Este ano certamente ficará marcado na memória dos moradores desse lugar. Logo no primeiro dia de 2010, uma avalanche de terra, árvores e pedras varreu casas, pousadas e vidas na enseada do Bananal. Os danos foram irreparáveis. Além dos prejuízos financeiros, quase todos os moradores da pequena comunidade perderam familiares e amigos. A grande maioria tem origem japonesa. E é da cultura oriental que eles retiram forças para seguir em frente. Gambare foi a palavra escolhida para representar o novo começo. O vocábulo japonês é uma demonstração de apoio e solidariedade daqueles que compartilham os mesmos momentos. Desejar gambare a alguém é como dizer: Força! Coragem! Avante! Tenha garra! Eu estou com você!
E eles estão mesmo juntos na alegria e na tristeza, na dor e na esperança. Passados 60 dias dos deslizamentos, moradores, parentes de vítimas e comerciantes se unem na campanha que leva o nome da expressão japonesa. “Não queremos reconstruir como éramos antes, mas ser ainda melhores”, resume Amanda Hadama, integrante da Apeb, Associação de Pousadas da Enseada do Bananal. Como a maioria dos moradores do vilarejo, Amanda nasceu e foi criada ali. A família, de descendência japonesa, tem uma mercearia na enseada. A queda do movimento do comércio e a perda de um primo e amigos foram sentidas na pele. “Não foi fácil passar por isso, sofremos muito. Mas temos que continuar. E é o que estamos tentando fazer,” relata Amanda.
Algumas prioridades norteiam o trabalho da Apeb, como a revitalização da área devastada, a remoção dos entulhos que ainda se encontram no local e, especialmente, o estudo geológico da região. “Nunca imaginamos que uma coisa como essa pudesse acontecer. Agora queremos nos prevenir para que não ocorra novamente”, explica a integrante da Apeb. Outra ação tomada pela entidade foi a criação de atrativos para o turismo na baixa temporada, como a ampliação do Festival Japonês, que acontece em junho. A ideia é uma tentativa de cobrir parte dos prejuízos dos pousadeiros e comerciantes na alta temporada, que foi um fiasco. Algumas pousadas, embora não tenham sido atingidas pelo desmoronamento, foram interditadas pela Defesa Civil e só liberadas no final de janeiro para funcionamento. Justo na época em que mais faturavam. “Nos dois primeiros meses juntávamos dinheiro para nos manter praticamente o resto do ano. Agora não sabemos como vai ser. Fomos impedidos de trabalhar e as contas continuam chegando”, desabafa Kiyoshi Nakamashi, proprietário da Pousada do Preto, interditada na época. No Carnaval, a pousada teve ocupação de apenas 50%, incomum para o período que costumava ser de lotação máxima. “Houve muitos cancelamentos. Os poucos hóspedes que vieram foram aqueles que já conheciam a pousada e sabiam que não corríamos riscos”, relata. |
Assim aconteceu também no Recanto dos Lima, que teve queda de 90% no faturamento de janeiro. “As pessoas ficaram assustadas com as notícias que viram na televisão e ligaram cancelando, mesmo eu explicando que a pousada ficava longe de encostas e funcionava normalmente”, desabafa o proprietário, Jorge Luiz de Lima. Segundo ele, para se ter uma ideia, apenas no primeiro dia após a tragédia, a pousada teve que devolver 20 mil reais de depósitos das reservas. E os percalços não foram apenas para os comerciantes. Alfredo Nunes Cristianes e a família podem perder a casa onde moram há mais de 20 anos. O imóvel foi atingido pelas chuvas e corre risco de desabar. Mesmo a Defesa Civil alertando sobre o perigo, a família permanece ali. “Quiseram interditar nossa casa, mas eu não deixei. Não temos para onde ir”, alega Vera Lúcia Cristianes. Duas filhas do casal também perderam o emprego. Elas trabalhavam na pousada Sankay. |
E a tragédia se refletiu também longe da enseada do Bananal. Na vila do Abraão, por exemplo, que funciona como centro de Ilha Grande, o movimento caiu bastante. Embora fique a mais de uma hora de barco do local dos deslizamentos, os turistas desapareceram no início do ano. Que o diga Eduardo Sodré. Ele aluga equipamentos de mergulho, mas sua barraca estava cheia deles no Carnaval. “Em outros tempos, não sobrava um sequer esse horário numa época como essa.” O serviço de transporte também foi afetado pela queda no turismo, já que a única forma de chegar à ilha é via mar. O barqueiro Leonardo Nascimento, dono de um táxi boat, diz que o movimento caiu 60% em janeiro. No Carnaval, porém, as coisas já davam sinal de melhora. “As pessoas estão chegando, principalmente os gringos”, relata. |
