. Aceitei o desafio e sou feliz. Se olho para trás, comparo as minhas experiências com meus amigos do passado, vejo que nenhum deles conseguiu chegar nem perto”, diz Leonardo Almeida, paulista de São José dos Campos. Abaixa os olhos à Terra para cuidar de palestras na casa, visitar favela da capital mineira, trabalhar no meio de todo mundo, sujeito às tentações da carne. “Belo Horizonte tem muitas mulheres bonitas, mas sou como homem casado que não dá em cima da estagiária.” Há muito a fazer: oração de manhã, missa, mortificações corporais, meditação, conversas na sala de tertúlia. Lá estava numa quinta-feira, dia de meditação na capela com o padre Antônio, o médico Galileu Galilei convertido aos preceitos da obra em 2005. Viu que sua vocação era ser supernumerário, aquele que pode casar, mora fora das paredes dos centros, mas segue os rituais, inclusive o de banir os anticoncepcionais. Sexo é para procriar. “Está nos ensinamentos da Igreja Católica”, argumenta o médico. |
Pronto, cumpre-se. “Vira modo de vida”, diz o empresário e administrador de empresas André Sampaio, colaborador há 20 anos. “Há muitos procuradores, governadores no Opus Dei.” Quem são? Desconversa. Ele levou dois dos quatro filhos e a mulher para a obra. Pedro Sampaio estava com o pai na casa branca, no dia da meditação, com outros jovens que vão lá estudar. O universitário Mário Luís Magela frequenta a sala de estudos, nos serviu café, suco, biscoitos logo na chegada. Há o professor Humberto Honda, de São Paulo, que vive num dos quartos, com beliches para os numerários, e individuais para diretor, subdiretor e sacerdote. O movimento é grande, um entra-e-sai. A ação se reprisa por total coincidência, até no número de 8 moradoras, no centro feminino, na Savassi, no prédio de 5 andares. “A corretora conseguiu convencer todos os moradores a vender os apartamentos”, diz a espanhola Caty Larman, diretora do lugar. O dinheiro veio de doadora paulista e agora luta para reformar o edifício, que tem no terceiro andar o oratório, voltado para a rua, ocultado por cortinas. Numa sala imensa, no primeiro andar, ela nos atende, com outras mulheres: numerárias, supernumerárias, colaboradas e adscritas. Essas últimas também são celibatárias, mas moram em suas casas. As histórias de terem sido convocadas por Deus se repetem. “Ele queria algo a mais de mim, mas no meio do mundo. Fazer faculdade, trabalhar e ajudar o outro”, afirma a estudante de direito Gabriela Andrada. Há três anos se mudou para lá. Raissa Fiúza, que cursa administração, está há um ano. “A Raissa não queria nada”, lembra a mãe, a médica Letícia Lemos. Depois de um retiro resolveu se tornar numerária. “Vivo com Deus. Tudo que fazia antes, não é que eu não possa, não quero”, diz Raissa. São as mais novas da casa. É como se fossem suas filhas, pergunto a Caty. “Não, são minhas irmãs.” É. Todas falam e no meio a médica pediatra Fabiane Scalabrini, que se tornou adscrita depois de o namorado a ter iniciado na doutrina do Opus Dei. Acabou o namoro, fez os votos de castidade, mestrado e agora doutorado. “Tenho necessidade de tempo livre. Se casasse, não podia dedicar tanto”, argumenta. Considera-se feliz, como todas as outras e os outros, e não vê perda nessa vida regrada, ligada à tradição de séculos e séculos. Será? Vamos virar para o lado B do filme: os dissidentes, que passaram pelos centros, escreveram livros, têm sites com depoimentos aqui e fora do país de atormentar o corpo e arrepiar a alma. “A obra entra na vida das pessoas, ultrapassa limites”, afirma Antonio Carlos Brolezzi, professor de matemática da Universidade de São Paulo (USP), ex-numerário, autor do livro Memórias Sexuais no Opus Dei. Também na sua, quando faz retrospectiva