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Quinta, 24 de Maio de 2012

Especial

Mínimos detalhes

Década após década, a cidade de Ouro Preto se renova em seus casarões e igrejas, mas com o cuidado de não perder a essência que a tornou Patrimônio da Humanidade

Texto: Luciana Avelino | Fotos: Pedro Vilela
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Andaimes, tapumes e vestígios de obras espalhados pelas ruas são elementos integrantes do cenário de Ouro Preto, assim como as montanhas que a circundam. Ao contrário dos grandes centros urbanos, a demanda não alimenta a frenética cadeia da construção civil. Supre a necessidade de restaurações de casarões, igrejas e construções antigas que deram à cidade mineira o título de Patrimônio Histórico da Humanidade. Ofício vital que assegura a preservação de valores e costumes intrínsecos à arquitetura local do passado. Trabalho específico, dono de seu próprio tempo, que não requer apenas perícia nem conhecimento de causa. Dom e sensibilidade são peças fundamentais.

Quando o assunto é restaurar, costuma-se dizer que duas palavras são abolidas: reforma e demo­lição. “Projetos arquitetônicos de res­tauração têm como propósito res­gatar características originais do imóvel e garantir sua seguran­ça”, define Paulo Hermínio, arquiteto do programa Monumenta, responsável por três obras do gênero em andamento na cidade histórica: Casa dos Inconfidentes, casarão Rocha Lagoa e solar Baeta Neves. Os custos também diferem muito do padrão gasto nas obras convencionais. São bem mais elevados. Além de mão-de-obra especializa­da, muitas vezes, gasta-se mais em restaurar do que simplesmente su­bs­tituir elementos danificados da construção, como janelas, portas, forros. “O processo de execução de uma restauração é lento, meticulo­so e o tempo próximo ao de uma construção. Para restaurar casarão de 300 m², por exemplo, gas­ta-se, praticamente o mesmo tem­po de levantar uma casa com as mesmas dimensões.”

Na Casa dos Contos, as obras do telhado ao piso duraram um ano. No segundo pavimento, pintura foi descoberta sob o antigo forro e restaurada a partir



O elemento-surpresa é obstáculo constante em restaurações. De acordo com Paulo Hermínio, por mais que o levantamento do projeto seja bem-feito, que inclui análise do estado de conservação, proposta e critérios de intervenção, é difícil ter noção real de todo o estado do imóvel. “Avaliação visual não é suficiente. O diagnósti­co se torna impreciso pela dificuldade de acesso aos elementos de construção. É durante a obra que se faz uma leitura real.”

Não deixar passar despercebi­do o estado precário do que não se está à vista é o grande desafio. A princípio, paredes de tabiques, pau-a-pique, estruturadas em madeira, preenchidas de barro e rebocadas de argamassa com cal e areia em vez de cimento, típicas das construções do século XVIII de Ouro Preto, podem parecer estar nos conformes, enquan­to a situação é justamente contrária.

Na Casa dos Contos, as obras do telhado ao piso duraram um ano. No primeiro andar, tábuas retiradas do forro do amplo salão tiveram suas pinturas rest



Para Sílvio Luiz Rocha Vianna de Oliveira, conservador, restaurador de obras de arte e professor de restauração de pintura na Fundação de Arte de Ouro Preto (Faop), nas restaurações de elementos artísticos é imprescindível que o profissional tenha conhe­cimento da tecnologia da pintura da obra no período em que foi executada para definir a metodologia da técnica a ser adota­da. “Temos de interferir o mínimo possível com materiais adequados para a conservação da obra. Se as escolhas forem erradas, po­dem até provocar deteriorização acelerada.” Segundo Oliveira, atuan­te em restauração há 30 anos, hoje há recursos científicos, espécies de exames, que revelam aspectos acerca dos tipos de madeira e pintura usados. O trabalho de restauração de igrejas normalmente é mais complexo devido ao nível e quantidade de elementos artísticos.

Fotos, documentos de época, pesquisas e levantamentos históricos são instrumentos de grande valia para as restaurações. Contribuem para sinalizar cores, fachadas, pinturas originais. “Temos de nos restringir à ação de complementar partes que faltam nas obras, respeitando sua originalida­de. Nada de nos propormos, por exemplo, a corrigir possíveis erros do artista. Somos apenas interventores técnicos.”  Tais premissas foram usadas na restauração que coordenou na Casa dos Contos, casarão erguido em Ouro Preto pelo maior banqueiro do século XVIII, José Rodrigues de Macedo, entre os anos de 1782 a 1784. Em um dos salões do segundo piso da edificação, durante o processo de decupagem, foi descoberta antiga pintura por trás do forro. A bela obra de rococó, com fortes influências da escola de Manuel da Costa Athayde, foi superficialmente limpa e teve suas áreas de perdas reintegradas.

No Núcleo de Conservação da Faop, o projeto de restauração de Paola Dias e Alexandre Mascarenhas, passou pelos forros, que ganharam novas peças de mad



Para a arquiteta especialista em restauração de bens e imóveis Paola Dias, uma das grandes dificuldades na execução dos projetos é a readequação de uso do imóvel sem descaracterizá-lo, como a transformação de um casarão residencial em endereço comercial. Outra questão é a dificuldade dos novos proprietários em aceitar a preservação. Grande parte tem preconceito quanto aos materiais tradicionais. “Em termos de durabilidade, não devem nada aos atuais. Um casarão de 300 anos é tão resistente quanto a igrejinha da Pam­pu­lha, de concreto. A manutenção tem de ser feita independente da natureza arquitetônica. É possível, sim, compor espaços confortáveis e funcionais em estruturas antigas.”

Apesar do esforço de se manter o patrimônio arquitetônico brasileiro, principalmente das instituições públicas, o restaurador Sílvio Oliveira acredita que ainda há muito o que se fazer. “Grande parte do acervo nacional se perdeu e ainda se perde tanto em função à ação do tempo, a partir de questões como umidade relativa do ar e invasão de cupins, quanto ao próprio descaso. É preciso maior e constante investimento.”