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Quinta, 24 de Maio de 2012

Saúde

No rastro da AIDS

Estudo no país aponta os municípios com mais de 500 mil habitantes que tiveram aumento e queda nos números de soropositivos

Texto: Fernando Torres | Fotos: Pedro Vilela, Daniel de Cerqueira / Arte: Paulo Werner
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De 1997 a 2007, o Brasil teve alta de quase 24% nos casos de aids. Segundo relatório do Ministério da Saúde, entre os 39 municípios com mais de 500 mil habitantes, 15 deles sofreram aumento percentual. Duas cidades de Minas Gerais estão na lista: Uberlândia leva o 8º lugar, com evolução de 92,4%, e Contagem, o 13º, com 46,1%. Belo Horizonte e Juiz de Fora compõem o quadro das 15 cidades estabilizadas, mas nenhum município mineiro apresentou percentual de queda (veja quadro).


A Viver Brasil conversou com os coordenadores do Programa Municipal de DST/Aids de Uberlândia e Contagem para entender os motivos que levam a esses números. Em Uberlândia, a assistente social Cláudia Spirandeli inicialmente negou os dados, alegando que Belo Horizonte e Uberaba haviam tido maior crescimento. Um dia depois, com o relatório em mãos (enviado pela reportagem), a coordenadora deu algumas explicações. “Por ser a maior cidade do Triângulo Mineiro e ter qualidade no serviço de atendimento à aids, Uberlândia recebe muitos soropositivos de cidades vizinhas. Outra causa é a penitenciária local e o Centro de Educação Socioeducativa (para menores), responsável pela migração de familiares, dos quais muitos são portadores do HIV. Mas a maior razão é a intensificação da testagem, desde 2003, com o objetivo de diagnosticar o vírus precocemente e encaminhar o paciente ao tratamento.”


A gerente do DST/Aids de Con­ta­gem, Luciene Silveira, também justifica o aumento percentual por razões similares. “O período divulgado pelo Ministério da Saúde coincide com a implantação do Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) e do Serviço de Atendimento Especializado (SAE), em 1999, que melhoraram a informação sobre a doença e alavancaram o diagnóstico.” Luciene não vê os números com negativismo. “Embora, com o avan­ço do tratamento retroviral, a população tenha se descuidado em termos de prevenção, o diagnóstico precoce cresceu, o que invariavelmente leva ao aumento percentual divulgado,” raciocina.

Aids x HIV



  • Há muita confusão entre aids e HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana). Muitas pessoas são portadoras do vírus, mas ainda não apresentaram a doença. Quando o portador não faz o tratamento, o HIV provoca a manifestação da aids. Ela acomete as células de defesa (CD4), gera imunodepressão, déficit progressivo do sistema imunológico e abre espaço para infecções oportunistas. Com os medicamentos atuais, o indivíduo soropositivo consegue controlar o HIV e não desenvolver a doença.

Fonte: Infectologista Carlos Starling, presidente da Sociedade Mineira de Infectologia



Tanto Uberlândia quanto Conta­gem têm tomado medidas para conter a epidemia. Ambas as cidades pro­­movem palestras em empresas, escolas e entidades religiosas. Uber­lândia também distribui preservativos e panfletos em postos de gasolina e zonas de prostituição. O SAE dos municípios conta com equipe diversificada, composta de infectologista, ginecologista, endocrinologista, urologista, pediatra, dentista, nutricionista, psicólogo e assistente social. “Primeiro, fomos procurar os casos. Agora, estamos buscando tra­tá-los”, diz Cláudia.


Apesar de a pesquisa também revelar que o vírus migra dos centros urbanos para o interior – a taxa de in­cidência em municípios com me­nos de 50 mil habitantes passou de 4,4 ocorrências em 1997 para 8,2 em 2007 –, realmente a tendência de quem está em cidades menores é se mudar em busca de qualidade de serviço e para estar longe de pessoas que o conheçam e possam discrimi­ná-lo. É o caso do travesti Lady Zu, 46 anos, que descobriu ser portador do HIV quando trabalhava na noite de São Paulo. Natural de Porteirinha, no norte de Minas, não cogitou a possibilidade de voltar para lá. Preferiu se mudar para Uberlândia, onde encontrou apoio na Fraternidade Assis­ten­cial Lucas Evangelista (Fale). “Tomo um coquetel de 500 mg pela 8 manhã e 500 mg à noite e faço exames de três em três meses. Meu estado de saúde está bem, e a carga viral, indetectável”, conta. Atual­mente, Lady Zu trabalha como cozinheiro da Fale.

