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Quinta, 24 de Maio de 2012

Entrevista

Regina Lacerda

A psicóloga e mulher do prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda, fala de família, profissão, planos, trabalho social. Só a política ela preferiu deixar de lado

Texto: Luciana Avelino | Fotos: Daniel de Cerqueira
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Pelo que parece, Regina Lacerda aprendeu mesmo a mais importante lição de vida com Baltazar, o avô paterno, considerado seu primeiro educador e referência de amor nos tempos de criança e adolescência. As adversidades e mágoas do passado não endureceram seu coração nem fizeram do sorrir um ato penoso. A psicóloga apaixonada e empenhada pela profissão é também mãe do tipo coruja confessa e leoa, se necessário, de Thiago, 29, Juliana, 30, e Gabriel, 32, e mulher, há 35 anos, do prefeito da capital mineira, Marcio Lacerda. Transmite alegria e bom humor no jeito de se expressar, esperança no falar, fé e religiosidade gigantescas desprendidas de instituições, mas centradas no simbolismo acerca da figura do Cristo. “Ele é a resposta mais forte do ponto de vista espiritual.”

Os desdobramentos da orfandade de mãe aos 7 anos e, de pai, aos 9, a criação pela tia que, por suas razões, não tornou sua vida nada cor-de-rosa e a perda do bebê aos oito meses de gestação quando o marido cumpria liberdade-condicional da prisão política e dos dois irmãos mais velhos renderam feridas, que Regina aprendeu a curar ao longo do tempo. O estímulo para seguir em frente foi herança do avô, paralítico, supercatólico e de origem modesta em Itabira (MG), com quem foi morar após ficar órfã e se separar dos quatro irmãos, que foram viver com parentes distintos. 

Ao longo de mais de duas horas, Regina Lacerda conversou e como (ela adora falar!), e abriu, generosamente, o coração. Abordou a veneração e orgulho pela família que formou e o trabalho voluntário na Associação Municipal de Assistência Social (Amas). Também riu de si mesma, a exemplo de passagens como a que revela que seu francês, inglês e italiano apenas servem para sobrevivência em aeroportos e restaurantes, emocionou-se, fez emocionar a interlocutora e, claro, não falou de política, universo rotulado como complexo demais. “Isso é para o Marcio.”

 

Quando surgiu o interesse pela psicologia?
Meu primeiro vestibular foi para medicina, meu grande sonho. Mas, depois que passei na Ciências Médicas – quarto lugar geral – avaliei que não poderia pagar. Então decidi pela psicologia na UFMG, pelo curso ser de graça e também pelo interesse que nutria pelo ser humano. Ainda quando fazia atendimento individual de psicologia, comecei a trabalhar com o Marcio como gestora de recursos humanos de nossas próprias empresas, que chegaram a empregar 5 mil funcionários.

Fale do pathwork, trabalho que adotou como norte para o atendimento em seu consultório de psicologia.
Seu significado quer dizer trabalho do caminho. É uma metodologia de autoconhecimento e desenvolvimento pessoal formatada há mais de 35 anos pela americana Eva Pierrakos e aplicada em dinâmicas de grupos. Fui pioneira da técnica em Minas, mas me especializei em Salvador, onde fiz curso de seis anos e meio. Hoje atendo a quatro grupos de 70 pessoas e também coordeno formação de facilitadores. Atualmente, exploro somente esta técnica porque há identificação profunda com sua abordagem terapêutica e espiritual. 

Quais as maiores demandas e conflitos dos clientes de consultório?
Com pacientes na faixa dos 40 anos, seus questionamentos giram em torno da busca do significado da vida, da dificuldade de introduzir novos movimentos que cada ciclo de existência demanda.

E como foi a parceria com a Amas?
Neste serviço voluntário presto consultoria técnica psicossocial duas vezes por semana para projetos e programas desenvolvidos pela entidade, que atende mil jovens de áreas de risco social. Comecei com 42 alunos e hoje permanecem 22 deles em dois grupos distintos: um de 15 a 17 anos e, outro, de 18 a 22 anos. O foco trabalhado é o projeto de vida destes jovens que inclui temas como saúde, relacionamentos, escola e trabalho, a partir do autoconhecimento e da avaliação de conflitos. Tem sido extremamente compensador, envolvente. Estou me realizando com as mudanças obtidas, crescimentos, encontros. Ao mesmo tempo em que há dor, sofrimento, há superação, conscientização. Em 2010, retomo o trabalho com supervisão de nova turma e acompanhamento das antigas. Também promovo palestras em regionais da prefeitura sobre assuntos como mudanças, motivação e liderança. Está sendo meu maior desafio profissional.

“Sinto que sou como aquelas lanterninhas antigas de cinema. Tento iluminar os caminhos das pessoas...”



    



Fazendo às vezes de terapeuta, como se vê como pessoa?
Considero-me impulsiva, passional. Sou geminiana. Mas melhorei muito com a terapia. Como tenho demelhorar ainda mais como pessoa e acabar de me conhecer – este é um processo para o resto da vida –, continuo com a terapia duas vezes por semana. Não estamos vivendo o aqui e agora por acaso e, sim, para nos conhecermos mais e nos tornarmos melhores. Temos de buscar o algo a mais, ir além do trivial: o tempo ruge. Sinto que sou como aquelas antigas lanterninhas de cinema. Tento iluminar os caminhos das pessoas para verem melhor e se situarem, encontrarem-se. Também sou bastante questionadora, mente aberta. Sou, ainda, compulsiva por comprar livros. Leio vários ao mesmo tempo. No momento, estou lendo: Vida Líquida, Amor Líquido,  A Grandeza Humana – 5 Séculos da Arte e Dois Irmãos. 

