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Quinta, 24 de Maio de 2012

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Relato de um sobrevivente

Testemunha ocular do terremoto que devastou o Haiti, o capitão Leonardo Xavier Zanini narra como foi o dia em que a terra tremeu no Caribe, fala das perdas de 10 companheiros e da difícil missão de reconstruir Porto Príncipe

Texto: Nayara Menezes | Fotos: Arquivo pessoal/ Ernesto Carriço/Agência O Dia/ AE
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Era um final de tarde como outro qual­quer. O capitão Leonardo Zani­ni, 36 anos, fazia reconhecimento de área juntamente com aquele que seria seu substituto no posto de comandante de companhia de fuzileiros da Força de Paz, capitão Her­bert. Ele apresentava ao colega o território que passaria a ser sua responsabilidade nos próximos dias. A bordo de uma viatura do Exército, os dois se dirigiam a órgãos da Minustah (Missão das Nações Uni­das de Estabilização do Haiti). O procedimento de rotina seguia sua normalidade quando foi bruscamente interrompido. “O carro começou a tremer. Achei que tinha estourado o pneu. A viatura ficou instável, trepidava de um lado para o outro.” Ao pararem o carro para verificar o que havia de errado, notaram que algo de muito estranho acontecia. “Estávamos em frente ao aeropor­to, e vimos que o muro parecia uma folha de papel, fazia um movimento de leque. Nesta hora, tive a certeza de que estávamos sendo vítimas de um grande terremoto”, recorda-se o capitão. 

A constatação foi o início do drama que estava por vir. Em questão de minutos, os dois militares tornaram-se testemunhas daquele que em poucos dias seria considerado pela ONU o pior desastre natural da história da humanidade. Até o fechamento desta edição, as estimativas davam conta de pelo menos 200 mil mortos pelos abalos que atingiu a capital Porto Príncipe no dia 12 de janeiro. Cerca de 1,5 milhão de haitianos estão desabrigados e vivem de forma precária em alojamentos improvisados. A ONU já informou que 75% da cidade terá de ser reconstruída. O que deve levar dezenas de anos, segundo os porta-vozes da entidade. O contingente de militares brasileiros era o maior e exercia a função mais importante por ali. Desde 2004, o Exército brasileiro trabalhava para restituir a ordem no país denominado como o mais pobre das Américas. 

O capitão Zanini estava ali há sete meses. Participar como comandante dos fuzileiros da força de paz era a realização de um sonho e importante passo na carreira. “Ele se alistou voluntariamente para fazer parte da Missão da Paz no Haiti. A aprovação foi uma conquista”, lembra a esposa Graziela da Costa Silva Zanini. O início foi assustador. O país vivia sérios problemas sociais e econômicos, haja vista a inexistência de oferta de trabalho. A atividade informal de ambulantes predominava nas ruas da capital. Uma pequena parcela da população trabalhava na indústria alimentícia, em órgãos públicos e na Minustah. “A esmagado­ra maioria sobrevivia em estado de penúria profunda, alimentando-se de biscoito de barro e de restos de lixo”, diz o militar.

Lixo e esgoto a céu aberto eram parte do cenário das ruas de Porto Príncipe



O trabalho também não era fácil.  A jornada ininterrupta de segunda a segunda, salvo algumas dispensas, compunha a rotina pesada para os militares. Eles faziam patrulha motorizada e a pé durante 24h por dia, escoltas de comboio e autoridades, participavam de ajudas humanitárias e eram responsáveis pela segurança de instalações. “Tudo isso sob um sol escaldante de 40 graus em áreas totalmente degradadas pelo lixo e esgoto a céu aberto”, revela Zanini.