Evolução da AIDS



Aumento

1. Ananindeua (PA)  380%
2. São Luís (MA)  272,1%
3. Teresina (PI)  254,4%
4. Belém (PA)  230,9%
5. Manaus (AM)  149,1%
6. Jaboatão dos Guararapes (PE)  136,2%
7. Aracaju (SE)  93,4%
8. Uberlândia (MG)  92,4%
9. Recife (PE) 85,8%
10. Maceió (AL) 80,5%
11. Feira de Santana (BA)  67,9%
12. João Pessoa (PB)  56,3%
13. Contagem (MG)  46,1%
14. Fortaleza (CE)  44,3%
15. Salvador (BA)  41%

Queda


1. Ribeirão Preto (SP)  72,5%
2. Sorocaba (SP)  55,3%
3. Santo André (SP)  51,7%
4. Osasco (SP)  51,6%
5. São Bernardo do Campo (SP)  51,1%
6. São José dos Campos (SP)  47,1%
7. São Paulo (SP)  45,1%
8. Curitiba (PR)  34,4%
9. Londrina (PR)  28,5%

 

Fonte: Ministério da Saúde

Carlos, soropositivo há 12 anos: “Procuro não viver o vírus”

Evolução no tratamento



Ano a ano, o tratamento se torna mais confortável, com o lançamento de fórmulas menos tóxicas e mais eficientes. De praticamente fatal, a aids se tornou uma doença crônica plenamente controlável, desde que ha­ja adesão do paciente. No entanto, o diagnóstico e o tratamento tardio ainda são complicadores da doença. “Quem descobre ser soropositivo ape­nas quando apresenta uma infecção oportunista ou número de células CD4 (linfócitos) abaixo de 50 tem prognóstico muito pior e mais dificuldades para controlar a doença”, enfatiza o infectologista Carlos Starling, presidente da Sociedade Mineira de Infectologia (SMI). No Brasil, um dos melhores serviços especializados de atendimento à aids do mundo, o tratamento é gratuito, feito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo a infectologista Tânia Marcial, membro da diretoria da SMI, “inicialmente, são usadas três drogas. O médico acompanha o paciente com exames periódicos e verifica se o vírus está replican­do. Se ele for detectado no sangue, o coquetel é substituído. Isso nor­malmente acontece de três a cinco anos, pois o vírus fica resistente ao medicamento.”


Não se fala mais em tempo médio de sobrevida do portador de HIV. É possível levar uma vida normal – inclusive sexual. Starling garante que o preservativo é uma barreira segura em praticamente a totalidade dos ca­sos. Algumas vezes, essa condição até fortalece as relações em que há apenas um soropositivo. “Identifica­mos os casais que se amam de verdade quando a doença não os afeta”, observa.


Exemplos temos por aí. O auxiliar administrativo Carlos (nome fictício), 37, morador de Contagem, é soropositivo há 12 anos. Mas isso não o impediu de namorar e ter relações sexuais com preservativo. Já a aposentada Sandra Maciel, 48, moradora de Uberlândia, é casada com um soropositivo. Eles também fazem sexo normalmente, sem descuidar da camisinha. “Mesmo que ambos sejam portadores, é importante usar preservativo, pois o HIV sofre mutações”, orienta a infectologista Tânia Marcial. “A carga viral varia de pessoa para pessoa. Se alguém está equilibrado em relação ao vírus, mas se relaciona sexualmente com outro soropositivo sem proteção, sua carga pode ser estimulada”, completa.


A maternidade também é uma questão contornável. Hoje, é perfeitamente possível evitar que os filhos de gestante infectadas contraiam o vírus. As chances  são menores que 1%. Para isso, é necessário um pré-natal bem-feito e exames periódicos. A partir da 17ª semana de gravidez, a futura mãe começa a tomar antivirais – quanto menor sua carga viral, menor a possibilidade de contaminação. “O parto deve ser preferenci­almente cesárea, para que haja me­nor contato do bebê com o sangue da mãe e as secreções”, diz a ginecologista Sonia Vidigal, que atende soropositivas no Pam Sagrada Família.  Após o nascimento, a mãe não amamenta, e a criança faz o teste e toma medicamentos por um mês.

