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Quinta, 24 de Maio de 2012

Cidades da Copa 2014

Impulso para o desenvolvimento

A escolha da cidade de Fortaleza como cidade-sede dos jogos da Copa de 2014 é considerada grande vitória pelos cearenses. Saiba por quê

Texto: Tereza Rodrigues | Fotos: Nélio Rodrigues
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A primeira cidade a apresentar um projeto de candidatura à sede dos jogos da Copa de 2014 assistiu uma comovente vibração de seus moradores quando a conquista foi confirmada pela Fifa. Também não é para menos. Além de terem paixão por futebol, eles criaram a expectativa de verem terminadas para o evento dezenas de obras de infraestrutura que a cidade precisa e espera há anos. O próprio secretário de Esportes do Estado, Ferruccio Feitosa, que está à frente da equipe de planejamento desde o início da proposta, reconhece que o projeto apresentado à comissão foi feito com base em um levantamento das obras que seriam mais importantes para a cidade. “A intenção é aproveitar esse momento para antecipar ações que iriam ocorrer talvez só daqui a uns 30 anos. Nosso plano é um dos mais audaciosos, é muito ambicioso.”

Perspectivas do novo Castelão: capacidade para 60 mil pessoas



A estimativa de custo total das obras a serem realizadas em Fortaleza até a Copa ultrapassa os 9 bilhões de reais, envolvendo obras federais, estaduais e municipais. 65% desses recursos já estão captados, de acordo com o secretário. “Estamos muito bem, nossos governantes estão comprometidos”, garante Feitosa.

Filho ilustre do Ceará, o cantor Falcão é um dos entusiastas com a vinda da competição para o Brasil. Com seu estilo bregoriano, o artista acompanha a preparação da capital para receber o maior evento futebolístico do mundo e garante que não tem medo de “fazermos feio, confio no nosso potencial, mas não temos que mostrar tudo tão padronizado como os europeus fazem, afinal, irreverência é a nossa marca.” Mesmo dizendo que acha bom um pouco de esculhambação de vez em quando, ele acompanhou nossa equipe até o estádio do Castelão, onde pôde conferir de perto as mudanças que estão sendo planejadas para seu estádio do coração. “Quando eu estava na faculdade de arquitetura, estudei a concepção disso tudo aqui, pois foram professores meus que o projetaram. É um show de bola esse grau de inclinação das arquibancadas, esse estádio é diferenciado e vai ajudar a consolidar uma boa imagem para Fortaleza diante do mundo”, opina.



De acordo com Felipe Araújo, coordenador do projeto Copa 2014 da Prefeitura de Fortaleza, sete eixos temáticos guiam o planejamento das obras em toda a cidade: estádios, meio ambiente, sanea­mento, transporte e logística, segurança, saú­de, energia e telecomunicações e turismo. Ele explica que a prioridade são as intervenções que se configuram como legado permanente para os moradores. “O que temos mais pressa em concretizar são as intervenções relacionadas à mobilidade urbana, mas o que foi definido como obra do município na Matriz de Res­ponsabilidade Fiscal (deliberada no dia 13 de janeiro, em Brasília) será entregue até o final de nosso mandato, em 2012”. Em Fortaleza não há ainda um comitê da Copa, como em outras cidades-sede. Mas a secretaria de assuntos especiais, da qual Araújo faz parte, procura articular os interesses de cada secretaria e expor o andamento do que foi planejado para a população em audiências públicas.
Dragão do Mar: espaço de convergências culturais



Mas mesmo com as ações sendo feitas de forma – aparentemente – bastante transparente, polêmicas não são evitadas. A população teme principalmente pela maneira como serão conduzidas as desapropriações. Muitos moradores terão que ser desalojados do entorno das principais vias que ligam a área hoteleira, o aeroporto e o estádio do Castelão e também das margens do rio Cocó, que será (em boa hora) revitalizado. Essa parte é de responsabilidade do estado e a prefeitura teme que se alonguem em processos judiciais, por exemplo. Outra crítica recorrente é em relação à pressa que deverá ser aplicada as ações que demandam longo prazo. Como a Copa acontece daqui a quatro anos, não há tanto tempo para fazer projetos urbanísticos sustentáveis. “A principal herança que teremos da competição é a visibilidade, mas temos que aparecer bem. Para promover turismo permanente e de qualidade, não podem ser criados guetos para receber o evento, os projetos deverão ser integrados com a cidade”, explica Fausto Nilo, arquiteto, urbanista, compositor e poeta. Autor de sucessos como San­ta Fé, gravado por Morais Mo­reira, Nilo é corresponsável por pro­jetos arquitetônicos importantes pa­ra os fortalezenses, como o Cen­tro Dragão do Mar de Arte e Cultura, o principal espaço de convergências culturais da cidade. Quanto às obras para a Copa, sua equipe foi a vencedora do concurso de ideias da reorganização da avenida Beira Mar, que deve entrar em processo de licitação em breve. Nilo esteve envolvido com projetos também nos estádios, mas pode se dar ao luxo de tirar seu time de campo quando não concorda com a forma como as obras passam a ser conduzidas. No caso do estádio Presidente Vargas, que servirá de base de apoio na Copa, o projeto que ele fez e gostaria de ver aprovado pela prefeitura era muito mais abrangente (contemplava os arredores) do que o que foi posto em prática. Mas ele não se diz pessimista e respeita as decisões dos governantes; aos 65 anos, diz apenas que gostaria que o Brasil valorizasse mais projetos urbanísticos. Não por acaso ele é visivelmente querido e respeitado pela população local e foi o grande homenageado do Carnaval de Fortaleza em 2010.

