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Quinta, 24 de Maio de 2012

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Difícil luta do MMA

O antigo Vale Tudo movimenta milhões de dólares mundo afora e conquista público cada vez maior. O Brasil possui alguns campeões mundiais, mas o país permanece na lona se comparado com a profissionalização e patrocínio praticado em outros países

Texto: Nayara Menezes | Fotos: Marcio Rodrigues, Alexandre C. Mota, Daniel de Cerqueira e Divulgação
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O esporte é o que mais cresce nos Estados Unidos. No Brasil, é o segundo mais assistido nos canais fechados. O MMA (Mixed Martial Arts), como o próprio nome diz, é uma mistura de artes marciais. Trata-se do antigo Vale Tudo, com algumas novas regras, que variam de acordo com o torneio. Os eventos atraem milhares de pessoas que querem ver de perto o espetáculo de chutes, socos, joelhadas e imobilizações. No Brasil, apesar de não ha­ver números oficiais, academias e escolas registram crescimento acentuado de alunos interessados em praticar o MMA. A modalidade começou a ganhar projeção no país por meio de lutadores como o campeão Vitor Belfort. No entanto, é o próprio Belfort um dos que apontam a falta de interesse da mídia e dos patrocinadores. “Temos alguns dos melhores lutadores, mas ainda estamos engatinhando por aqui”, revela o campeão.

Com a dificuldade em obter apoio e patrocínio, a maioria dos atletas faz como ele: acaba indo para outros países, como os Estados Uni­dos ou Japão, onde são respeitados e recebem salários polpudos para trei­nar e se preparar para as competições. Mas a maioria não tem a oportunidade de chegar lá. “Até ganhar projeção e ser convidado para torneios fora, é preciso bancar muita luta do nosso bolso”, conta Gustavo Coelho, 27 anos. Ele é professor de jiu jitsu e está treinando na esperança de se tornar um lutador de destaque no cenário nacional. Mas o jovem sabe que o percurso para se atingir o estrelato é duro. “No Brasil é muito difícil conseguirmos patrocínio. Os empresários são o melhor caminho das pedras. São eles quem nos faz participar das competições. Nem sempre os melhores atletas estão nos melhores eventos”, afirma.

Os bastidores desta matéria você confere no Blog da Redação.

Vitor Belfort: precursor do esporte no Brasil



A opinião é compartilhada pelo colega de luta, Joaquim Ferreira da Rocha, mais conhecido como Joaquim Mamute. Atleta de destaque no cenário nacional, ele acumula vários títulos como o de campeão brasileiro e mundial de jiu-jitsu. Já ganhou outros campeonatos de destaque do Vale Tudo, como o Predador Fight, M1 Chalenger e MTL, maior evento de MMA realizado no Brasil. Além de treinar, Mamute dá aulas de lutas para complementar a renda da família. “Hoje, graças a Deus, consigo viver do esporte, mas já passei muito aperto. Muitas vezes viajava pra participar de campeonato e passava o dia inteiro com fome porque só tinha dinheiro para a passagem.”

Exemplos como esse não faltam. A própria esposa de Mamute, Carol Pinho, é outro talento desperdiçado. Ela foi a primeira mulher a representar o país em uma luta de Vale Tudo no Japão. No currículo não faltam vitórias. Foi campeã mineira, carioca e brasileira de jiu-jitsu. Na maior prova feminina realizada no país, Carol marcou importante presença. Mesmo com tantos louros, a lutadora não conseguiu patrocínio para se firmar como atleta profissional e foi obrigada a abandonar a carreira. “Hoje trabalho em uma empresa e dou aulas de lutas para não deixar de treinar. Infelizmente o esporte se tornou apenas meu hobby,” desabafa.

Carol Pinho: primeira mulher a representar o Brasil no Japão



É crescente a quantidade de atletas com potencial que o país perde em função da falta de apoio. Quando não desistem e encerram a carreira, muitos vão buscar o sonho longe daqui. Foi o que fez o mineiro Glover Teixeira, 29 anos. Campeão de vários torneios como WEC, PFC, Bittat Combat, ADCC, foi apenas nos Estados Unidos que ele encontrou incentivo para lutar. Hoje mora na Ca­li­fórnia e é contratado pelo The Pit, um dos principais times americanos. “Lá fora recebemos cerca de 200 a 500 mil dólares por ano só para treinar, fora os prêmios em dinheiro quando ganhamos uma disputa. Aqui jamais conseguiria isso.”

Diante desta realidade, Vitor Bel­fort se mudou para os Estados Unidos logo que ganhou projeção no esporte. Lá foi treinado por Carl­son Gracie – da família Gracie, precursora do jiu jitsu no país. Aos 20 anos, Belfort despontou para o mun­do ao conquistar o mais importante título do Vale Tudo, o UFC. Desde então, acumulou diversos títulos e foi o maior responsável pela divulgação do esporte no Brasil. Em relação ao crescimento do MMA por aqui, ele não se entusiasma muito. “Acho que as coisas vêm melhorando, mas ainda é um processo lento. Estamos muito aquém do que poderíamos ser”, comenta.

Alunos treinam na Rio Sport Center sob comando do professor Edson Sururu



Já Wallid Ismail, ex-lutador e uma das referências do esporte, tem opinião mais positiva. Paraele, o MMA está muito bem no Brasil, e os patrocinadores estão aparecen­do. “Ainda não é o ideal, mas prefiro acreditar que vamos chegar lá”, opina. Quanto à falta de apoio, ele diz que essa é uma realidade de todos os esportes no país. “É preciso ralar pra se destacar e alcançar posições. O importante é não desistir”, aconselha Wallid, oito vezes campeão bra­si­leiro, além de títulos em vários tor­neios mundiais. Também entrou para a história do esporte por ter sido dos poucos a derrotar alguns lutadores da família Gracie: Renzo Gracie, Ralph Gracie, Royce Gracie. Hoje é empresário do ramo e organizador do Jungle Fight, que visa divulgar o MMA no país.

