O mapa hoteleiro de Belo Horizonte será redesenhado nos próximos anos. Serão 15 novos hotéis que oferecerão 3,5 mil apartamentos em locais tão diversos como as redondezas do Expominas, Pampulha, avenida Afonso Pena, proximidades do Ouro Minas e Confins. Os planos de investimentos já aprovados por grandes redes nacionais e internacionais de hotéis incluem ainda Ouro Preto, Contagem e Betim. É claro que os investidores estão de olho nas oportunidades que surgirão com a Copa do Mundo em 2014 e as Olimpíadas de 2016, que, apesar de ser realizada no Rio de Janeiro, terá repercussão em outras capitais do país. Mas o movimento é impulsionado mesmo pela expectativa de expansão da economia brasileira.
O que chama a atenção é que, mesmo com todos os planos e projetos para melhorar a infraestrutura hoteleira de Belo Horizonte, o futuro do setor na região ainda é incerto e divide opiniões. Segundo especialistas, a disputa por vagas na capital e seu entorno é acirrada no meio da semana. Mas deixa a desejar nos outros dias. E isso estaria colocando a rentabilidade do negócio em xeque.
A concorrência por vagas em períodos de grandes eventos e entre as terças e quintas-feiras já se transformou em rotina nos hotéis da cidade. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), porém, entre janeiro e outubro de 2009 a taxa de ocupação diária do grupo de 37 estabelecimentos da capital – cinco de padrão luxo (5 estrelas) 14 superior ( 4 estrelas) e 18 de padrão turístico ( 3 estrelas) – só foi superior a 95% por 10 dias. Isso significa que em apenas 3,28% desse período de 10 meses a hotelaria da cidade esteve quase lotada.
Os dados são obtidos por meio de software que recebe as informações diárias dos apartamentos ocupados nesses estabelecimentos. Esse mesmo grupo apresentou, em 2008, 68,43% de ocupação. Nos 10 primeiros meses do ano passado, o número caiu para 63,09%. “Na média, 37% dos apartamentos dos hotéis de BH ficaram vazios durante o ano. A hotelaria tem, ocasionalmente, picos de alta ocupação, mas precisa trabalhar com mão-de-obra suficiente para atender bem o hóspede nas ocasiões onde há lotação. Isso significa que os hotéis ficam ociosos na maior parte do ano e registram prejuízo porque não se pode ter mão-de-obra temporária trabalhando em hotéis e similares no Brasil”, diz a presidente da ABIH, Silvânia Capanema. A lotação praticamente esgotada nos 10 dias mais concorridos de 2009 tem explicação: a realização simultânea de eventos internos nos hotéis – boa parte deles conta com salas para treinamentos e atividades afins – e eventos de grande porte na cidade, como congressos e feiras que atraem público sempre superior a 10 mil pessoas.
“Na média, 37% dos apartamentos dos hotéis ficaram vazios durante o ano de 2009” Silvânia Capanema Multinacionais como a Fiat, por exemplo, reclamam da dificuldade de conseguir vagas na rede hoteleira de Belo Horizonte, especificamente em categorias de luxo. "A Fiat realiza com frequência grandes eventos, com hospedagem de até mil pessoas ou mais, e sempre demanda grande estrutura hoteleira, o que é uma dificuldade em BH. Por essa razão muitas vezes as opções ficam restritas ao litoral brasileiro ou ao eixo São Paulo-Rio", diz a gerente de eventos e relações públicas da empresa, Elisa Leite. O vice-presidente do Instituto de Desenvolvimento Integrado de Minas Gerais (Indi), Eduardo Bernis, reconhece que existe uma grande disputa por vagas em hotéis de luxo em épocas de realização de grandes eventos e que a mesma dificuldade é observada em alguns dias úteis da semana. Diante disso, o Indi, a Secretaria de Estado de Turismo e a Belotur vão fazer levantamento do número de apartamentos disponíveis para hospedagem em todas as categorias de hotel da cidade. A intenção é, com base nesse mapeamento, trabalhar para atrair investimentos e suprir a demanda existente, já pensando no potencial da capital mineira para o crescimento do turismo de negócios. |
