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Quinta, 24 de Maio de 2012

Reportagem

Crack pedra da morte

Há 20 anos o crack não existia no Brasil. Hoje, a droga já supera o consumo da cocaína nas grandes cidades com uma diferença: seu poder de destruição e dependência é muito maior

Texto: Raquel Ayres | Fotos: Fotomontagens: Paulo Werner sobre fotos SXC / Pedro Vilela
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“O bagulho é doido, Zezinha”, afirma o vapor do tráfico J.V.S.O, 22 anos, sobre o crack, droga que vende há 2 numa das esquinas da favela Morro das Pedras, região oeste de Belo Horizonte. Junto com ele, num mesmo quarteirão, pelo menos 30 rapazes participam deste movimento, 24 horas por dia, em sistema de revezamento. Ao contrário da cocaína, que tem picos de vendas nos fins de semana, o comércio do crack é intenso, “todo dia, a madrugada toda. Tem muito mais gente vendendo e comprando.”


E não é de hoje. Em 2003, L.G.F.C., traficante da Boca do Terreirão (região noroeste da Pedreira Prado Lopes (PPL – um dos principais pontos de venda de crack em Belo Horizonte), fez a seguinte contabilidade durante entrevista ao sociólogo Felipe Zilli: de 1 grama de crack faz-se 4 pedras, cada uma vendida por 5 a 10 reais. Neste sistema de varejo, todas as bocas de fumo da PPL negociam, juntas, por noite, cerca de 2 kg de crack num total de 40 a 80 mil reais. Por mês, o montante médio chega a 1,8 milhão de reais. Tal faturamento, segundo o traficante, seria reinvestido na compra de mais drogas, armas e pagamento de propinas a policiais.


Em área de atuação e linguajar diversos, a diretora do Centro Mineiro de Toxicomania, Raquel Martins Pinheiro, confirma a impressão de J.V.S.O e L.G.F.C. As estatísticas do Centro mostram que desde 2003 vem crescendo o número de usuários, inclusive entre pessoas de nível superior completo –o que desmente a mítica de droga restrita à classe baixa – e hoje ultrapassa até mesmo, em percentual de atendimento, aos alcoolistas. “Fomos pegos de surpresa”, diz ela.

Os bastidores desta matéria você confere no Blog da Redação.

Israel Felipe de Castro com o filho: ex-viciado em crack



A psiquiatra Maria Arlete de Castro Andrade, que há 15 anos atua no atendimento aos viciados em drogas, observa o crescimento do consumo de crack também nas classes média e alta e afirma que o que mais assusta é a correspondência ao esterótipo da mendicância. “Jovens de 16 a 20 e poucos anos que tornam-se drogadictos. É uma teia de aranha que se fecha sobre o indivíduo.”

Apesar de estar presente em BH desde 1994, quando chegou por meio dos traficantes paulistas para venda na PPL e daí foi disseminada na região metropolitana de BH, hoje a droga é produzida em cidades do interior, em laboratórios caseiros. Mas ainda não há, segundo o subsecretário antidrogas da secretaria de Estado de Esportes e Juventude, Clóvis Benevides, retrato fiel sobre seu uso na cidade. “O crack mudou todas as perguntas. As estratégias das bocas já não são as mesmas.”


Droga artesanal – cada vez mais letal por conter menos pasta básica e mais solvente volátil –, este tráfico tem dinâmica fluida, uma vez que não exige ligações com crime organizado. Seu manejo químico é relativamente simples; a matéria-prima é comprada no atacado de fornecedores da Bolívia, Colômbia e Peru. O custo pouco significativo aliado a efeitos efêmeros ajudou a proliferação: em menos de 15 minutos chega-se ao ápice do prazer e já se quer outra pedra. O resultado é um usuário compulsivo, que rapidamente tor­na-se dependente e degradado.

