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Quinta, 24 de Maio de 2012

Brasil

Náufragos

Quem dera fossem apenas histórias de pescadores mas, no caso deles, a experiência traumática de um naufrágio é algo que nunca conseguirão esquecer

Texto: Cláudia Rezende | Fotos: Pedro Vilela
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Por algum motivo, os naufrágios fascinam pessoas. Na telona, por exemplo, são temas de grandes produções que levam milhões às bilheterias, como foi o caso de Titanic (1997) e O Náufrago (2000). Tirando o glamour do cinema, esses episódios nada têm de fascinante. Pelo contrário, são tenebrosos para quem os viveu. Quatro histórias reunidas nesta reportagem mostram como o pesadelo de estar em uma embarcação que afunda ou emborca transforma a vida dos entrevistados. Um caso na Bahia, outro, no Rio Grande do Sul, o famoso naufrágio do Bateau Mouche e um veleiro no lago Paranoá, em Brasília, estão no enredo dos sobreviventes. A água agitada invadindo a embarcação, o vento batendo na proa e o barco dançando são imagens que se fixam no pensamento durante anos. Mesmo assim, é possível impedir que os traumas atrapalhem a vida pessoal ou profissional. Cada um a seu jeito, Gustavo, Maurício, Boris e Ricardo, vítimas dos naufrágios, contam suas experiências e como buscaram superar o acontecimento.

Maurício Sales



O passeio com a namorada na praia do Morro de São Paulo, na Bahia, em dezembro de 2006, transformou-se em um dos piores momentos da vida do engenheiro Maurício Sales, 41 anos. Eram cerca de 128 pessoas no catamarã, um tipo de embarcação que possui dois cascos. “A viagem foi caótica porque o barco ia contra o vento, que estava batendo forte nas ‘bochechas’. Muitas pessoas estavam enjoando”, lembra. Para piorar, diz, o comandante do barco estava navegando muito forte, o que aumentava o impacto contra as ondas.

Como tem problema de coluna, Sales preferiu viajar em pé, na proa. Foi de lá que viu uma fumaça do óleo diesel escapando do motor. Pessoas que estavam na varanda começavam a ficar intoxicadas e vomitavam. “Chegou uma hora em que um grupo saiu assustado da área coberta para a varanda, falando que a água estava entrando”, lembra. Era o casco que tinha trincado. De repente, o barco começou a tombar para o lado direito e mais água foi entrando. As pessoas começaram a pedir colete salva-vidas. No momento em que a situação ficou mais crítica, não tinha como a embarcação se aproximar da costa, que era cheia de pedras. “Um motor parou. A água já estava na minha canela e arrancou uma porta do barco”, diz. Já era noite, e o pânico havia se instalado na embarcação.

As pessoas se acotovelavam, espremidas. Uma onda forte atingiu o catamarã e arrastou três senhoras para o mar. “Vi que estava perigoso e pulei na água”, conta.  A namorada não quis acompanhá-lo e ele a perdeu de vista. Pessoas começaram a pular. Apesar da situação crítica, apenas uma pessoa morreu, um senhor de 60 anos. “Só achamos o colete dele. Acho que dormiu e se afogou quando o colete desamarrou”, diz. O corpo só foi encontrado sete dias depois. Quando conseguiu ver a namorada novamente, ela estava se afogando porque havia muitas pessoas próximas e não dava para nadar. “Vi a mão dela e fui tirá-la de lá. Ela bebeu muita água com óleo diesel”, lembra. Segundo ele, muitos ficaram sem coletes porque não havia em número suficiente para todos.

Alguns optaram por ficar na parte do barco que não afundou. Os botes não puderam ser usados porque não havia como cortar as cordas que os prendiam.
O seminaufrágio aconteceu por volta das 19 horas. As vítimas começaram a ser socorridas às 22 horas, conforme Sales. “Eu estava preparando minhas energias para amanhecer o dia no mar”, conta. Para passar o período com mais segurança, o engenheiro formou um grupo de dez pessoas. Como era instrutor de mergulho e tinha mais experiência, ele tentava dar suporte psicológico e orientar as pessoas. “Falava para ficarem de costas para as ondas e tentava tranquilizar”, relata. Sales lembra com pesar que teve que afastar uma pessoa do grupo porque, como estava muito nervosa, poderia desestabilizar os outros.

Três anos depois, ele conclui que cada um tem seu tipo de dor. “Minha namorada (atual esposa) não anda em embarcações mais. Tem traumas complicados e ficou com sequelas. Para mim, o pior foi que eu queria ter ajudado mais pessoas, mas não tinha jeito porque eu não podia largar a namorada. Eu queria dar meu colete para uma mãe que estava com o filho, mas minha namorada não deixou”, lamenta. Ele conta que ainda se lembra, perfeitamente, de uma criança que, com medo, colocou a mão no rosto e de um passageiro que pediu para segurar a mão dele.