E como mãe?
Sempre fui de colocar limites. Deixava claro para meus filhos, na época devida, o que podiam fazer, o que não deveriam e o que nem adiantaria cogitar, como andar de moto, por exemplo. Por outro lado, era bastante carinhosa. Preferia tê-los por perto a deixá-los sair por aí sem saber direito como era o lugar que iam e com quem iriam estar. Lembro de uma vez que queriam ir acampar em um sítio de pais que não conhecia. Resultado: ficaram acampados na sala lá de casa mesmo com amigos por quatro dias, com direito a barracas, lanternas e privacidade total.
 
Qual é a melhor lembrança da sua infância e adolescência?
O convívio com meu avô, Baltazar, foi ímpar. Ele era muito especial. Mesmo com a limitação da paralisia, vivendo em uma cadeira de rodas, não reclamava de vida nem falava mal das pessoas e tinha uma fé incrível. Meu interesse pela literatura nasceu por causa dele. A partir dos 10 anos, passou a me pedir com frequência para ir à Biblioteca Pública de BH pegar obras de autores da fina nata da literatura – como Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade – e ler para ele em casa. Era nova e, muitas vezes, não entendia bem do que se tratava. Mas, ele dizia que as palavras iam descer, ficar por aí e, quando precisasse, entenderia o sentido delas.

Como se relaciona com a família?
Acostumamos, Marcio, eu e nossos filhos, a compartilhar, na medida do possível,  rotinas, pensamentos, vivências. É interessante porque isso nos une muito, nos aproxima cada vez mais. Somos uma família sólida, com filhos corretos, especiais. Eles sempre foram e são nossas melhores companhias de viagens.


E a vida em comum com o Marcio?
Conhecemos-nos quando ainda estudava psicologia na Federal. Como tinha uma educação muito rígida e pouquíssima liberdade, raramente saía. Mas, numa oportunidade, fui acompanhar uma amiga que ia se encontrar com um rapaz que ela estava interessada em antigo bar na Savassi (Largo do Batuta) e, o Marcio, por sua vez, estava acompanhando-o. Foi amor à primeira vista. Pensei comigo: vou casar com este cara. Oito meses depois, estávamos casados. E, ele, conta para as pessoas que pensou o mesmo. O meu gostar é tanto que costumo dizer que, na próxima encarnação, vou me casar com ele de novo.

Quais seriam os passos para o sucesso de se relacionar a dois?
Todo relacionamento é uma cadeira de três pernas: as minhas coisas, as coisas dele e as nossas coisas. Para tirar a prova de compatibilidade de convivência, diria que uma viagem de ano inteiro juntos é bem reveladora.

Quais são seus maiores medos?
Acho que, no geral, fui limpando-os. Mas tenho grande receio de perder a lucidez ou ficar dependente fisicamente em uma UTI.

Frustrações?
Arrependi muito de ter trabalhado tanto quando meus filhos eram recém-nascidos, pequenos. Nunca me permiti resguardo maior do que 15 dias. Se pudesse voltar no tempo e tivesse a cabeça que tenho hoje, teria trabalhado, no máximo, duas horas por dia até completarem 10 anos. Para eles, no entanto, não houve danos, mas eu que me cobro por isso. 


Planos, projetos, sonhos?
Estou num momento de reflexões, sentindo vontade de me aquietar. Voltei até a fazer meditação, que tinha deixado de lado. Isso já tinha acontecido antes, há cerca de quatro meses, mas por resistência não cedi, não respeitei minha necessidade. Senti muito mal-estar. O corpo deu sinal. Na maioria das vezes, tendemos a não escutar nossas falas internas. Em paralelo também estou selecionando mais os compromissos.

Pontos positivos e negativos em ser casada com um homem público.
Como positivo, ver realizado a partir do Marcio projetos de cidadania, que também são meus como cidadã. Como negativo, a perda da privacidade, da liberdade de ir e vir como tínhamos antes dele assumir a prefeitura. Sempre fomos de trabalhar muito, 12, 14 horas por dia. Mas, hoje, temos muitos compromissos sociais, de protocolos a cumprir que, muitas vezes, nos fazem abrir mão dos pessoais. Particularmente não tenho grandes problemas, preocupações com popularidade. Gosto muito do contato com as pessoas, mas não aprecio que ninguém invada meu espaço. Por mais que se esforce, ninguém é amado por todo mundo. 

Como avalia o primeiro ano de mandato do prefeito?
Muito bom. A exemplo da administração das empresas de família, quando foi meu chefe por 25 anos, considero que continua sendo excelente gestor. Possui capacidade absurda para trabalhar. Conse­guiu realizar grande parte do proposto. In­­felizmente, o metrô não deslanchou, já que aguarda verba do governo federal. O Marcio é muito bom para negociar, estimular e conta com equipe muito boa. É uma pessoa calma, tranquila, competente.