Cracolândia, no bairro Lagoinha, em BH: ponto de venda e consumo de crack



“Quando a pessoa está usando crack não toma banho, nem escova os dentes. De meia em meia hora sobe o morro e deixa 10 reais”, con­ta o ex-viciado Israel Felipe de Cas­tro, 29 anos e 12 internações na clínica Raul Soares. Durante 6 anos ele viveu o que até Deus duvida: 7 dias acordado fumando sem parar. Em uma noite chegou a gastar 2 mil reais em pedras; ficou sem dinheiro até para pegar ônibus. Entregou o carro do pai – um Palio – na boca de fumo em troca de uma semana da pedra. Saiu de casa e mudou-se para um quarto na Pedreira pra mo­rar perto dos traficantes. E quando o dinheiro acabou e não tinha mais como conseguir, foi trabalhar para o tráfico. Virou olheiro da boca; a senha quando a polícia chegava era gritar “galo doido”. Nu­ma destas, deu de cara com um ônibus cheio de policiais que entravam para invadir o morro. “Me quebraram no pau.” Como se fosse pouco, não tinha onde comer, andava curvado e sentia dores na sola do pé. “Vi gente morrendo, matando e atirando sem nem saber em quem.” O prazer de Castro virou medo e hoje, recuperado, casado e pai de um be­bê, ele é categórico: “o crack estava mais devagar, havia menos usuá­rios. Quem não vende está usan­do, inclusive meninos de 8 anos. Tá todo mundo ligado a ele.” Caiçara, Padre Eustáquio, Coqueiro, Carlos Prates são alguns dos bairros que ele citou em que percebe a presença forte da pedrinha maldita.

O motoboy A.J.S., 28 anos, já cheirou naftalina, pó de vidro, novalgina e pó Royal. Viciado em cocaína, está em tratamento, mas afirma que nada se compara à devastação causada pelo crack. “De­pois de três minutos já vem a fissu­ra e ela nunca mais sai da cabeça. Em meia hora usa-se 5 gramas facilmente.” Preso por assalto, está em liberdade condicional e chegou a pesar 40 kg para uma altura de 1,80m. “Tentei três suicídios. Da última vez (este ano) tomei 1 frasco de Baygon, 40 comprimidos de carbamazepina, 80 de amitriptilina e injetei uma seringa de insulina. Isto depois de ver que em um dia fumei meu apartamento todo.” Ou seja, vendeu tudo que tinha para comprar crack.

Dependência: em apenas 15 minutos, usuário tem necessidade de nova pedra



“É uma droga de poder tóxico tão fugaz e voraz que permite o recrutamento de usuários mais rapidamente. É preciso reconhecer a situação como preocupante”, alerta Clóvis Benevides. E bota preocupante nisso. O pesquisador Luiz Flávio Sapori, que coordena estudo com objetivo de análise entre o crack e a dinâmica da violência na região metropolitana de Belo Horizonte, acredita que o crescimento dos homicídios nos últimos 10 anos – que entre 1997 e 2002 quase triplicou – coincide com a disseminação da droga. Ele aponta que tanto a Pedreira como o Morro das Pedras, Contagem e Betim também se tornaram mais violentos. Também avalia que a dependência faz este usuário cometer mais furtos e assaltos para sustentar o vício, amontoam-se em sujeira e abandono, rompem os laços sociais e familiares rapidamente.

“O crack ampliou o mercado consumidor e os lucros. Con­se­quen­te­mente, a ambição é maior e alimenta disputa entre gangues rivais. É um comércio disputado, que exige mais armamentos para resolução de conflitos. Os próprios usuários são mortos pelos traficantes com mais frequência, pois se tornam devedores constantes. O potencial para a violência é maior”, afirma Sapori. Para ele, é um tráfico consolidado, preponderante sobre a cocaína “e está se espalhando pelo Brasil, inclusive em cidades de pequeno porte. Locais antes conhecidos como zona de furto, a exemplo de Teófilo Otoni e Governador Valadares já são caracterizados pelo tráfico de crack”.

