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Quinta, 24 de Maio de 2012

Balada

Anfitriãs da noite

Elas definem quem entra e quem fica de fora. Recebem os clientes e mostram o melhor da casa. A Viver Brasil foi a boates badaladas de BH para conhecer de perto o trabalho das hostess

Texto: Nayara Menezes | Fotos: Daniel de Cerqueira e Pedro Vilela
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Hostess. O significado da palavra de origem inglesa já traduz um pouco do trabalho que elas exercem. Como boas anfitriãs, recebem o público, decidem quem entra e quem sai. Controlam a lista de convidados e a proporção entre homens e mulheres. Simpatia, educação, jogo de cintura e boa dose de paciência são os requisitos básicos para quem quer se tornar uma delas. A profissão de hostess surgiu nos Estados Unidos e se difundiu pelo mundo. No Brasil, elas ganham espaço e importância. Não é tarefa fácil barrar alguém disposto a pagar para entrar. Como ótimas jogadoras, elas driblam as dificul­dades com habilidade. O não vem acompanhado de um sorriso. Nem todos os clientes compreendem. Não são raras as grosserias ou desaforos. Para entender um pouco mais desse trabalho, a Viver Brasil conversou e acompanhou cinco hostess pela noite da capital mineira.

A transexual Walquíria La Roche, uma das mais antigas e famosas hostess de Belo Horizonte, está à frente das boates Roxy/Josefine.  Wal, como é conhecida, foi considerada uma das três melhores hostess do Brasil. “O trabalho ultrapassa o dever de receber. Tenho uma relação muito próxima com os clientes”, explica. Devido à filosofia da casa, reduto do público GLS, a hostess tem papel diferenciado da maioria das casas noturnas. “Não podemos preterir ninguém, senão estaríamos sendo incoerentes com nossa proposta: ser totalmente democrática.” Na Josefine, Wal exerce mais o la­do diplomático de uma hostess. Se algum cliente excede na bebida e cria con­fusão, por exemplo, é ela quem o convida a se retirar. Seu trabalho também se assemelha a de relações públicas. “Convido pessoas para conhecer a casa, recebo os clientes, mostro a boate e apresento os shows”, explica.

Já no Club Chalezinho a hostess tem função distinta. É ela quem define o público que vai entrar. E quem faz esse papel de general, como ela se autodenomina, é Paula Macynter, 26 anos. Com biotipo mignon, meiga e de fala mansa, quem vê Paula nem imagina o pulso firme que tem. Na sexta-feira em que acompanhamos seu trabalho, era dia de festa hip hop no Chalezinho. O que significa predominância de público com idade entre 18 e 21 anos. A regra é dar preferência à entrada de pessoas com convite. Mas como para toda regra, há exceção, algumas pessoas dificilmente são barradas. Pelo visto, mulheres bonitas e bem vestidas são sempre bem-vindas. Já os homens... Bom, esses têm que suar a camisa e possuir discurso recheado de bons argumentos. O primeiro desavisado chega às 23h. Tenta convencer Paula a deixá-lo entrar. De nada adianta. Ele aparentava uns 30 anos e estava um pouco fora do perfil da festa daquele dia. A hostess, abusando de charme e educação, manda o rapaz de volta para casa. Ele sai reclamando. Jura que não volta mais ali. “Isso é normal. Eles sempre dizem isso”, comenta Paula, que logo se volta para a porta atendendo outro chamado. Dessa vez, são três meninas que desejam entrar. O nome delas também não está na lista. Muito menos têm convite. Mas Paula dá um jeitinho e coloca-as para dentro.

Clientes na fila para entrar na boate naSala



“Precisa ter equilíbrio na casa. De preferência, mais mulher do que homem.” A hostess admite que às vezes isso causa problemas. “Já chamaram a polícia pra mim, me acusando de preconceito”, conta. Paula deixa a por­ta e tenta convencer um grupo de meninas que pareciam indecisas. Todas lindas e bem novinhas. “São clientes interessantes para a casa. Encaixam-se ao estilo da festa”, revela. E a política do Chalezinho é seguida pela maioria das casas noturnas. Mulheres têm sempre preferência. A beleza e a elegância costumam ser passaportes de entrada. “Mas os critérios devem obedecer ao perfil da casa”, afir­ma a DJ Sininho, ex-hostess. Ela já passou por casas de público bem variado, como Club MTV, Bombar, Joy, naSala, Roxy e Depu­ta­madre. Hoje, Sininho seleciona não o público, mas sim as músicas que animarão a balada. Mas recorda-se dos desaforos que já ouviu. “Há sempre os mais exaltados ou bêbados, que acabam sendo mal-educados. O melhor a fazer é ignorar e focar no trabalho.”

