“O bagulho é doido, Zezinha”, afirma o vapor do tráfico J.V.S.O, 22 anos, sobre o crack, droga que vende há 2 numa das esquinas da favela Morro das Pedras, região oeste de Belo Horizonte. Junto com ele, num mesmo quarteirão, pelo menos 30 rapazes participam deste movimento, 24 horas por dia, em sistema de revezamento. Ao contrário da cocaína, que tem picos de vendas nos fins de semana, o comércio do crack é intenso, “todo dia, a madrugada toda. Tem muito mais gente vendendo e comprando.”
E não é de hoje. Em 2003, L.G.F.C., traficante da Boca do Terreirão (região noroeste da Pedreira Prado Lopes (PPL – um dos principais pontos de venda de crack em Belo Horizonte), fez a seguinte contabilidade durante entrevista ao sociólogo Felipe Zilli: de 1 grama de crack faz-se 4 pedras, cada uma vendida por 5 a 10 reais. Neste sistema de varejo, todas as bocas de fumo da PPL negociam, juntas, por noite, cerca de 2 kg de crack num total de 40 a 80 mil reais. Por mês, o montante médio chega a 1,8 milhão de reais. Tal faturamento, segundo o traficante, seria reinvestido na compra de mais drogas, armas e pagamento de propinas a policiais.
Em área de atuação e linguajar diversos, a diretora do Centro Mineiro de Toxicomania, Raquel Martins Pinheiro, confirma a impressão de J.V.S.O e L.G.F.C. As estatísticas do Centro mostram que desde 2003 vem crescendo o número de usuários, inclusive entre pessoas de nível superior completo –o que desmente a mítica de droga restrita à classe baixa – e hoje ultrapassa até mesmo, em percentual de atendimento, aos alcoolistas. “Fomos pegos de surpresa”, diz ela.
Os bastidores desta matéria você confere no Blog da Redação.
A psiquiatra Maria Arlete de Castro Andrade, que há 15 anos atua no atendimento aos viciados em drogas, observa o crescimento do consumo de crack também nas classes média e alta e afirma que o que mais assusta é a correspondência ao esterótipo da mendicância. “Jovens de 16 a 20 e poucos anos que tornam-se drogadictos. É uma teia de aranha que se fecha sobre o indivíduo.” Apesar de estar presente em BH desde 1994, quando chegou por meio dos traficantes paulistas para venda na PPL e daí foi disseminada na região metropolitana de BH, hoje a droga é produzida em cidades do interior, em laboratórios caseiros. Mas ainda não há, segundo o subsecretário antidrogas da secretaria de Estado de Esportes e Juventude, Clóvis Benevides, retrato fiel sobre seu uso na cidade. “O crack mudou todas as perguntas. As estratégias das bocas já não são as mesmas.”
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“Quando a pessoa está usando crack não toma banho, nem escova os dentes. De meia em meia hora sobe o morro e deixa 10 reais”, conta o ex-viciado Israel Felipe de Castro, 29 anos e 12 internações na clínica Raul Soares. Durante 6 anos ele viveu o que até Deus duvida: 7 dias acordado fumando sem parar. Em uma noite chegou a gastar 2 mil reais em pedras; ficou sem dinheiro até para pegar ônibus. Entregou o carro do pai – um Palio – na boca de fumo em troca de uma semana da pedra. Saiu de casa e mudou-se para um quarto na Pedreira pra morar perto dos traficantes. E quando o dinheiro acabou e não tinha mais como conseguir, foi trabalhar para o tráfico. Virou olheiro da boca; a senha quando a polícia chegava era gritar “galo doido”. Numa destas, deu de cara com um ônibus cheio de policiais que entravam para invadir o morro. “Me quebraram no pau.” Como se fosse pouco, não tinha onde comer, andava curvado e sentia dores na sola do pé. “Vi gente morrendo, matando e atirando sem nem saber em quem.” O prazer de Castro virou medo e hoje, recuperado, casado e pai de um bebê, ele é categórico: “o crack estava mais devagar, havia menos usuários. Quem