O surgimento dos nomes do vice-presidente José Alencar e do ex-presidente Itamar Franco, no processo sucessório mineiro, causa mudanças nas negociações que vinham sendo feitas?
São dois nomes de grande estatura política e se eles estão no processo têm que ser considerados. Naturalmente é um quadro, que no caso específico do vice-presidente, envolve uma situação particular, pelo momento que ele vive com sua saúde. Outro dia, num encontro do Ministério Público, do qual participei também, ele disse que, se a saúde permitir, e se os eleitores desejarem, colocará o nome para disputar uma vaga ao Senado. Numa conversa descontraída afirmou que nesta altura a contribuição que gostaria de dar é no Legislativo. Dada a sua saúde, ele não se disporia a participar de disputa pelo Executivo. Já o presidente Itamar Franco é um homem com grandes serviços prestados ao estado e à nação e que se coloca à disposição. Usando uma metáfora, já garantiu que colocou o meião e calçou as chuteiras e está à disposição. Isto engrandece o quadro político não apenas mineiro, mas nacional. Os próximos movimentos é que vão desdobrar esta equação nas coligações, mas em decorrência do quadro nacional.
O governador já se coloca candidato ao Senado e agora aparecem dois outros nomes. Eles vão se enfrentar nas eleições?
Eu diria que os três, sem deixar de considerar outros nomes também importantes, inclusive do senador Hélio Costa que é pré-candidato ao governo de Minas, são de muita relevância o que sinaliza uma disputa acirrada. Serão apenas duas cadeiras, o que abre a oportunidade para quatro nomes. Itamar Franco e José Alencar são apontados, no âmbito de Minas Gerais, como candidatos ao Senado. Mas eu entendo que o nome do ex-presidente Itamar é uma grande reserva do estado para compor como vice na chapa nacional do governador José Serra.
O senhor ainda acredita nesta possibilidade?
Os mineiros se ressentem de não ter o nome do governador Aécio disputando as eleições e um como o do presidente Itamar Franco pode mudar o ânimo.
O senhor que é político, que conhece a alma do político, acredita que quem já foi o mais, aceitará ser o menos?
Isto depende muito, como você colocou, do que vai na alma. Quando se dispõe a servir, e entendendo que para Minas Gerais ficar à disposição para uma composição é realmente relevante, naturalmente ele não terá vaidades e veleidades pelo fato de ter sido presidente da República. Como, no caso do Itamar Franco, ele foi presidente da República e depois veio a ser governador.
E o processo sucessório mineiro, como está seu encaminhamento?
Eu vejo o processo mineiro como o desdobramento da equação nacional. Vamos ter duas candidaturas, uma retratando o Partido dos Trabalhadores e aquilo que ele conseguir levar de coligação, e a do atual vice-governador, que será governador a partir de abril. Ou seja, o ocupante do Palácio da Liberdade é um candidato natural à reeleição. Eu vejo hoje uma satisfação muito grande dos mineiros como um todo, com o governador Aécio Neves. Então vejo a 8 candidatura do vice com grandes possibilidades de êxito sem, no entanto, desmerecer o quadro mineiro como um todo, com nomes expressivos na disputa, como os colocados pelo Partido dos Trabalhadores e o do senador Hélio Costa. Mas eu acho que há um forte sentimento dos mineiros de dar sequência à administração atual com os avanços que ela possa ter. Este é também o sentimento na classe política. Eu ouço dizer que se o PMDB fechar acordo com o PT em Minas assegura a unidade da base de apoio do presidente Lula, o que é uma falsa colocação, pois a maioria dos partidos que compõem a base de sustentação do presidente apoia, em Minas, o governador Aécio e tem uma tendência natural de continuar no arco de alianças.
Numa disputa sucessória estadual, quem tem mais capacidade de transferir votos ao seu candidato: o presidente ou o governador?
Sem sombra de dúvidas, o governador influencia mais. E isto é uma realidade em todos os estados. A eleição presidencial fica mais distante do eleitor. Aqui em Minas o governador Aécio Neves não será cabo eleitoral. Será general eleitoral.
O senhor é apontado como o mais provável companheiro de chapa do candidato do PSDB, Antonio Anastasia. Mas todos sabem de suas relações estreitas com o senador Hélio Costa. Como encara esta situação de bater chapa com o seu amigo pessoal?
Realmente tenho boa relação com o ministro Hélio Costa. Mas hoje o meu partido, o PP, tem afinidade total com o projeto do governo Aécio Neves e, por isso, com a tendência natural de caminhar com o candidato indicado pelo governador. Se eventualmente vier a compor a chapa, me sentirei muito à vontade, pois estarei num campo que tem muita identidade com o meu partido e com minha visão política. Naturalmente respeitando muito o senador Hélio Costa e sua trajetória como homem público.
Política é a arte de correr riscos. O senhor estará largando uma reeleição certa por uma incerta, caso seja mesmo o vice. O que o motiva?
O que me motiva é poder participar de um governo com a mesma dimensão da administração de Aécio Neves. A vida impõe desafios. Não fico prisioneiro de mandato uma vez que terei a oportunidade de ser companheiro de chapa do futuro governador e poder contribuir também, quem sabe, no Executivo.