Raimundo Fagner, com pescadores: simpatia



Outro filho famoso que cria grandes expectativas com a Copa na capital do Ceará é o cantor Raimundo Fagner. Louco por futebol, torcedor do Fortaleza e gozador do time do Ceará, ele acredita no impulso do evento para melhorar a cidade. “So­mos muito amadores em vários aspectos ainda. A hora de se profissionalizar é essa. Os políticos vão ter que se virar”, alfineta, rindo. A simpatia dos cearenses é, para Fagner, o principal atrativo para fazer com que Fortaleza receba a maior parte dos torcedores que poderão vir assistir aos jogos no chamado eixo Nordeste (que inclui ainda Recife e Natal).
Felipe Araújo: pressa na mobilidade urbana

Regis Medeiros: busca por capacitação do turismo



Mas não é só em carisma que aposta o diretor administrativo da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), Regis Medeiros. Ele acredita no potencial hospedeiro e na boa infra-estrutura da cidade para receber turistas exigentes. Acostumada a uma grande movimentação promovida pelo turismo de eventos, Fortaleza tem atualmente 25 mil leitos na cidade e 900 nos 8
arredores. Uma das maiores infra-estruturas hoteleiras do país. E a expectativa é de chegar a 2014 com um total de 35 mil leitos nas proximidades, já que grandes complexos hoteleiros e resorts estão sendo projetados para a região.
Fausto Nilo: crítica a projetos que não valorizam a integração



Medeiros é dono de uma rede hoteleira e planeja dar um salto nos seus negócios nos próximos anos. Acredita que os governos cumprirão suas metas para a competição, principalmente o governo federal – que tem responsabilidades maiores – mas faz ressalva quanto à linha de financiamento para empresários do setor. “As taxas de juros de cerca de 8% para empréstimos e a garantia que os financiadores exigem são muito apertados, favorecem só quem já tem muito dinheiro para investir.” Na ABIH, o foco de Medeiros é batalhar por capacitação dos trabalhadores do setor de turismo, “que tem muito a melhorar”, e conscientizar os colegas do setor a investir para receber bem e aproveitar a visibilidade proporcionada pelo evento. “Quando a Match veio aqui, por exemplo, eu instruí que os donos de hotéis vendessem sim 70% de suas reservas para o período da Copa. Alguns reclamavam que poderiam segurar e conseguir preços melhores, mas eu expliquei a importância de fazermos parceria com eles. Nas Olimpíadas de Pequim, por exemplo, muita gen­te não se aliou à Match e acabou no prejuízo, porque tinham vagas em hotéis, mas não tinham mais ingressos. A Fifa já faz isso para que as vendas sejam casadas e otimizadas”, explica. Em tempo, a Match é a empresa de serviços escolhida pela Fifa para fornecer os serviços de bilheteria, hospedagem e tecnologia da informação para diversas competições, inclusive a Copa do Mundo de 2014.

Fortaleza em Números



  • Área: 313,140 km2
  • Densidade demográfica: 7.903 hab./km2 (quinta mais povoada do Brasil)
  • IDH: 0,786
  • PIB: R$ 22,5 bilhões (14º do país)
  • População: 2,5 milhões de habitantes

Os dois lados da moeda



Estádios

  • O Plácido Aderaldo Castelo (Castelão) passou por modernizações recentemente e precisa de poucos ajustes para se adequar às exigências da Fifa. As reformas serão feitas por meio de Parcerias Público-Privadas (PPPs) e estão em fase de licitação, com início das obras previsto para abril e prazo de 32 meses. O Presidente Vargas (PV) será o estádio de apoio e treinamentos e abrigará os jogos dos times locais enquanto o Castelão estiver interditado. Sua reforma já está sendo feita e o término das obras está previsto para agosto deste ano

Ideias Alinhadas

  • Há um bom diálogo entre prefeitura e governo do estado, e ambas as instâncias governamentais demonstram tranquilidade com o cumprimento de prazos das obras a serem feitas

Belezas Naturais

  • São 34 km de belas praias de águas mornas, dunas e coqueirais, hotéis e restaurantes com boa infraestrutura. Fortaleza oferece calmaria em alguns lugares, ventos e ondas em outros, com isso atrai banhistas, surfistas e praticantes de esportes aquáticos em geral