E é o que faz Aline Ribeiro, 29, a hostess da boate Deputamadre. Ela não é de meias-palavras. Diz claramente que tem autonomia para escolher quem entra ou não na casa. “Esse é o meu papel, de selecionar o público, sou responsável por manter um ambiente legal”, justifica. Mas ela admite que já teve problemas com o papel. “Uma vez barrei um cara porque ele estava bêbado. Ele era policial federal e criou o maior caso.” Ainda assim, ela segue firme na postura. “Passo os clientes vips na frente sim. Essa é a lei da noite e as pessoas têm que entender isso”, diz Aline.

A assessora de imprensa Sylvia Fernandes vive seu dia de hostess



Mas nem sempre é fácil o cliente entender. Quem revela é Michele Santana, 24, hos­tess de uma das casas de público mais seletos da cidade, a naSala. Era sábado e a boate comemorava o aniversário  do DJ Válber. Teo­ricamente só entrariam sócios ou pessoas com nome na lista. Na prática, não é bem assim. O primeiro casal chegou sem nome na lista e ficou de fora. Michele educada­mente os convidou para voltar outro dia. Tratava-se de um casal mais velho, que não estava vestido conforme a maioria. Após alguns minutos chega outro casal, em carro importado. Dois jovens bonitos e bem vestidos. Depois de minutos de conversa, a hostess abre exceção. “Eles são de outra cidade. É uma oportunidade da casa ser divulgada lá fora”, justifica.

Apesar de notarmos certo padrão de beleza entre os frequentado­res da casa, o socioproprietário da naSala, Bruno Carneiro, nega a seleção baseada nesses critérios. “Não há como transformar o perfil em regra. Buscamos clientes que queiram curtir uma balada saudável, sem excessos. Costumo dizer que nosso público é composto por pessoas educadas e não as que se vestem de um jeito ou de outro.” E assim segue a seleção do público. A hostess Michele se saía muito bem até sentir um mal-estar repentino. Por recomendações médicas, é encaminhada ao hospital. Primeiramente quem retoma as funções de Michele são os próprios seguranças do local. Confusos, eles não sabem determinar quem entra ou não na casa. A assessora de imprensa da naSala, Sylvia Fernandes, assume o posto e acaba sendo hostess por um dia. “Nunca fiz isso na minha vida!”, confessa assustada.

DJ Sininho, ex-hotess: “Há sempre os mais exaltados”



No início, se atrapalha um pouco. A fila aumenta e a confusão também. O DJ Válber chega para dar uma força. Mostra entre aqueles que estão na fila os que são seus convidados. Mas a ajuda do aniversariante acaba complicando um pouco o trabalho de Sylvia, já que, logo, a casa se enche de homens. A cada meia-hora chega um relatório do caixa avisando a quantidade de homens e mulheres. A hostess tem o papel de equilibrar a proporção.

É hora de Sylvia se virar para barrar os homens. “Eles reclamam quando estão aqui fora, mas quando estão lá dentro, acham bom ter mais mulheres que homens,” comenta. Aos poucos, o movimento da casa vai se estabilizando e todos conseguem seu lugar ao sol. Para a primeira experiência, Sylvia até que se sai bem. Mas pelos apuros passados, pode-se avaliar a falta que uma hostess faz. Fica clara a importância da função. É preciso mesmo rebolar para dar conta do recado. 

Paula Macynter rebola para barrar os clientes no Club Chalezinho



Para saber como funciona a seleção do público em uma das cidades mais badaladas do mundo, a colunista da Viver Brasil, Angelina Freitas, saiu às ruas de Nova Iorque. Conversou com alguns proprietários de casas noturnas disputadas na cidade, clientes habituées desses locais e com um doorman – que é o responsável pelo ingresso ou não dos clientes. Lá as hostess exercem o papel da porta para dentro. São os doorman que decidem quem entra ou não, na maioria das casas. Rocco Ancarolla, socioproprietário do Pink Elephant, diz que o doorman representa a imagem da casa. Por isso, deve saber quem são as pessoas que circulam na noite e reconhecê-las. “O doorman vai deixar entrar as pessoas que regularmente saem à noite e aqueles que gastam sempre.” Outro ponto importante é conhecer as figuras internacionais, já que a cidade recebe gente do mundo inteiro. O brasileiro Fernando Tormena mora em Nova Iorque e trabalha como doorman por lá. “Quem está bem vestido ou com o nome na lista de convidados entra sem problemas. Fora da lista só entra mulheres lindas ou homens comprando mesa”, revela.

Mas o método parece não agradar a todo mundo. Um cliente, que preferiu não se identificar, reclama da falta de gentileza dos doormans. “Já vi muita gente ser maltratada na porta. O que acho desnecessário. Acredito que ser cortês deveria ser obrigatório tanto com a pessoa que está querendo uma mesa, quanto para aqueles que só querem entrar.” Pelo visto os doorman americanos têm muito o que aprender com as hostess brasileiras. Afinal, cordialidade e boa educação é o que não falta a elas. Além, claro, do famoso jeitinho brasileiro...