O engenheiro conta que sonhou cerca de três meses com pessoas morrendo e ele sem poder ajudar. Na primeira vez em que foi atravessar o mar em uma balsa, Sales sentiu medo, mas não quis deixar que o trauma tomasse maiores dimensões. “Sempre tive amor pelo mar. Continuo tendo”, afirma. Para superar o problema, começou a fazer análise e, para evitar dificuldades futuras, passou a se equipar com lanterna e canivete ao ir para o mar. 

Ricardo Alexandre Cardoso



Mar sempre foi a extensão da casa para o pescador Ricardo Alexandre Cardoso, 33 anos, que mora em Santa Catarina, na cidade portuária de Itajaí. A vida dele se alterna entre períodos com a família, em terra, e semanas em alto mar, com os companheiros de pesca. Foi em uma dessas viagens a trabalho que Cardoso passou pela experiência de ficar três dias e três noites à deriva. O ano era 1996. Ele tinha saído atrás de um peixe que só se encontra no mar profundo. A previsão era ficar entre 20 e 25 dias navegando. Lá para o décimo dia, a embarcação estava no Rio Grande do Sul, quase na fronteira com a Argentina. Era domingo, e o dia amanheceu ruim. Por causa disso, os tripulantes decidiram ancorar o barco. A intenção era esperar o tempo melhorar para continuar o trabalho. Não foi possível. Por volta das 15h25, um navio que veio do Rio de Janeiro com 200 metros de comprimento bateu contra a embarcação. “Começou a fazer água no barco aos poucos, levou uns 20 minutos para afundar”, conta. Enquanto o barco afundava, os tripulantes correram para liberar a boia salva-vidas e pular no mar. No mar, os oito tripulantes subiram na boia, tipo uma câmara de pneu, porém com fundo. Ela tinha capacidade para 12 pessoas e era equipada com kits de sobrevivência, como água potável e ração. “Ficamos três dias e três noites nessa situação. Nas condições de tempo em que estávamos, era impossível uma embarcação conseguir localizar e chegar perto da gente. Contamos com a sorte”, afirma.
 A segunda-feira foi o pior dia. “Nunca tinha visto o mar daquele jeito”, afirma. Ele conta que, no dia do resgate, já tinha parado de chover, mas o tempo ainda estava ruim. No período em que ficou à deriva, Cardoso enfrentou, com os amigos, sol escaldante durante o dia e friagem à noite. “Isso revirava a pele da gente”, diz. Segundo o pescador, é difícil explicar os sentimentos quando se está à deriva em alto mar. “A gente não sabe o que vai fazer, o que vai dizer. Um só olhava para a cara do outro e abaixava a cabeça. Era terrível”, diz. Durante o dia, os tripulantes criaram a rotina de tirar a água de dentro da boia para evitar que ela congelasse seus pés à noite, que era o pior momento. “A coisa ficava feia. Era escuridão total”.

Para sobreviverem, os pescadores tiveram que contar apenas com o equipamento de sobrevivência da boia. A ração era uma espécie de bala de goma, que acabou derretendo com a água que entrava. Mesmo assim, os tripulantes a usavam para passar no lábio. Quando foram encontrados, estavam a 60 milhas – em torno de 111 mil metros – do local do naufrágio, em águas uruguaias. Para Ricardo Cardoso, foi um “verdadeiro milagre” os oito tripulantes terem sobrevivido. “O pessoal da terra achava que a gente já tinha morrido”, lembra. Ele conta que, quando chegaram, houve passeata para recebê-los. Apesar dos protestos da família, ele não deixou a profissão e, hoje, já está de novo em alto-mar. “Parar não dá. Não fiquei com medo de voltar a navegar. O mar é tranquilo. Quem o desobedece são os pescadores”, observa. Segundo ele, o problema é que as pessoas ignoram as informações passadas por rádio e da meteorologia, que é “muito exata”. Segundo ele, o naufrágio serviu para dar mais experiência ao grupo. Por exemplo, agora, tem cuidado redobrado em manter a vigilância sempre alerta para desviar dos barcos maiores a tempo.