“Para trazer eventos de porte para a capital mineira é necessário ter hotéis com grandes salas de reuniões” Celso Morandi Independentemente dos resultados desse estudo, entretanto, a secretária de Estado de Turismo, Érica Drumond, acredita que, mais até do que necessidade, seja desejo dos belo-horizontinos – agora mais estimulado pela Copa – poder contar com grandes cadeias de hotéis cinco estrelas na cidade. Recursos de 6 milhões de dólares foram repassados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para serem aplicados pelo governo na formação da rede hoteleira da capital. Entre os investimentos já oficializados junto à secretaria, porém, ainda não existe nenhum projeto dessa natureza em curso, segundo ela. A saída para solucionar a ocupação sazonal na rede de hotéis, na opinião de Silvânia Capanema, passa antes por outro caminho: organizar o calendário de eventos da cidade de forma a não embolar o meio de campo da hotelaria e estimular a ocupação em datas menos procuradas. “Os eventos da capital são todos marcados para a mesma data”, diz. Diante disso, no fim do ano passado, a ABIH começou a organizar o calendário de eventos já captados para 2010. A ideia é enviá-lo para mais de 10 mil profissionais no Brasil. “O calendário mostra os eventos que podem causar mais impacto na cidade. Com essa informação, teremos um ano mais organizado e a taxa de ocupação deverá aumentar”, acredita. Silvânia defende a construção de mais espaços para a realização de grandes eventos na capital mineira como forma de impulsionar o turismo de negócios. “O Expominas está lotado até 2011. Sem espaço, a cidade não atrai ninguém”, avisa. O diretor financeiro do Convention & Visitors Bureau e da ABIH, Celso Morandi, concorda: "Para trazer eventos de porte é necessário ter hóteis com grandes salas de reuniões." Várias redes nacionais e internacionais já estão com projetos para a construção de hotéis em áreas onde existe maior carência de leitos. O Grupo Arco constrói em Vespasiano sua terceira unidade na região de Belo Horizonte – as outras duas ficam em bairros da zona sul da capital. “A intenção é atender ao aumento da demanda que vem ocorrendo em função da área industrial e do aeroporto de Confins”, afirma o superintendente da empresa, Rodrigo Mamngerotti. O hotel terá 85 apartamentos de padrão executivo, o que na classificação antiga equivaleria a um quatro estrelas. A previsão é de que o empreendimento esteja pronto para receber os primeiros hóspedes em dezembro deste ano. |
Outro projeto confirmado e em fase de aprovação junto à prefeitura será implantado na região da Pampulha, área que, segundo Mamngerotti, também é carente de hotéis. Serão 75 apartamentos também de padrão executivo que deverão estar concluídos em 2012. Apesar dos investimentos já confirmados, ele afirma que teme uma superoferta de leitos em Belo Horizonte nos próximos anos, quando estiverem concluídos todos os projetos em curso. “A demanda é sempre maior do que a oferta quando há grandes eventos. Mas em outras épocas, temos ocupação média de apenas 50% a 60% na rede de hotéis”, diz. |
A francesa Accor, dona de bandeiras mundialmente conhecidas como Sofitel e Mercure, é uma das marcas que planeja vários empreendimentos para a cidade. Oficialmente, porém, a rede confirma apenas o Ibis que já está em obras na avenida do Contorno, em pleno coração da Savassi. A capacidade do hotel de padrão econômico que ficará pronto no final de 2011 ultrapassa 200 apartamentos, de acordo com o gerente geral do Mercure de Lourdes e vice-presidente da ABIH, Omar Caffaro. Empresas como Bristol e Royal também têm projetos em andamento na cidade. Há alguns estudos de viabilidade sendo feitos, cujas empresas preferem não divulgar informações. Uma dessas pesquisas estaria sendo realizada para uma multinacional, que não teve seu nome divulgado, para a construção de hotel de altíssimo luxo nas regiões da Savassi, Santo Agostinho ou Lourdes. É aguardar e conferir. |