de quando entrou lá a convite de um amigo. Ignorava as mortificações, o ter de contar tudo que pensava, sonhava aos diretores espirituais. “Se você sonha com uma mulher e se masturba, querem saber se ocorreu quando estava acordado ou não. Aí é pecado grave, trucidam a alma do sujeito.” A carne precisava ser domada. Na mesa de refeição, conta ele, o numerário não podia comer o que desejava, saciar o corpo. “Falavam: você prefere ter escravo ou ser escravo,” lembra. Deixou-se levar, dava tudo o que recebia ao Opus Dei e quando completou seis anos lá teve de fazer testamento em que repassava o que possui a uma entidade ligada à obra. “Até hoje quando apresento meu CPF aparece o nome de um secretário do centro”, relata Brolezzi. Por que não muda? “É espécie de prova que tenho.” Diz ter tentado sair várias vezes, mas sempre vinha a culpa de não cumprir a vocação recebida dos céus. Conseguiu sublimar isto, caiu no mundo, ficou vários anos sem falar o que havia vivido, depois expurgou esse tempo com o livro e está aí com o estandarte das críticas. “Aposto que te falaram que o cilício é como fazer ginástica.” Pois é. O que não cabe aos numerários
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As críticas se estendem com outros dissidentes. “Enfiam na sua cabeça que você tem vocação e quando descobre que não é bem assim, já é tarde”, afirma a advogada Sônia Maria Menezes. Ela ficou três anos num centro em São Paulo, levada por uma amiga, envolvida com as aulas de desenho, que gostava. “Eles começam a te envolver. Tinha dificuldade em matemática e lá havia aula. A diretora cuida de você. Fiquei de boca aberta com tudo aquilo.” A conta cilício diz que foi se interando. “Introduzem a parte ruim aos poucos.” Tinha que trazer mais pessoas para o centro, trabalhava e nem via o contracheque e perdeu a fé no Opus Dei quando indicou uma amiga, que não teria sido aceita por ser negra. “Havia outras incoerências: por que só gente bonita, estudada e com posses?” Não conseguiu resposta, saiu. Ravic, do Centro Mangabeiras, garante que lá é aberto a quem quiser. No feminino também, desde que seja levado por alguém que participa. “A tendência é mais elitista. Difícil de trabalhar, porque a igreja sempre soube lidar com os pobres”, explica Lindomar Rocha, doutor em filosofia e teologia. A obra foi buscar atrás nos primeiros cristãos a fórmula para isto. “Muitos católicos estão redescobrindo elementos de tradição secular, que, pensam, não poderiam simplesmente descartar em vista de tudo que é novo”, acrescenta Rodrigo Coppe, doutor em ciência da religião.Tão distante, que a escritora Betty Silberstein nem imaginava que o filho Augusto pudesse voltar a esse tempo e ser numerário: “O que você vai ser? Número? Não entendia o que era. Depois falou que ia ser santo no meio do mundo.” O pior era lembrar que foi ela quem o levava a um lugar para estudar, que não tinha nada que informasse ser lá centro do Opus Dei. Hoje trava batalha para tirá-lo, mas o filho não quer. Está em Roma. Ela no Brasil na luta para esclarecer outras famílias. “Na época em que meu filho entrou não havia nenhuma literatura.” Escreveu o livro Opus Dei – A Falsa Obra de Deus: Alerta às Famílias Católicas. Está como os outros dissidentes a roubar a cena do filme real da obra, sobressair e mostrar o que acontece lá. “O pior foi sentir, depois de ter saído, o quanto fiquei afastada da minha família, dos amigos e na pessoa estranha que eu tinha sido nesse período”, diz a ex-numerária Nazareth Rezende. A religião virou tormento, cruz mais pesada do que poderia imaginar. |
Retrato da obra
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Mortificações
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