Transmissão do vírus



Pega

  • Relação sexual sem preservativo(anal, vaginal e oral)
  • Drogas injetáveis
  • Durante a gravidez, parto e amamentação (quando a
    mãe é soropositiva)
  • Transfusão de sangue
  • Acidentes ocupacionais com profissionais de saúde

Não Pega

  • Relação sexual com preservativo
  • Beijos e abraços
  • Suor e lágrimas
  • Compartilhamento de talheres e copos
  • Piscina, banheiros
  • Pelo ar
Jaime Ferreira: “Meu pai se recusou ajudar

Preconceito



Diante de tantos avanços da medicina, todos os entrevistados concordam que o maior entrave para os portadores do HIV é o preconceito. O comprador Jaime Alves Ferreira, 35, morador de Contagem, descobriu ser soropositivo em 2001. A notícia caiu como uma bomba para a família. “Meu pai se recusou a me ajudar financeiramente. Movi uma ação contra ele. É uma pena que só consegui pela Justiça aquilo a que tinha direito”, conta. Até hoje, Jaime não conversa com os membros da família que o discriminaram.


Fora do eixo familiar, a situação também não é das melhores para os soropositivos. “Muitas pessoas ainda acham que manter contato, conversar ou tomar água no mesmo copo é o suficiente para transmitir o vírus”, lamenta a soropositiva Sandra Maciel. Para o infectologista Carlos Starling, a sociedade é ambígua e hipócrita. “Nós aprovamos e estimulamos a permissividade sexual, mas temos medo das doenças sexualmente transmissíveis. É uma incoerência moral impressionante”, critica.


Os próprios portadores têm dificuldades para lidar com o vírus. Não à toa, a maioria relata casos de depressão logo após o diagnóstico. “Muitas vezes, conseguir a estabilização emocional é mais difícil do que superar a própria doença. O problema é que as emoções controlam o organismo. Se o paciente está com baixa autoestima, o vírus faz a festa”, relata a psicóloga Tarcila Hofner, do Vhiver, grupo de apoio a aids e DST de Belo Horizonte. Segundo ela, a superação muitas vezes passa por acompanhamento psicológico, que ensina o paciente a conviver com o vírus. “Também recomendo exercício físico para liberar o estresse e combater a lipodistrofia, a perda de gordura em algumas partes do organismo e acúmulo em outras, muito comum nos portadores de HIV”, aconselha.


Foi esse caminho que o auxiliar administrativo Carlos seguiu. Ele diagnosticou o vírus há 12 anos e, apesar do turbilhão de emoções negativas, procurou tratamento de imediato. Desde então, descarrega os maus pensamentos na atividade física. “Faço ioga três vezes por semana, procuro ter alimentação balanceada e não viver o vírus. Tem que ter cabeça boa para aceitar a situação.” Sem banalizar a doença, a sociedade também precisa ter cabeça boa, prevenir, antes de tudo, mas também entender que o HIV não é uma sentença de morte. 

Raio X da AIDS no Brasil



  • De 1980 a junho de 2009, foram registrados 544.846 casos de infecção
  • Desses, 356.427 são na população masculina (65,4%) e 188.396 na população feminina (34,6%)
  • A região Sudeste é a que tem mais casos acumulados nesse período: 323.069 (59,3% do total de notificações no país)
  • Mas o estado com maior incidência é o Rio Grande do Sul, com 43,8 casos por 100 mil habitantes
  • Minas Gerais ocupa a 17ª posição, com 13,1 casos por 100 mil habitantes
  • A média nacional é de 35 mil novos casos por ano, o que configura um diagnóstico estabilizado
  • Entre 1997 e 2007, o número de contaminações masculinas por drogas injetáveis caiu de 22,6% para 7,4%. Entre as mulheres, caiu de 10,2% para 2,6%
  • Em 2007, 47,3% das novas infecções foram registradas em brancos, e 43,3% em negros e pardos

      Fonte: Boletim Epidemiológico 2009 do Ministério da Saúde