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Quinta, 24 de Maio de 2012

Cidades da Copa 2014

A 20 km uma cidade só para a Copa

Pernambuco se prepara para construir não apenas um estádio, mas toda uma cidade próxima a Recife para receber o evento esportivo de 2014

Texto: Nayara Menezes | Fotos: Nélio Rodrigues
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A capital do Frevo e do Maracatu foi uma das 12 cidades escolhidas para sediar os jogos da Copa do Mundo de Futebol. Mas problemas como o tráfego e a dificuldade em encontrar espaço adequado fizeram com que o município de São Lourenço da Mata roubasse a cena de Recife. A maioria dos cerca de 100 mil habitantes da cidade, que fica a 20 km do marco zero da capital pernambucana, ainda não consegue vislumbrar o que irá acontecer ali nos próximos anos. É realmente difícil imaginar o projeto, desenhado pelo Comitê Pernambucano para a Copa, numa área em que hoje não existe absolutamente nada da estrutura necessária para receber um evento esportivo.


Três locais nos arredores de Recife foram analisados antes da escolha. Mas o fácil acesso e a posse pública do terreno foram pontos cruciais na hora de bater o martelo. A futura Cidade da Copa, como vem sendo chamada, está localizada no limite de quatro municípios, São Lourenço da Mata, Recife, Olinda e Jaboatão. O terreno fica às margens da BR-408 e nas proximidades das BRs 101 e 232. As três rodovias serão duplicadas. Esta e outras obras já estavam previstas no cronograma do governo, antes do anúncio da Fifa. A construção da estação de metrô Cosme Damião, também já planejada, terá ligação direta entre o estádio e o aeroporto internacional, facilitando a chegada dos torcedores à arena. A um quilômetro do local se encontra o Terminal Integrado de Passageiros (TIP), outra opção de acesso.

Além do estádio, o projeto prevê a construção de um hospital, um centro comercial e uma rede de hotéis, um verdadeiro aglomerado. Para os governantes esta será uma oportunidade de desenvolvimento nos arredores da capital pernambucana. “Estudos urbanísticos já apontavam necessidade e possibilidade de expansão no vetor oeste do estado como 2º polo de desenvolvimen­to”, avalia o secretário executivo de obras do estado, Zeca Brandão. Ele, que participou dos estudos dos três projetos, diz que o eleito reunia as melhores condições. No entanto, te­me a morosidade no andamento das obras, que ainda nem começaram.

O vídeo desta matéria estará disponível a partir da próxima terça feria, dia 01/12.

Zeca Brandão: “É preciso planejar para colher os frutos”



O secretário executivo do Comitê Gestor de Planejamento Urbano, Silvio Bom Pastor, justifica o atraso. “Nós levantamos questões que ainda não foram esclarecidas pelo governo federal.” Ele se refere a pontos relativos ao financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Segundo Bom Pastor, antes do fim do ano as dúvidas deverão ser sanadas. A partir daí será publicado o edital de licitação para a escolha da empresa que irá compor a Parceria Público Privada, modelo que norteará o processo. O investimento deve somar cerca de 1,5 bilhão de reais. A maior parte do montante virá do parceiro privado, que, ao que tudo indica, será a Odebrecht, responsável pelo estudo de viabilidade econômica do projeto.

Para o secretário executivo de obras, Zeca Brandão, a falta de cultura em parcerias público privada no Brasil pode ser um dos entraves ao processo. “Porém, esta é uma chance de mudar a história”, afirma o secretário, que vê a Copa como uma vitrine do Brasil para o mundo. “No entanto, para isso é preciso planejamento. O evento pode ser um sucesso para a cidade, como foi o caso de Barcelona, ou um fracasso, a exemplo do que aconteceu em Atenas.”  Mas segundo Bom Pastor, é na cidade espanhola que o Comitê está se espelhando. “A ideia é investirmos em coisas que ficarão como legado para a população, como na aquisição de novos vagões do metrô, na duplicação de avenidas, na expansão comercial da região, entre outros.”

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Embora possa trazer prosperidade para Recife e região metropolitana, o empreendimento não agrada a todos. No terreno onde será construída a Cidade da Copa vivem cerca de 10 famílias. O local abriga ainda a Obra de Maria, um centro de recuperação para dependentes químicos. Como a terra é de propriedade do governo e todos os que se fixaram lá são considerados invasores, haverá a desapropriação dos imóveis. Mesmo com a indenização prometida pelo governo, muitos não se conformam em deixar as casas onde construíram um lar. “Quando vim pra cá só tinha mato. Se não fosse a gente, hoje isso aqui seria esconderijo de bandido”, alega José Vieira da Silva, 51 anos, mostrando as plantações de banana, milho e macaxeira, fontes de subsistência dele e da família.

