Só o amor não basta
A crise amorosa não acontece necessariamente pela falta de amor, mas sim pela ausência do uso da palavra na relação. Essa é uma das constatações do psiquiatra e psicanalista paulista Alfredo Simonetti no livro O Nó e o Laço (Integrare Editora) que acaba de lançar sobre relacionamentos conjugais. Com 25 anos de experiência no atendimento clínico, Simonetti diz que as pessoas não se casam somente pelos atributos como beleza e inteligência do parceiro, mas são unidas pelas neuroses.
Confira a seguir:
O amor é o fator mais importante para uma relação feliz?
Pude descobrir que não. Com muita frequência escuto homens dizerem “Amo esta mulher, mas...”, ou mulheres dizerem “Amo este homem, mas...”. Então resolvi escrever um livro sobre este mas que tantos problemas causam na relação amorosa.
Os nós aumentaram?
Sim. Mas devemos entender isto como positivo. Significa que as pessoas não se contentam mais com relações ruins. Elas buscam casamentos mais satisfatórios e as crises fazem parte desta busca.
No livro, o senhor diz que o amor é estabelecido a três: ele, ela e a palavra. Qual a importância da palavra na relação?
É a palavra que faz o casamento. Os corpos fazem sexo, fazem filhos. Um casal pode fazer muitas coisas juntos, como se divertir, transar, ter afinidades e mesmo assim não ter relação mais consistente. É somente quando a palavra entra em campo, quando um dos dois tem a coragem de fazer a perguntinha de ouro (“mas, e nós o que somos?”) que o casamento começa a se estruturar. Não amar é preciso falar. Pense bem: seu parceiro resolveu se casar com você, mas de que vale tudo isto se ele não diz de vez em quando “eu te amo”?
As neuroses se casam?
Esta é uma questão desconcertante, mas verdadeira. Uma pessoa dominadora tende a escolher um parceiro submisso, ou dito de outro jeito, uma pessoa submissa vai escolher alguém dominador e às vezes passar o resto da vida a reclamar do outro. Sim, as neuroses se casam, ou melhor, casamos com o lado saudável da pessoa, mas também com seu lado complicado. Casamos com uma pessoa por sua beleza, mas junto com sua beleza, que amamos e desejamos, vem junto um monte de outras características do outro que não conhecemos e que não toleramos. É o nó.
Qual a maior ilusão do amor romântico?
A fantasia de uma relação perfeita, sem dificuldades, sem nós. E o que a vida demonstra é que um casamento feliz não é um casamento sem nós, mas um casamento no qual os parceiros aprenderam a transformar os nós em novos laços amorosos.