É aquela velha história: a cozinheira dobra a receita do bolo, mas mantém a mesma forma. Resultado: num determinado momento a massa vai transbordar, sair para todos os lados, sujar o forno e por aí vai. A mesma comparação pode ser feita em relação ao tráfego aéreo brasileiro. A massa vem aumentando a cada ano. De acordo com a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), o total de desembarques domésticos aumentou 42% em outubro deste ano se comparado ao mesmo mês do ano passado. Resultado: 5,369 milhões de pessoas desembarcaram nos aeroportos brasileiros. Já a forma utilizada para suportar os novos ingredientes continua a mesma. Diante destas constatações, até quando nossos aeroportos suportarão a realidade exata dos números sem que ocorra mais um caos na aviação civil brasileira, como a de 2008, caso não ocorram investimentos pesados?
A Infraero confirma a tendência de aumento na demanda de passageiros nos aeroportos brasileiros para os próximos anos. Aliás, raríssimas vezes a demanda pelo transporte aéreo caiu, sempre duplica a cada sete anos. Em nota, a Infraero afirma a existência de diversas obras de pequeno, médio e grande portes na maioria dos 67 aeroportos que administra. No entanto, o professor de transportes aéreos e aeroportos da Faculdade Politécnica da USP, Jorge Eduardo Leal Medeiros, ressalta que até houve investimento em aeroportos do Nordeste, mas outros grandes e muito utilizados, como o de Guarulhos, na Grande São Paulo, foram esquecidos. “Estudam a ampliação em Guarulhos há 10 anos e este estudo nunca é concluído”, diz o professor.
Na opinião de Jorge Medeiros a Infraero não tem demonstrado ser uma empresa disposta a fazer os investimentos necessários, já que deixou de aplicar recursos nos aeroportos que administra, apesar da necessidade. Além do mais, o poder público, segundo o professor, não tem priorizado os aeroportos brasileiros. Por isto, ele é a favor de que haja privatizações ou concessões de alguns deles para empresas privadas. O presidente da Azul Linhas Aéreas, Pedro Janot, não vai tão além, mas indica pontos que poderiam ser transformados dentro da Infraero. “Deveria ter continuidade de projetos na empresa, que já trocou de presidente três vezes desde julho do ano passado; é preciso ampliar e equalizar a capacidade dos aeroportos”, salienta. Janot diz, ainda, que os aeroportos de Guarulhos está saturado, o de Congonhas limitado a 34 voos por hora e no de Brasília faltam terminal de passageiros e pátio para aeronaves. No entanto, de acordo com a Infraero, não há aeroportos em situação crítica, do ponto de vista de segurança e infraestrutura. Porém, a Infraero tem urgência nas reformas e melhorias que estão sendo feitas no Galeão e na retomada das obras de Guarulhos, Goiânia, Macapá e Vitória, alega a empresa.
Outra ação da Infraero deverá ser nas 12 cidades que serão sedes da Copa do Mundo 2014. As intervenções nos 16 aeroportos são consideradas prioritárias. Para Pedro Janot, estes investimentos vão apenas atenuar os problemas, já que a projeção é de crescimento da aviação civil no Brasil. “Em Viracopos, por exemplo, não vi resultados importantes das intervenções até o momento”, destaca o presidente da Azul. Ele salienta que em São Paulo, nos últimos quatro anos, o número de passageiros não aumenta por falta de estrutura dos aeroportos, que estão sobrecarregados. Para Janot, a curto prazo, o ideal seria melhorar o processo de gestão na Infraero, mas no caso de São Paulo, a saída seria a construção de mais um aeroporto; de Belo Horizonte, a abertura da Pampulha para aeronaves superiores a 50 assentos, pois Confins já está com problema de capacidade. Na opinião do economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, se os investimentos na infraestrutura aeroportuária não forem concretizados logo, o país poderá ter grandes problemas com o transporte aéreo. “Estamos prestes a viver um caos na aviação civil. Por isto, os investimentos em nossos aeroportos têm de ser iniciados o mais rápido possível”, destaca o economista. Entre as obras que estão previstas para o próximo ano, estão o início da reforma do terminal de passageiros e a construção do segundo viaduto de aeronaves em Brasília, e, em Porto Alegre será ampliada a pista de pousos e construído um terminal de cargas. Há também a previsão da conclusão e entrega da pista de Parnaíba e da torre de controle de Congonhas. A estimativa da Infraero é de teto orçamentário de 1,5 bilhão de reais. Mas é possível que haja adequações dentro da Lei Orçamentária Anual. “O problema é que só se fala em projeto, mas eles não são colocados em prática”, lamenta Pedro Janot. O executivo completa que espera que as obras sejam realmente concretizadas, mas sem atravancar a movimentação dos aeroportos. Os passageiros agradecem. |
Congestionamento no ar e em terraDesembarques em linhas internacionais Assentos em voos nacionais Assentos em voos internacionais Acumulado do ano Fonte: Anac |
Aviação nacional em númerosCia Aérea / Variação em outubro (%) / Fatia de mercado (%) *Não têm base de comparação com outubro/2008. Fonte: Anac |
Belo HorizonteAeroporto de Confins Obra / Valor (milhões) / Data conclusão TOTAL: R$ 475,93 Obra / Valor (milhões) / Data conclusão TOTAL: R$ 5,08 TOTAL GERAL: R$ 481,01 |