O último deles foi realizado no final do mês de outubro no estádio do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro. O Jungle Fight Rio reuniu cerca de 7 mil amantes do esporte. “Queremos quebrar o preconceito que ainda existe. Mos­trar que é uma modalidade que abrange toda a família”, explica Wallid. Dos 11 mil ingressos disponibilizados, 50% eram voltados para o público feminino. Na plateia, foi possível observar pais com filhos, casais e até artistas, como o ator Cláudio Heinrich e a atriz Cláudia Rodrigues, que acom­panhavam as lutas de perto na ala vip. “Sou praticante do jiu jitsu e fã do MMA. Assisto sempre em casa e hoje quis ver ao vivo”, declarou Heinrich. Já Cláudia tinha um motivo a mais que mera expectado­ra. O namorado, Marcos Felipe Ri­bei­ro, lutador, estava como técnico de um dos competidores do evento. “É um espetáculo que merece ser visto por todos. Um verdadeiro show”, define Cláudia.

Cláudio Heinrich: “A briga é somente dentro do ringue”

Artes/regras



Diferenças entre o MMA e o Vale Tudo:

1) No MMA há adesão obrigatória de:
- Luva quatro onças
- Coquilha – protetor genital
- Protetor de boca

2) É proibido: 
- Cabeçada
- Chute no rosto quando o atleta tem três ou mais apoios no chão 
- Cotovelada. Em algumas competições nos EUA é permitida

3) A luta é dividida em três rounds de 5 minutos cada com intervalo de um minuto
- Já nas disputas de cinturão geralmente são cinco rounds

4) A luta pode ser interrompida a qualquer momento caso um dos lutadores venha a nocaute ou bata na lona admitindo a derrota

Curiosidades
- Com bolsas milionárias de até 2 milhões de dólares, subir ao ringue ou ao octógono criou mais responsabilidade aos atletas 

- O UFC é considerado o mais importante campeonato mundial. Para participar, o lutador, além de muito bem treinado, deve ter no currículo títulos mundiais ou olímpicos em esportes como jiu-jitsu, luta greco-romana, boxe, judô e outros

Henrique Negão X Junior Killer: disputa acirrada no Jungle Fight Rio

MMA em BH



- Em Belo Horizonte, uma das equipes de destaque é a do lutador Draculino, que treina na academia Rio Sport Center, comandada pelo professor Edson Jorge. Sururu, como é mais conhecido, nunca perdeu nenhuma das cinco lutas que fez. Ele avisa: “Para ser campeão tem que ter dedicação total, treinar pelo menos 8 horas por dia, dormir bem, ter boa alimentação, abdicar de bebida e de muitas coisas.”

Destaques do MMA

No Brasil
- Anderson Silva
- Demian Maia 
- Rogério Minotouro 
- Lyoto Machida
- Vitor Belfort
- Wanderlei Silva

No mundo
- Andrei Arlovski
- Fedor Emilianenko 
- Frank Mir
- Randy Couture 
- Josh Barnett

 

Raio X de um campeão



Ele é considerado um dos cinco melhores lutadores de MMA do mundo. Já foi campeão nos principais torneios do antigo Vale Tudo, como o UFC e o Pride. No Japão, por onde passa, Rodrigo Minotauro é venerado por adultos e crianças. Nas lutas, costuma atropelar os adversários. Mas a força desse baiano começou na infância. Aos 10 anos, um caminhão passou por cima de seu corpo. “Só tive tempo de tirar a cabeça da frente da roda.” Quase 20 anos se passaram e, hoje, ele é um dos mais respeitados lutadores de MMA do mundo. Em entrevista exclusiva à Viver Brasil, conta sua trajetória até ser consagrado campeão. Fala das dificuldades e da posição do Brasil no esporte.

 

Sabemos que na infância foi atropelado por um caminhão. Esse foi o maior dos desafios ou apenas o primeiro de muitos?
Foi um dos maiores, fiquei quase um ano no hospital, mas todas as minhas lutas foram e são sempre grandes desafios.

Como foi o início da sua carreira? Quais as maiores dificuldades?
Meu início foi difícil como de qualquer outro atleta, tive que abdicar de muita coisa na vida para alcançar meu sonho. Mudei de cidade, fiquei distante da família. Tudo por um único objetivo: ser campeão do mundo. Se não fosse minha família e amigos, eu não chegaria onde estou, devo muito a eles.

Como avalia o crescimento do MMA no mundo e, em especial, no Brasil?
Hoje é o esporte que mais cresce nos EUA, batendo recordes em arrecadação e público. No Brasil o MMA também cresce, mas falta apoio da mídia. Durante muito tempo o Vale Tudo foi marginalizado, hoje essa visão está mudando e o público aceitando a modalidade, exemplo disso são as transmissões por alguns canais fechados.

Você também já morou fora para treinar?
Não. Mas sempre antes das lutas, vou para os EUA e finalizo a minha preparação. Acredito que o país oferece boa estrutura, mas ainda carecemos bastante de material esportivo, suplementos alimentares, especialistas em preparação física etc. Quem quer viver do esporte tem que ir para fora. Aqui as bolsas são bem inferiores. Em alguns eventos os atletas chegam a receber ingressos como pagamento. O reconhecimento também é diferente. Lá somos tratados
como celebridade, aqui mal somos conhecidos.

Que conselhos daria para um jovem que quer começar hoje no esporte?
Além de treinar bastante, você deve estudar também, porque a vida do
atleta acaba cedo, e quando a hora de parar chegar, você estará preparado
para continuar com a vida.