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Quinta, 24 de Maio de 2012

Entrevista

Da Fiesp para o governo de São Paulo

Nem Confederação Nacional das Indústrias, nem senador, nem deputado. O presidente da Federação das Indústrias de São Paulo, Paulo Skaf, afirma que só sai do atual cargo se for para governar o estado mais rico do país

Texto: Flávio Penna | Fotos: Robson Regato
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Ele é o presidente da toda poderosa Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp). Foi um dos responsáveis pelo fim da CPMF, comandando uma campanha que mexeu com os brasileiros e movimentou, diretamente, mais de um milhão e meio de pessoas. Agora, por meio do Sesi e do Senai paulista, está envolvido numa outra grande batalha: oferecer, a mais de cem mil crianças e jovens, ensino de qualidade em tempo integral em 211 escolas do sistema. Projeto ousado, que o estimulou a buscar voos mais elevados, fora da representação classista. Paulo Skaf está filiado ao PSB e poderá ser o candidato do partido ao governo paulista. Ele é otimista quanto ao desenvolvimento de nossa economia, defende a urgência das reformas estruturais e prevê muitas surpresas nas eleições de 2010. Para ele, o povo quer mudanças.

Queria começar nossa conversa tratando de um assunto ligado à sua liderança empresarial. Quem será o novo presidente da Confederação Nacional da Indústria, a CNI?
Vamos ter um mineiro que é o Robson Andrade. Evidentemente as eleições ainda não ocorreram, mas há um entendimento entre nós para que o Robson suceda o Armando Monteiro. Ele tem a disposição para enfrentar o desafio e o apoio dos demais companheiros, daqueles que decidem.

Seu nome chegou a ser colocado para o cargo. O senhor trocou a CNI pela política partidária?
Nunca pretendi o cargo e, portanto, não teria como trocar nada. Eu tenho até que agradecer aos companheiros que falaram que eu tenho o perfil para a presidência da confederação, mas sempre disse a eles que não estava nos meus planos. Primeiro porque tenho a possibilidade de me eleger para um novo mandato na Fiesp, permanecendo até 2015 e também por estar muito feliz com o trabalho que venho realizando na federação, no Ciesp, Sesi e Senai.

E a filiação partidária?
Estou há vários anos em entidades de classe, com dois mandatos na Associação Brasileira da Indústria Têxtil e Confecção, no Sindicato da Indústria Têxtil de São Paulo, um mandato no Sebrae-SP e na Fiesp. Fui estimulado a aceitar uma filiação partidária, que não significa,  obri­gatoriamente, uma candidatura. Chega um momento em que você deve procurar novos desafios e, por isso, me filiei a um partido político.

Caso  não consiga viabilizar sua candidatura ao governo de São Paulo, como está posto, o senhor admite disputar outro cargo, de deputado ou senador, por exemplo?
Não, eu não penso não. Eu estou aqui e muito feliz com as missões que tenho a realizar como presidente da Fiesp. Nós estamos realizando, junto com as outras entidades ligadas ao setor, um grande programa educacional. Estamos reformando 127 das 211 escolas do Sesi para oferecermos escolas em tempo integral às crianças a partir dos seis anos e até o ensino médio que terá, a partir do se­gundo ano, ensino profissionalizante, criando mão-de-obra altamente qualificada para o país. Estamos implantando faculdades de tecnologia. Então, temos trabalhado muito em defesa do país, mas acho que posso trabalhar ainda mais. Se lá na frente o destino me reservar a missão de disputar o governo de São Paulo, aceito e vou me empenhar pela eleição. O pré-requisito da filiação já cumpri. Se não for para candidatar ao governo, fico aqui onde,repito, estou muito bem.

O senhor fala sempre em educação. Na sua opinião, as falhas de nosso sistema educacional podem ser um gargalo para que o Brasil saia definitivamente da crise e alcance um ritmo forte de crescimento?
Penso que esta crise serviu para mostrar a energia, a vitalidade do Brasil. Não faço, portanto, qualquer associação da crise com nossas questões, especialmente educação. Ela veio do sistema financeiro internacional. Mas independente da crise, nós temos uma série de outras crises: na segurança pública, na educação, nas drogas, na saúde. Precisamos estimular não a exportação de commodittes, mas de produtos inovadores, agregando valor. E isto está, sem dúvida, ligada à educação. Daí por que defendo a escola integral, com ensino profissionalizante, no ensino médio, dos 6 aos 18 anos.

Como fica o setor exportador com a desvalorização do dólar?
A vitalidade de nossa economia fez com que o Brasil seja o único país no mundo a apresentar aumento de investimentos estrangeiros em 2009. Isto também pressiona a desvalorização do dólar. Então, o que pode ser bom de um lado, pode ser ruim de outro, porque o dólar barato, barateia artificialmente as importações e encarece artificialmente as exportações. Então o exportador, por estas duas razões, o câmbio e a  crise em seus compradores, este ano não se recupera, mas eu creio que em 2010, com os sinais de melhora que a gente vê no mundo, este setor que ainda falta sair da crise, vai se recuperar, com a retomada do desenvolvimento de seus compradores.

“Robson Andrade será o novo presidente da CNI. Há entendimento entre nós para que ele suceda o Armando Monteiro”



Como chegar a um crescimento sustentável sem a realização das reformas estruturais?
Gostaríamos de ter as reformas hoje. Só que somos realistas e não acreditamos em reformas no último ano de governo. Reformas são promovidas no início de governo. No ano que vem, quando os candidatos já estiverem es­colhidos, vamos procurá-los para propor as reformas trabalhistas, previdenciária, tributária, pegando um certo compromisso deles em torno destes temas. Esperamos que o eleito realize as reformas, se possível, no primeiro trimestre de 2011. Se considerarmos as necessidades do país, reforma para hoje. Realidade: reformas no primeiro trimestre de 2011.