Apesar do ambiente áspero e desanimador, o capitão jamais pensou em desistir. Estava certo de que aquela era a missão mais importante de sua vida. A dedicação e paixão pelo serviço militar sempre foram motivos de orgulho para a família. “Ele entrou para o Exército por vontade própria. É uma vocação bonita de se ver”, comenta o tio, o em­presário Lúcio Costa. Mas a admiração deu lugar a sentimentos dolorosos naquele fatídico dia 12. “Foram horas angustiantes”, lembra-se a esposa Graziela. Apenas três horas após as primeiras notícias do tremor, ela foi informada de que o marido estava entre os sobreviventes. “Foi um misto de alívio, mas também de preocupação. Queria  falar com ele para ter a certeza de que realmente estava bem.” Teve que esperar três longos dias. “Quando finalmente ligou, mal conseguiu falar ao telefone. Estava muito abalado pela perda dos companheiros.”

Segundo a esposa, dias antes do terremoto, Leonardo estava feliz, com a sensação de dever cumprido. “Ele tinha grande preocupação em trazer toda a tropa de volta em boas condições físicas e psicológicas.” Não foi possível. Após o terremoto a primeira iniciativa foi se dirigir ao Ponto 22, onde havia estado com os companheiros, há menos de 15 minutos. “A única coisa que passava pela mi­nha cabeça era que tinha que retornar para o Ponto Forte 22.” A caminho da sede, a primeira cena do terror. “Uma senhora saiu rolando pela porta de uma casa.” 

Do Ponto 22, a Casa Azul, militares mantinham vigilância 24 horas por dia



Minustah

A Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti foi estabelecida em 2004 após um período de insurgência e a deposição do presidente Jean-Bertrand Aristide. O Exército brasileiro foi designado para comandar as tropas militares, desde o início

Missão brasileira:

  • Desde 2004 até dezembro de 2009: 13.323 militares já passaram pela Minustah
  • A cada seis meses ocorre a troca de contingente. Este ano o revezamento estava marcado para ocorrer do dia 11 a 29 de janeiro. Muitos não voltaram para a casa
  • Além dos três brasileiros civis que morreram  na tragédia, 18 militares foram mortos durante o terremoto. 10 deles estavam no Ponto 22, a famosa Casa Azul
  • Efetivo brasileiro no momento do terremoto: 1.267 homens
  • Após o episódio, o governo brasileiro conseguiu a aprovação para o envio de mais 1.300 militares
  • Orçamento de 2004 até 2009: R$ 704,5 milhões foi o valor desembolsado pelo governo brasileiro
  • Orçamento de 2010: US$ 140 milhões

Fonte: Ministério da Defesa

Não sobrou quase nenhuma construção de pé após os tremores



Aquela era uma das muitas imagens que certamente ficarão guardadas na memória do capitão Zanini e de todos aqueles que estiveram presentes na capital haitiana no dia 12 de janeiro de 2010. Casas, prédios e várias construções ficaram em ruínas. As ruas já não existiam mais. Uma nuvem de poeira encobriu a multidão desesperada, incrédula com aquilo que acabara de acontecer. Pessoas gritavam de um lado para o outro sem saber para onde ir. Não havia sentido ou direção a seguir. “Acontecia um descontrole da população em busca de socorro. Muitos levavam feridos para serem cuidados no Hospital Argentino”. As condições para o atendimento às vítimas eram precárias em meio à desordem total.  “A cidade virou o que podemos chamar, no sentido literal, de caos”, define Leonardo. 

Ao finalmente chegar ao Ponto 22,  cenário desolador se descortinou. A Casa Azul, nome dado ao edifício pelos habitantes, símbolo de segurança e remodelação do país, havia desabado. Junto com ela, toda a esperança do povo haitiano que acompanhava a reestruturação do país pelos soldados brasileiros. Antes da chegada das tropas, o prédio, que era um dos mais altos da região, servia de base para gangues que tentavam atrapalhar o trabalho da Minustah. A tomada da Casa Azul, há dois anos, foi um importante marco para a missão brasileira. Tragicamente ali onde estavam 10 dos 18 militares brasileiros que morreram no episódio.