Gustavo Gonçalves Mesquita de Moura



Naufrágios não são exclusividade do mar. Águas aparentemente tranquilas, como as de um lago, também podem levar barcos a afundar e provocar sustos nos tripulantes. Acostumado a velejar desde a adolescência, o designer Gustavo Gonçalves Mesquita de Moura, 27 anos, queria um pouquinho mais de aventura e, há dois anos, comprou um veleiro que desliza mais rápido sobre as águas, chamado hobbie cat. “É um barco esportivo, mais leve. Não tinha muita experiência com ele”, conta. O local escolhido para a viagem inaugural foi o lago Paranoá, em Brasília, um lugar calmo, não fosse a tempestade que se armava sobre a cidade. Havia outros velejadores no momento, mas eles nada puderam fazer quando o hobbie cat tombou. “Me jogou para a água, para baixo dele”, lembra. Como estava com colete salva-vida, Moura flutuou em seguida. O casco do barco ficou para cima e foi o ponto de apoio do designer durante as mais de três horas que ficou esperando socorro. Segundo ele, com o horário de saída e previsão de chegada, outros velejadores acompanham os que saem para a água. Dessa forma, acharam estranha a demora de Moura e acionaram o Corpo de Bombeiros. “Saí para velejar à tarde. Já era noite quando me acharam.”Moura conta que não sentiu medo de morrer, mas teve outras sensações. “Me sentia impotente. Como era um lago, eu sabia que, em algum lugar, eu iria chegar. Mas estava ansioso para tudo acabar logo”, diz.

Outro problema que incomodava o designer eram os cortes que ele sofreu na perna e que estavam sangrando bastante. Depois do susto, Moura conta que passou a “respeitar mais o barco” e colocou kits de sobrevivência dentro dele, como primeiros socorros e lanterna. Além disso, também treinou como virar e desvirar o veleiro para as situações emergenciais. “Peguei experiência da pior forma poss

Boris Lerner



Na virada de 2008 para 2009, completaram-se exatos 20 anos do naufrágio do Bateau Mouche, no litoral do Rio de Janeiro, que matou 55 pessoas. Havia mais de 150 na embarcação, e uma delas era o consultor tributário Boris Lerner, 56 anos. No acidente, ele perdeu a esposa e o filho de seis anos. Além disso, morreram um casal de amigos com o filho. Era para ser a comemoração da chegada do Ano Novo, mas se transformou em pesadelo que já dura mais de 20 anos.

De acordo com Lerner, a embarcação estava superlotada, o que já dava para perceber antes mesmo do início do afundamento por causa da escassez de comidas e bebidas do bufê para tantas pessoas. Cerca de duas horas depois da saída e pouco antes da meia-noite, o barco afundou. “Foi muito rápido. Eu fui um dos poucos que conseguiram pegar colete salva-vidas porque estava no piso inferior e eram difíceis de desamarrar”, conta. Lerner lembra que chegou a colocar um colete no filho, mas não conseguiu amarrar. Também entregou um para a esposa.

O casco ficou virado por um tempo, e o consultor tributário conseguiu subir nele. “As pessoas pediam ajuda, e eu procurava pelos meus. Tirava pessoas da água e gritava o nome dos meus familiares”, conta. Então, uma marola jogou todo mundo na água e afundou de vez a embarcação. O consultor não tem nem ideia do tempo em que ficou à deriva. “Perdi a noção completamente”, diz. Depois de um tempo, o socorro chegou. “Jogaram todo tipo de coisa para a gente se apoiar”. Ao subir no barco socorrista, Boris Lerner sofreu o choque de ver o filho boiando de costas. “Reconheci pelo tênis. Tentei me jogar na água, mas não deixaram”, conta. O corpo do menino foi resgatado e tentaram reanimá-lo, mas já não era mais possível. Lerner só encontrou o corpo da esposa no Instituto Médio Legal, para fazer o reconhecimento.

Para ele, as pessoas que organizaram o passeio de réveillon foram inconsequentes e não respeitaram o mar. Os sobreviventes entraram na Justiça para pedir a punição dos responsáveis pelo acidente, mas, até hoje, não foram indenizados. Os culpados foram proibidos pela Justiça de atuar no ramo marítimo. Durante o processo, conforme Lerner, foram descobertos vários problemas, como pagamento de propinas, manutenção indevida do barco e sonegação fiscal, envolvendo a empresa.

Os acusados receberam pena de prisão, mas nenhum deles encontra-se recluso no momento. “É o retrato do Brasil. A Justiça tem gosto de impunidade. A perda dos familiares, o tempo vai amenizando, mas a impunidade, não”, afirma.
Com relação ao trauma do naufrágio e da perda, o consultor tributário procurou se refazer. “Nunca fui aficionado pelo mar, mas, a partir do naufrágio, passei a frequentá-lo para entender o que acontecia. Fui ao encontro do mar e, hoje, tenho muito conhecimento”, diz. Na vida pessoal, ele também não se acomodou. “Refiz minha vida, construí outra família, mas não perco de vista o que aconteceu. Falta apenas a Justiça, único ingrediente para eu ser pleno hoje.”