Os alunos marcham em uníssono. Pé direito e esquerdo batem o chão em perfeita sintonia. “Vocês estão sentindo? É o poder da comunidade”, entusiasma o professor, enquanto entoa o barulho da união. O que era para ser um experimento inocente da aula de autocracia se transforma num perigoso movimento de grupo. A brincadeira começa quando o professor Rainer pergunta a seus alunos se seria possível que a Alemanha revivesse um estado totalitário. “Jamais, somos educados demais”, responde um deles, seguro de que sistemas ditatoriais são coisas do passado e de que a civilização não mais poderia se entregar a um ideal com tanto fervor. Eles estavam enganados. O grupo uniformizado vira febre na escola e o professor perde o controle sobre a situação. Baseado em fatos reais, o filme alemão A Onda (Die Welle, 2008) entrou em cartaz no Brasil num momento que não poderia ser mais apropriado. No dia 22 de outubro de 2009, alunos da Universidade Bandeirantes (Uniban), de São Bernardo do Campo, entraram numa reação em cadeia agressiva e de dar medo. Tudo porque a estudante de turismo Geisy Arruda usava vestido considerado curto demais.
Filme e realidade se misturam. Fazem-nos questionar quem somos, como e por que podemos ter comportamentos como esses. Afinal, somos todos humanos, há em nós algo do que houve nos estudantes da Uniban. Qualquer um em potencial poderia estar ali e seguir o comportamento do grupo, para o bem ou para o mal. Temos que lembrar que no tumulto da Uniban, a maioria gritou e agrediu verbalmente, mas também houve quem protegesse a Geisy e tentasse ajudá-la (no filme alemão houve momentos de solidariedade entre os integrantes do grupo).
A questão da catarse coletiva e do comportamento de grupo vem sendo estudada pela psicologia social há mais de um século. O sociólogo francês Gustave Le Bon (1841-1931) foi pioneiro no assunto ao afirmar que por mais heterogêneo que seja o grupo, cria-se uma espécie de mente coletiva que faz com que os integrantes sintam, pensem e ajam de maneira muito diferente do que fariam se estivessem isolados. O sociólogo francês Émile Durkheim defendia, também no final do século XIX, que a construção do ser social é a assimilação pelo indivíduo de uma série de normas e princípios – morais, religiosos, éticos ou de comportamento – que balizam e reprimem a conduta individual. “O homem, mais do que formador da sociedade, é um produto dela”, escreveu o fundador da sociologia moderna.
Freud, o pai da psicanálise, aprofundou o assunto, e no princípio do século XX dizia que quando indivíduos se reúnem num grupo, todas as suas inibições individuais caem e instintos cruéis, brutais e destrutivos se despertam. É como se os filtros e as repressões sociais, necessárias para o convívio coletivo, caíssem por terra, dando espaço a emoções primitivas. É como se perdêssemos o lado humano e nos aproximássemos da essência bicho. Para a psicanálise, o indivíduo é um poço de desejos reprimidos que no grupo se afloram. “Usa-se o grupo como um meio de extrapolar esses desejos. Em grupo, passa-se muito rápido do pensamento ao ato”, analisa Armando Colognese Júnior, professor e supervisor do departamento de Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e autor do livro A trama do equilíbrio psíquico. Nesses momentos, não há um filtro racional controlando nosso comportamento.
Em grupo, o indivíduo está mais propenso às emoções do que à razão, e termina por fazer coisas que não faria sozinho. Infantilizado e sem o filtro racional em plena atividade, há propensão de um contágio coletivo. “Além da diminuição da racionalidade, há ainda a diminuição da responsabilidade e da culpa”, analisa Anna Mathilde Pacheco, professora aposentada do departamento de Psicologia Social da Universidade de São Paulo (USP). A combinação é explosiva. Para bem ou para mal.
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Apesar de o grupo ter uma tendência a gerar atitudes emotivas e pouco racionais, não há necessariamente relação direta entre multidão e violência. “Multidões já fizeram revoluções no sentido positivo, como o caso dos estudantes de 1968, a queda do muro de Berlim, a Primavera de Praga, e até mesmo os caras-pintadas nas ruas pedindo o impeachment do Collor. São reações de massa, desencadeadas por alguém que fala abaixo a ditadura. Agora, quando a palavra de ordem é destrutiva vira um perigo”, analisa a professora de psicologia do esporte da USP, Kátia Rubro, especialista em torcidas organizadas. Ela compara o comportamento violento das torcidas brasileiras ao episódio Uniban. “São ambos contagiados por muita emoção.” Mas ressalta que casos de linchamentos são muito distintos ao que aconteceu com Geisy. “A imprensa comentou que ela foi ameaçada de linchamento, mas nós entendemos o linchamento como outra questão”, comenta.
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