O capitão fala com tristeza sobre as baixas sofridas. Mais do que subordinados, eram amigos. “Con­vi­víamos juntos desde o início da preparação. Além do meu trato diário como comandante, tinha uma parte afetiva muito forte com todos.” Entre eles, um amigo especial: o capitão Bruno Ribeiro Mário. Faltavam apenas quatro dias para Bruno embarcar de volta ao Brasil. Não deu tempo. “Tinha um contato muito próximo com ele. Era tenente e foi promovido a capitão como justa homenagem do Brasil à sua dedicação como soldado da paz”, conta ao lamentar a perda do amigo.

Sobreviventes no Haiti se impressionam com a destruição



Surpreendentemente não são apenas tristezas e decepções que compõem o cenário de uma tragédia. Por mais inacreditável que possa parecer, a alegria também é um sentimento possível. O resgate do soldado Marinho foi uma dessas boas surpresas para o capitão Zanini. “Foi a maior vitória que passei, junto com outros militares, ao conseguir retirá-lo dos escombros vivo, com poucos feri­mentos.” Passado o choque inicial, e, não obstante às perdas e ao duro golpe em ver o trabalho realizado cair por terra, o capitão tira lições do ocorrido. “O povo haitiano possui uma força interior impressionante para vencer as dificuldades. A­pós o terremoto, pude perceber a vida retomando ao que era, mesmo com o ce­nário totalmente devastado. Um exemplo de superação para todos nós,” define.

Ao retornar ao Brasil no último dia 29, Leonardo trouxe junto com a bagagem muitos planos. Pretende visitar as famílias dos 10 amigos que perdeu no Haiti. Quer se dedicar ao estudo de idiomas e deve ingressar na Brigada de Infantaria paraquedista, para onde foi transferido, no final do ano passado. A ideia de voltar ao Haiti e participar da reconstrução do país, porém, não é descartada.  “Acredito que esta seja a missão mais importante do Exército brasileiro na atualidade. Aprendi que não existem fronteiras para ajudar o próximo e fazer o bem. A vida se torna grande à medida que você ajuda as pessoas menos favorecidas. Hoje, após a experiência, sou um homem muito mais simples e humilde, por acreditar que desta forma, posso estar mais perto de Deus.”

 

DIÁRIO DA TRAGÉDIA

6h 
“No dia do terremoto me levantei às 6 horas, tomei meu café acompanhado do oficial substituto”
 
7h 
“Após o café realizei uma corrida dentro da base, cerca de 4 km, depois tomei banho e me arrumei para participar da reunião diária do comandante do batalhão. No encontro foram passadas diretrizes sobre o embarque da tropa que iria realizar o rodízio”
 
9h 
“Retornei da reunião para meu posto de comando, e despachei a documentação pessoal dos militares que iriam embarcar no final do dia 12 de janeiro”
 
10h
 
“Logo após terminar de assinar os papéis realizei a despedida de um pelotão da companhia dirigindo algumas palavras de reconhecimento pelos excelentes serviços prestados, e materializando a cerimônia foram agraciados 28 militares com o distintivo da Missão de Paz no Haiti”

12h30
“Terminada a formatura segui para o almoço junto com o subcomandante capitão Renan”

14h 
“Após o almoço, me desloquei até a minha área de responsabilidade, juntamente com meu substituto, capitão Herbert. Nesta região percorri os pontos mais importantes”
 
17h40 
“O último foi o Ponto Forte 22 (Casa Azul). Neste local conversei com o tenente Bruno Mário (uma das vítimas do terremoto) e cumprimentei alguns militares. Depois embarquei na minha viatura e continuamos a percorrer a área” 

17h53 
“Aproximadamente 15 minutos depois ocorreu o primeiro tremor, que foi o de maior intensidade. Retornei para o Ponto Forte 22 e lá fiquei até retirar o último homem”



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