Situação semelhante vive o vizinho, Severino Augusto Inácio, também não muito contente com a desapropriação. “Foi aqui que construímos nossa casa, cultivamos nossa terra, criamos nossos filhos. É um canto sossegado, e não sei se vou encontrar outro com o dinheiro que eles vão pagar”, questiona. Segundo ele, o governo ainda não estipulou o valor das indenizações e nem o prazo para o pagamento. Ao contrário de seu Severino, a esposa, dona Maura da Silva, está feliz da vida com a possibilidade de morar em local mais urbanizado. “Aqui a gente fica muito largado. Não chega transporte público. Eu sou doente e, pra ir pro médico é uma luta só”, conta. 

Severino e Maura: casal vai ser desalojado



Satisfeitos ou não, o certo é que eles não têm alternativa. Segundo a Secretaria de Planejamento, até o início de março de 2010 as obras devem ser iniciadas. Pelo visto, será uma corrida contra o tempo, pois, além da desapropriação do terreno, há muito a ser feito por aquelas bandas. Para quem passa hoje pela BR-408, não há sequer uma sinalização indicando que ali, em breve, será construída a Cidade da Copa. Para chegar ao terreno, é necessário contar com a ajuda de algum membro da Secretaria de Planejamento ou dos policiais que fazem a patrulha das terras, com intuito de evitar novas invasões. É o que deseja coibir o poder público. Afinal, aquele cenário sofrerá mudanças radicais a partir de 2010. Uma cidade nascerá ali. Como diriam os pernambucanos: rapaaz... , não é pouca coisa!
BR–408, que dará acesso à arena, será duplicada

Confira pontos positivos e negativos



De goleada

- O terreno onde será construída a arena está localizado à margem de 3 rodovias, o que facilitará o acesso dos torcedores
- Será construída ainda uma estação de metrô, que terá ligação direta com o aeroporto
- O aeroporto internacional de Recife já atende às exigências da Fifa, mas será ampliado
- Possibilidade de desenvolvimento de outro polo econômico na Região Metropolitana de Recife 
- Como será construído do zero, o estádio atenderá a todas as exigências da Fifa e contará com tecnologia de ponta
- Recife e cidades da região metropolitana, como Olinda, oferecem vários pontos culturais e históricos de beleza ímpar aos turistas

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Na retranca

- As obras ainda não tiveram início. O edital de licitação da Parceria Público Privada ainda não foi publicado
- Se não for bem estudada a expansão econômica e social da região, corre-se o risco da arena tornar-se um elefante branco perdido em São Lourenço da Mata
- As cidades que receberão a maior parte do turismo têm de ampliar a capacidade hoteleira e precisam melhorar a mobilidade urbana
- O projeto seria muito mais viável, caso dois dos principais times da cidade – Sport e Náutico – se comprometessem a transferir seus jogos para o novo estádio. As negociações com os clubes, porém, ainda não foram seladas
- Recife, sendo a principal cidade-sede das quatro que compõem a região metropolitana, precisa melhorar sua infraestrutura urbanística e resolver problemas relacionados ao tráfego, que é bem intenso na região

ARENA



O moderno estádio terá 129.581 m² de área construída e capacidade para 46.154 torcedores, todos sentados. O campo segue o modelo europeu: sem alambrado, nem fosso. Terá cinco tipos de arquibancada, camarotes e tribuna de honra cobertos. O campo de jogo será ao ar livre. Como exige a Fifa, o estacionamento terá 6 mil vagas, sendo 1.600 delas subterrâneas
Silvio Bom Pastor: “Queremos deixar o legado da Copa para a cidade”

Violência



Estudo, realizado em conjunto com o Ministério da Justiça no ano passado, aponta Recife como a capital mais violenta do país. Com objetivo de reduzir os crimes, foi firmado o Pacto pela Vida, entre a sociedade organizada e os poderes públicos. A proposta é traçar estratégias para reduzir o número de crimes violentos em Pernambuco. Desde o início do pacto houve diminuição de 20% na taxa de crimes violentos na capital e de 15,4% na região metropolitana. A segurança ainda não foi um dos pontos discutidos pelo Comitê Pernambucano para a Copa, mas, o secretário Silvio Bom Pastor afirma que, como se trata de um evento temporário, será mobilizada toda a guarda municipal e estadual necessária para garantir a segurança durante o evento. “Nossa maior preocupação é continuar batendo as metas do Pacto pela Vida, que garantirão a segurança permanente do estado, e não temporária”, afirma.