Os problemas causados por este resto de cocaína chegaram até mesmo às penitenciárias. De acordo com o superintendente de Atendi­mento ao Preso da Subsecretaria de Administração Prisional, Guilherme Augusto de Faria Soa­res, é maior, por unidade, o gasto com antidepressivos e desintoxicantes e o sistema prisional está mais cheio por conta do crack. Realmente, é um bagulho muito, muito doido. A chapa está mesmo quente e “também morre quem atira.” E, ainda que se use todos jargões ou frases feitas, a constatação, infelizmente, é uma só: o crack invadiu BH e movimenta somas que, de acordo com a assessoria do Serviço Brasileiro de Apoia a Pequenas Empresas (Sebrae), correspondem ao faturamento de empresas de grande porte. Fica a pergunta: “E agora, Zezinha?”

Apreenções de crack



Número de ocorrências em BH – janeiro a julho de 2009

2007 1.075
2008 1.663
2009 1.576

Fonte: Centro Integrado de Informações de Defesa Social (Cinds/Seds)

 

No submundo do crack



O que é
Resulta da mistura de cloridrato de cocaína (cocaína em pó), bicarbonato de sódio ou amônia e água destilada. Estimulante seis vezes mais potente que a cocaína, provoca dependência física e pode levar à morte por ação fulminante sobre sistema nervoso central

Como age
Inalado como fumaça, vai para o pulmão e chega ao cérebro em média de 15 segundos. Tem efeito estimulante e produz aceleração dos batimentos cardíacos, aumento da pressão arterial, dilatação das pupilas, suor intenso, tremor muscular, excitação, indiferença a dor e cansaço. Em 15 minutos começa a síndrome de abstinência e a necessidade de inalar nova pedra. A dependência, assim, instala-se rápida e compulsivamente

Poder viciante
É uma das drogas que tem maior poder viciante. Assim como outras, altera quimicamente uma parte do cérebro chamada sistema de recompensa. Quando fumado, prende a dopamina – responsável por criar sensações de prazer – nos espaços entre as células nervosas, que continuam a sofrer estimulação. É o que cria a sensação de euforia, que dura de 5 a 15 minutos. O cérebro responde à overdose de dopamina criada destruindo parte deste neurotransmissor, bloqueando ou produzindo menos receptores.  Daí a sensação intensa e efêmera que provoca a angústia pelo fim do prazer. Pesquisa do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) revelou que 52% dos usuários de crack faziam seu uso de modo frequente menos de um mês depois de experimentá-la

Consequências físicas
Degeneração dos músculos (rabdomiólise), que dá ao indivíduo aparência esquelética, desleixo com a aparência e interrupção dos hábitos básicos de higiene. Danos ao sistema respiratório, tosse, convulsão, derrame e ataque cardíaco. Perda de sono, da fome e da sensação de cansaço

Consequências psicológicas
Depressão, ansiedade, agressividade e a paranóia, mais conhecida como nóia. Neste estado, o indivíduo imagina-se perseguido, ameaçado, chega mesmo a ter alucinações sobre perigos imaginários

Comportamento do usuário
O usuário rapidamente rompe laços sociais, apresenta comportamento violento, perde senso crítico. “Ele submete-se e degrada-se rapidamente, perde costumes e valores. Torna-se caricatura de si mesmo. É a droga que mais corresponde ao estereótipo do drogadicto”, analisa o psiquiatra Guilherme Álvares Cabral, do Centro Psicoterápico

Faixa etária
Em média, da adolescência aos 30 anos

Epidemia no Sul
De acordo com o especialista em dependência química e psiquiatra, Sérgio de Paula Ramos, do Rio Grande do Sul, o uso do crack tem assumido caráter de epidemia. E acredita que o crescimento da violência no estado relaciona-se à epidemia de crack

Presos por tráfico de drogas



Em unidades da Suapi - MG

Julho de 2007: 4.319 População carcerária: 17.930 em 56 unidades
Julho de 2008: 6.386 População carcerária: 26.851 em 73 unidades
Julho de 2009: 6.594 População carcerária: 33.066 em 86 unidades

Fonte: Superintendência de Articulação Institucional e Gestão de Vagas da Secretaria de Defesa Social (Seds)