Pelo que parece, Regina Lacerda aprendeu mesmo a mais importante lição de vida com Baltazar, o avô paterno, considerado seu primeiro educador e referência de amor nos tempos de criança e adolescência. As adversidades e mágoas do passado não endureceram seu coração nem fizeram do sorrir um ato penoso. A psicóloga apaixonada e empenhada pela profissão é também mãe do tipo coruja confessa e leoa, se necessário, de Thiago, 29, Juliana, 30, e Gabriel, 32, e mulher, há 35 anos, do prefeito da capital mineira, Marcio Lacerda. Transmite alegria e bom humor no jeito de se expressar, esperança no falar, fé e religiosidade gigantescas desprendidas de instituições, mas centradas no simbolismo acerca da figura do Cristo. “Ele é a resposta mais forte do ponto de vista espiritual.”
Os desdobramentos da orfandade de mãe aos 7 anos e, de pai, aos 9, a criação pela tia que, por suas razões, não tornou sua vida nada cor-de-rosa e a perda do bebê aos oito meses de gestação quando o marido cumpria liberdade-condicional da prisão política e dos dois irmãos mais velhos renderam feridas, que Regina aprendeu a curar ao longo do tempo. O estímulo para seguir em frente foi herança do avô, paralítico, supercatólico e de origem modesta em Itabira (MG), com quem foi morar após ficar órfã e se separar dos quatro irmãos, que foram viver com parentes distintos.
Ao longo de mais de duas horas, Regina Lacerda conversou e como (ela adora falar!), e abriu, generosamente, o coração. Abordou a veneração e orgulho pela família que formou e o trabalho voluntário na Associação Municipal de Assistência Social (Amas). Também riu de si mesma, a exemplo de passagens como a que revela que seu francês, inglês e italiano apenas servem para sobrevivência em aeroportos e restaurantes, emocionou-se, fez emocionar a interlocutora e, claro, não falou de política, universo rotulado como complexo demais. “Isso é para o Marcio.”
Quando surgiu o interesse pela psicologia?
Meu primeiro vestibular foi para medicina, meu grande sonho. Mas, depois que passei na Ciências Médicas – quarto lugar geral – avaliei que não poderia pagar. Então decidi pela psicologia na UFMG, pelo curso ser de graça e também pelo interesse que nutria pelo ser humano. Ainda quando fazia atendimento individual de psicologia, comecei a trabalhar com o Marcio como gestora de recursos humanos de nossas próprias empresas, que chegaram a empregar 5 mil funcionários.
Fale do pathwork, trabalho que adotou como norte para o atendimento em seu consultório de psicologia.
Seu significado quer dizer trabalho do caminho. É uma metodologia de autoconhecimento e desenvolvimento pessoal formatada há mais de 35 anos pela americana Eva Pierrakos e aplicada em dinâmicas de grupos. Fui pioneira da técnica em Minas, mas me especializei em Salvador, onde fiz curso de seis anos e meio. Hoje atendo a quatro grupos de 70 pessoas e também coordeno formação de facilitadores. Atualmente, exploro somente esta técnica porque há identificação profunda com sua abordagem terapêutica e espiritual.
Quais as maiores demandas e conflitos dos clientes de consultório?
Com pacientes na faixa dos 40 anos, seus questionamentos giram em torno da busca do significado da vida, da dificuldade de introduzir novos movimentos que cada ciclo de existência demanda.
E como foi a parceria com a Amas?
Neste serviço voluntário presto consultoria técnica psicossocial duas vezes por semana para projetos e programas desenvolvidos pela entidade, que atende mil jovens de áreas de risco social. Comecei com 42 alunos e hoje permanecem 22 deles em dois grupos distintos: um de 15 a 17 anos e, outro, de 18 a 22 anos. O foco trabalhado é o projeto de vida destes jovens que inclui temas como saúde, relacionamentos, escola e trabalho, a partir do autoconhecimento e da avaliação de conflitos. Tem sido extremamente compensador, envolvente. Estou me realizando com as mudanças obtidas, crescimentos, encontros. Ao mesmo tempo em que há dor, sofrimento, há superação, conscientização. Em 2010, retomo o trabalho com supervisão de nova turma e acompanhamento das antigas. Também promovo palestras em regionais da prefeitura sobre assuntos como mudanças, motivação e liderança. Está sendo meu maior desafio profissional.
|
|
Fazendo às vezes de terapeuta, como se vê como pessoa? E como mãe? Como se relaciona com a família?
Quais seriam os passos para o sucesso de se relacionar a dois? Quais são seus maiores medos? Frustrações?
Pontos positivos e negativos em ser casada com um homem público. Como avalia o primeiro ano de mandato do prefeito? |