Diversidade

  • A vida cultural de Fortaleza é fecunda. Muitos artistas, de áreas diversificadas, utilizam os palcos e praças mais movimentadas da cidade para divulgar seus trabalhos. A cidade é reconhecida por sua gastronomia e pela alegria de seu forró. Além disso, os cearenses são famosos como acolhedores e bem-humorados

Experiência em receber

  • O turismo de eventos é tradicional na cidade, atraído por uma hotelaria moderna. Atualmente existem mais de 25 mil leitos na cidade, com diversos resorts de luxo nos arredores. Em Fortaleza se localiza o maior parque aquático do Brasil, o Beach Park. Para a Copa estão previstas instalações de hotéis flutuantes, com a chegada de transatlânticos aos portos do Mucuripe e Pecém

Localização privilegiada

  • O Ceará está muito próximo da linha do Equador, tem tempo bom e sol brilhando praticamente o ano todo. Em julho, quando serão realizadas as competições da Copa, a temperatura costuma ser das mais agradáveis, não esfria nem chove. Importante destacar também a facilidade de acesso; Fortaleza está a apenas 6h30 de voo da Europa e da América do Norte e 4h30 do continente africano

Economia

  • É um importante centro industrial e comercial do Brasil com o sétimo maior poder de compra do país. Não por acaso, na cidade está sendo construído o maior centro de convenções do Brasil, com investimentos de R$ 297,5 milhões

Na retranca

Aeroporto

  • Considerado o maior desafio para que a cidade receba bem os jogos da Copa de 2010, o Aeroporto Internacional Ponto Martins atende atualmente 3 milhões passageiros anualmente e precisa dobrar essa capacidade até 2014, além de ampliar a pista de pouso. Sob responsabilidade do governo federal, as obras não têm previsão de início

Trânsito

  • O fluxo de veículos é intenso na região dos hotéis em direção ao aeroporto e ao Castelão. A melhoria das vias de acesso é considerada prioridade pelos órgãos públicos, mas as obras ainda não foram iniciadas. Muitas desapropriações precisam ser feitas. O transporte público é feito com linhas de ônibus integradas O metrô liga Fortaleza a três cidades metropolitanas, no entanto, muita gente nem sabe de sua existência. Poucos passageiros chegam até a estação central, onde é possível perceber a precariedade dos vagões. A expansão das linhas (sul e oeste) não tem previsão de início. Linhas de Veículos Leves sobre Trilhos (VLTs) vão ser construídas ligando 22 bairros

Segurança Pública

  • De acordo com as últimas estatísticas do Ministério da Justiça, Fortaleza é a 20ª colocada em ocorrência de violência e criminalidade, a quinta capital mais violenta do Brasil. Desde 2007 foi implantado o programa Ronda no Quarteirão, com policiamento comunitário; mas estima-se que seja preciso elevar o contingente de 1,5 mil para 5,5 mil guardas municipais

Crescimento Desordenado

  • A visível desigualdade social e a demanda por saneamento básico são sintomas de um inchaço maciço da população fortalezense nos últimos 10 anos. Atualmente, cerca de um terço da população de Fortaleza mora em áreas de ocupação e as frequentes secas do interior do estado agravam o problema da favelização

Falta Capacitação

  • Muitos profissionais que lidam diretamente com turistas hoje não são preparados adequadamente para tal função. A maioria não fala inglês ou espanhol, por exemplo 

Má Fama

  • A exploração sexual de menores em Fortaleza é um problema recorrente na mídia nacional e internacional. Mesmo com incisivas campanhas publicitárias de combate à prática, a cidade atrai turistas com este fim

Diferenciais das principais ações para a Copa



  •  A competição em Fortaleza está sendo chamada de Copa Carbono Zero. No complexo esportivo do Castelão serão instaladas duas turbinas eólicas para a manutenção energética do mesmo
    O custo total das obras de sua modernização está orçado em R$ 400 milhões
  • O projeto Cinturão Digital pretende criar infraestrutura própria de fibras ópticas para prover o acesso por banda larga nas principais cidades do Ceará. Por meio de cabos ópticos submarinos, ligando Fortaleza a importantes sistemas de comunicação na América do Norte, Europa e África, o governo do estado pretende facilitar a transmissão de dados em tempo real. Em energia e telecomunicações, o valor global é de R$ 247 milhões. Desses, menos de 60 milhões estão nos cofres públicos
  • Há previsão de investimentos de R$ 819 milhões em obras de infra-estrutura de água e esgoto até 2014. Os recursos estão sendo captados em diversos programas de financiamento dentro e fora do país
  • A ampliação de leitos hospitalares públicos será outro grande investimento para o mundial de 2014. Os recursos captados somam
    R$ 76 milhões
    e o valor global a ser coletado para esse eixo é de R$ 248,7 milhões



Leia o depoimento da repórter sobre a matéria no Blog da Redação.