Algumas delas são, certamente, impopulares. O senhor acha que alguém terá a coragem, substituindo o Lula bonzinho, de patrocinar medidas duras, mesmo que necessárias?
Bom, primeiro que aquele que quer agradar a todos, não agrada a ninguém. Segundo um presidente, ou uma presidente, eleito em 2010, promovendo as reformas no primeiro trimestre de 2011, terá praticamente quatro anos de mandato ainda. Nos primeiros meses, algumas pessoas não ficarão felizes, mas os resultados farão com que ele tenha o reconhecimento de que fez o que o Brasil precisava.

Há escala de importância nesta reforma?
Considerando a necessidade, a oportunidade que o Brasil apresenta de crescer acima de 6% ao ano, de realização de investimentos com a Copa e Olimpíadas, gerando milhares de emprego, penso que não podemos deixar de fazer nosso dever de casa, melhorando nossa infraestrutura e realizando as reformas estruturais. O governo terá que se concentrar em todas as reformas ao mesmo tempo.

Não é muita coisa para um Congresso que, historicamente, não tem conseguido fazer as coisas andarem?
Que é muita coisa, isto é, só que o Brasil já espera há muito tempo. Nossa legislação trabalhista é dos anos 40. A reforma tributária, pelo menos nos últimos anos, entrou e saiu da pauta dezenas de vezes. O problema é que o Brasil vem perdendo há décadas com a burocracia excessiva,com a alta carga tributária, com a cobrança injusta, com a informalidade, com a guerra fiscal. Nos anos 1980 os números do Brasil e da China eram parecidos. Na reforma tributária, por exemplo, já discutimos muito e, quando se chegou a um bom projeto, começaram as pressões de governos e iniciativa privada, transfor­mando-o numa colcha de retalhos.

Feitas as reformas, é possível o Brasil crescer a que taxas?
Promovidas as reformas no Brasil, o país investindo em inovação, em educação e maciçamente em infraestrutura, para que a falta de transportes, de portos, rodovias, aeroportos, não nos atrofie, teremos condições de crescer 5% a 6% não por um ou dois anos, mas por décadas.

A crise, na opinião do senhor, mostrou a necessidade de um estado mais forte?
Acho que o estado tem seu papel e a iniciativa privada tem o seu. O empreendedorismo e o empreendedor são fundamentais para o país. O estado tem que ser um facilitador dos investimentos de indutor. Em determinadas áreas tem que exercer sua função de regulamentação, impondo suas regras.

Recentemente o presidente Lula iniciou embate com o setor produtivo,
especialmente com a Vale, acusando-a de ter se precipitado na crise,
dispensando pessoal e reduzindo investimentos.
Olha, cada um tem seu papel. O presidente da República, quando vem uma crise, não pode ficar passando pessimismo. Então ele cumpriu o seu papel, procurando passar otimismo, esperança, porque isto ajudaria. As empresas, aqueles empresários responsáveis por pagar suas contas, quando sentiu despencar sua demanda, parando de vender, de faturar, sem que viesse solução, tomaram medidas preventivas. Colocaram o pé no breque. É como se você estivesse numa estrada, a 120 km/hora e surgisse uma grande tempestade. É lógico que você colocaria o pé no freio, reduziria a velocidade e, eventualmente, até parasse no acostamento esperando a tempestade passar. Então, cada um tem seu papel. Isto é democracia. Enfim, todos cumpriram o seu papel.

Há um quadro de candidaturas à Presidência colocado.
O senhor vê diferenças entre eles?
Há diferenças brutais nos perfis, no preparo, na experiência, na visão de país entre eles. Um país não pode ser visto apenas num único foco. Tem que ser visto em 360 graus. A principal característica de um presidente da República é a visão aberta, enxergando tudo de uma forma muito ampla. Então eu acho que eles são muito diferentes entre si.

Há dois discursos nesta disputa. Quanto ao tamanho do estado de um lado e a qualidade da gestão pública de outro. Como o senhor vê esta discussão? Ela preocupa?
Acho que o momento não é de reduzir ou aumentar o estado. É de buscar eficiência e serieda­de na gestão pública. Em 2002 havia preocupação com a mudança que poderia ocorrer no país com a eleição do Lula. Eu fui dos primeiros empresários a apoiar abertamente o Lula. Eu já o conhecia e sabia que ele não iria oferecer riscos ao mercado, que é muito sensível e, às vezes, as pessoas ficam mais preocupadas do que deveriam ficar com o merca­do. O resultado está aí, com o governo Lula apresentando um saldo bem positivo. Hoje eu não vejo qualquer preocupação com algum dos candidatos, como havia naquela época. Na minha avaliação, vamos ter grande renovação política. A sociedade quer novidades, mudanças positivas. Quer coisas que ainda não ocorreram. Tudo satura. Veja o Japão, tão conservador, onde a oposição ganhou. Nos Estados Unidos, quando começou a corrida, alguém acreditava nas chances do Obama? E ele é o atual presidente. Eu não tenho dúvidas de que a sociedade está disposta a apoiar novas propostas, novas pessoas, a honestidade de verdade, a competência, a eficiência. Acho que vamos ter muitas surpresas em 2010.