não vende está usando, inclusive meninos de 8 anos. Tá todo mundo ligado a ele.” Caiçara, Padre Eustáquio, Coqueiro, Carlos Prates são alguns dos bairros que ele citou em que percebe a presença forte da pedrinha maldita. O motoboy A.J.S., 28 anos, já cheirou naftalina, pó de vidro, novalgina e pó Royal. Viciado em cocaína, está em tratamento, mas afirma que nada se compara à devastação causada pelo crack. “Depois de três minutos já vem a fissura e ela nunca mais sai da cabeça. Em meia hora usa-se 5 gramas facilmente.” Preso por assalto, está em liberdade condicional e chegou a pesar 40 kg para uma altura de 1,80m. “Tentei três suicídios. Da última vez (este ano) tomei 1 frasco de Baygon, 40 comprimidos de carbamazepina, 80 de amitriptilina e injetei uma seringa de insulina. Isto depois de ver que em um dia fumei meu apartamento todo.” Ou seja, vendeu tudo que tinha para comprar crack. |
“É uma droga de poder tóxico tão fugaz e voraz que permite o recrutamento de usuários mais rapidamente. É preciso reconhecer a situação como preocupante”, alerta Clóvis Benevides. E bota preocupante nisso. O pesquisador Luiz Flávio Sapori, que coordena estudo com objetivo de análise entre o crack e a dinâmica da violência na região metropolitana de Belo Horizonte, acredita que o crescimento dos homicídios nos últimos 10 anos – que entre 1997 e 2002 quase triplicou – coincide com a disseminação da droga. Ele aponta que tanto a Pedreira como o Morro das Pedras, Contagem e Betim também se tornaram mais violentos. Também avalia que a dependência faz este usuário cometer mais furtos e assaltos para sustentar o vício, amontoam-se em sujeira e abandono, rompem os laços sociais e familiares rapidamente. “O crack ampliou o mercado consumidor e os lucros. Consequentemente, a ambição é maior e alimenta disputa entre gangues rivais. É um comércio disputado, que exige mais armamentos para resolução de conflitos. Os próprios usuários são mortos pelos traficantes com mais frequência, pois se tornam devedores constantes. O potencial para a violência é maior”, afirma Sapori. Para ele, é um tráfico consolidado, preponderante sobre a cocaína “e está se espalhando pelo Brasil, inclusive em cidades de pequeno porte. Locais antes conhecidos como zona de furto, a exemplo de Teófilo Otoni e Governador Valadares já são caracterizados pelo tráfico de crack”. Os problemas causados por este resto de cocaína chegaram até mesmo às penitenciárias. De acordo com o superintendente de Atendimento ao Preso da Subsecretaria de Administração Prisional, Guilherme Augusto de Faria Soares, é maior, por unidade, o gasto com antidepressivos e desintoxicantes e o sistema prisional está mais cheio por conta do crack. Realmente, é um bagulho muito, muito doido. A chapa está mesmo quente e “também morre quem atira.” E, ainda que se use todos jargões ou frases feitas, a constatação, infelizmente, é uma só: o crack invadiu BH e movimenta somas que, de acordo com a assessoria do Serviço Brasileiro de Apoia a Pequenas Empresas (Sebrae), correspondem ao faturamento de empresas de grande porte. Fica a pergunta: “E agora, Zezinha?” |
Apreenções de crackNúmero de ocorrências em BH – janeiro a julho de 2009 2007 1.075 Fonte: Centro Integrado de Informações de Defesa Social (Cinds/Seds)
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No submundo do crackO que é Como age Poder viciante Consequências físicas Consequências psicológicas Comportamento do usuário Faixa etária Epidemia no Sul |
Presos por tráfico de drogasEm unidades da Suapi - MG Julho de 2007: 4.319 População carcerária: 17.930 em 56 unidades Fonte: Superintendência de Articulação Institucional e Gestão de Vagas da Secretaria de Defesa Social (Seds) |