Ao andar por Abraão era realmente destacada a presença de estrangeiros. Os donos de pousadas, restaurantes e outros comércios confirmaram a prevalência deste público. “Os gringos são bem informados, pegam o mapa, olham onde foi e nossa localização e percebem que não tem perigo”, diz Rodrigo Fa gundes, vendedor de uma operadora de passeios. Segundo ele, os estrangeiros, que sempre marcaram presença por lá, aumentaram ainda mais as visitas à ilha. |
Quem também confirma a predominância do turismo estrangeiro são os donos de um restaurante em Abraão, Jeferson Fogo e Carla Acioly. Em outubro passado inauguraram o comércio. “Estávamos contando com o verão para pagar o investimento. Mas não será possível.” No entanto, apesar do imprevisto, o casal acredita que o retorno dos turistas é uma questão de tempo. “Acho que aos poucos as pessoas vão se esquecer e voltar a frequentar a ilha”, diz Carla. Esquecer uma tragédia como essa é difícil, mas quem conhece Ilha Grande sabe que um episódio isolado como esse, apesar de lamentável, não deverá espantar o turismo no local a médio e longo prazo. Se isso ocorrer, além da tragédia natural, poderá ocorrer outra social, com desemprego e escassez de fontes de renda. Além do mais, é bom que se diga que a ilha, como o próprio nome diz, é grande, e continua linda. |
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Resquícios da SankayEra a concretização de um sonho. Assim pode ser definida a pousada Sankay, dos empresários mineiros Sônia Faraci Imanishi e Geraldo Faraci. O casal deixou Belo Horizonte para abrir o empreendimento de luxo na praia do Bananal. Mas toneladas de terra soterraram o sonho e o transformaram em pesadelo na madrugada do dia 1º de janeiro. Tudo caminhava para uma noite de muita alegria. Além dos hóspedes na pousada, recebiam amigos da filha Yumi, de 18 anos, para a celebração do réveillon. |
Construíram um quarto especialmente para a ocasião. “As obras foram concluídas 20 dias antes do réveillon”, conta Maria de Fátima Alves. Ela e o marido Nerivaldo Francisco Alves eram dois dos mais antigos funcionários da pousada. Ela chefiava a cozinha e o marido era responsável pela manutenção. “A Sankay era nossa segunda casa. Passávamos a maior parte do tempo lá”, relatam. |
Fátima se recorda de detalhes do dia anterior ao drama. Ela tinha preparado a ceia para a noite da festa. “Fizemos um amigo oculto entre nós, funcionários e eles”, conta ela se referindo aos donos da pousada. “O clima estava ótimo. Nos despedimos desejando um feliz Ano Novo a todos.” Fátima foi embora às 17h para festejar com o marido e os filhos a entrada do novo ano. Às 3h da manhã, ao receber o telefonema da patroa, percebeu que algo de muito grave tinha ocorrido. “Corremos pra lá, fomos os primeiros a chegar. A dona Sônia estava arrasada no cais, só pedia para retirarmos as crianças de lá”, lembra-se. Sônia referia-se à filha Yumi e os colegas desaparecidos. “Estava tudo escuro porque acabou a luz. Tivemos muito trabalho para achar o pessoal”, conta Nerivaldo. |
Com a escuridão da madrugada, ninguém tinha noção do que havia acontecido. “Pensamos que era apenas o quarto da menina, construído há pouco tempo, que tinha desabado. Só quando amanheceu que tivemos tempo de ir lá fora e ver o tamanho do estrago”, relata o ex-funcionário da Sankay. Foram mais de 12 horas de trabalho no resgate das vítimas. Apenas às 17h o corpo de Yumi, filha do casal, foi encontrado. “Não dá pra acreditar, ela era uma menina muito alegre e educada,” emociona-se Fátima. |
Depois da tragédia, os donos da pousada voltaram poucas vezes ao local. Ao entrar na casa, que está interditada, ainda há vestígios da noite de réveillon. Luzes, decorações e até estilhaços de taças de champanhe continuam espalhados pelos cômodos. Maria de Fátima e Nerivaldo têm esperanças de voltar a ver a Sankay de pé, funcionando. “Éramos uma família. A dona Sônia e o seu Geraldo sempre nos trataram muito bem. Vai ser difícil encontrar patrões como eles. Sabemos o quanto estão sofrendo. Mas acredito que daqui um tempo, eles podem pensar em reabrir a pousada, nem que seja em outro lugar. Torcemos muito para que seja aqui. Ilha Grande precisa de uma Sankay”, desabafa Fátima, que, como o marido e a maior parte dos funcionários da pousada, ainda não encontrou um emprego fixo. |
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