O senhor já tinha pensado em concorrer a um cargo do Executivo ou se entusiasmou com o apoio manifestado por deputados que, no plenário, lançaram o seu nome para vice?
O seu nome ser lançado a uma candidatura majoritária, eu sempre soube que teria que ser muito além da própria força ou até das forças partidárias. Ela tem que ser uma convergência de forças políticas, às vezes acima até dos partidos. Os que me lançaram viram em meu nome a oportunidade do parlamento estar representado numa chapa para a disputa do Executivo. Na composição de chapa majoritária, é pertinente se buscar grande líder de uma região. Eu diria que é a partir do apoiamento de meus pares no Legislativo estadual é que eu me credencio. Teve um parlamentar que foi muito feliz em sua colocação. Ele disse que, se consigo agregar 54 parlamentares que representam 700 municípios e, portanto, 700 prefeitos espalhados por todo o estado, meu nome estaria lastreado politicamente em todas as regiões de Minas por meio dos deputados que apoiam.
O senhor já está discutindo a composição da chapa?
Antes eu queria dizer que existe um certo desconforto para falar sobre vice. Até porque vice não é postulação. Eu não me lanço vice. Eu estou sendo posto como vice, embora tenha que me colocar como pré-candidato como um nome inicialmente de meu partido, com apoios, sem o que nada prospera. Conversar eu converso muito, mas estou aguardando o momento...
Mas o senhor já não aguarda com tanta ansiedade, pois seu nome é um dos mais fortes. O senhor já se considera certo?
Não, eu vejo o meu nome como uma opção. Não sei nem avaliar se é o mais forte. Este arco de aliança pode vir a contemplar ainda o PMDB. Agora, naquilo que compete a um pré-candidato, eu estou fazendo a minha parte.
O apoio à candidatura do vice Anastasia vai refletir o que existe hoje na Assembleia, com PT e PMDB na oposição e os demais partidos apoiando?
Hoje eu vejo uma dificuldade interna no PT e no PMDB que poderá desaguar numa dissidência, numa certa apatia. Eu acrescento ainda uma visão que é bastante realista. Os partidos, na realidade, têm contribuição nas eleições majoritárias no tempo que oferecem para a propaganda eleitoral. Você não vê entre as lideranças municipais uma correspondência biunívoca, em que um prefeito de determinado partido vote num deputado e no candidato majoritário da mesma agremiação. Isto é uma realidade que há muito tempo se torna mais aguda em cada eleição. A liderança municipal e o eleitor não excluem candidato de outra legenda para votar apenas no de seu partido.Vota naquele que achar que melhor representa os interesses da cidade. Então, imaginar que um partido é forte pelo número de filiados ou de prefeitos que elegeu, é uma meia verdade. Não estou tirando a representativa partidária do parlamentar. Falo sobre a realidade do voto. Isto é o resultado da pulverização dos partidos, com legendas sem qualquer compromisso. É preciso uma reforma eleitoral.
Acha que haverá uma renovação profunda?
A minha vivência mostra que sempre há índice de renovação que fica na casa dos 30%. Isto é fácil de explicar. Quando se fala em política de forma genérica, há uma grande rejeição, mas quando o eleitor trata especificamente de um político, a rejeição não tem esta dimensão.
Caso seja confirmado na chapa continuará na presidência da Assembleia?
Eu não vejo necessidade de licenciar-me. Considero perfeitamente conciliável. O trabalho legislativo se dá fortemente em três dias da semana: terça, quarta e quinta. Nos outros dias não há sessões deliberativas de plenário, o que nos permite intensificar a representação parlamentar. A campanha no interior do estado dá-se, normalmente, no final de semana. Além disto, numa campanha para o governo, a figura central é o candidato a governador. Cabe ressalvar o dever da minha conduta, como presidente do Legislativo, de maneira imparcial, atuando, como magistrados, fora dos contornos do processo eleitoral.
Minas tem hoje quatro pré-candidatos. Todos com condutas inatacáveis. Isto é um privilégio?
É realmente privilégio. Vou adiante, vivemos um momento singular pela presença de lideranças empresariais na expectativa de ocuparem postos de relevância em entidades nacionais. É o caso do Robson Andrade que deverá ser o novo presidente da Confederação Nacional da Indústria, entidade que representa 30% do PIB nacional.
A ministra Dilma nunca disputou eleições e será candidata. Anastasia nunca disputou eleições e será candidato. Isto significa o quê?
Quinze anos atrás, eu convivia no meio político e era visto como técnico. Hoje sou visto como político. No caso do professor Anastasia, eu vejo alguém que é um técnico renomado, talvez o mais renomado, mas que prima por sensibilidade política, visão política de poucos. Já a ministra Dilma Rousseff, o que a credencia é ser gerente competente, autocrata que bate na mesa, mas para governar é preciso ter capacidade de ouvir, de acertar, à medida que conseguir convergir todas as opiniões. Se o presidente Lula, com os índices de aprovação que alcança, tivesse no seu campo alguém com os atributos do professor Anastasia, este candidato não estaria derrapando num patamar de 20%.