As histórias se fecham atrás daquela sequência de portas nos imensos corredores, dependentes de iluminação artificial. Raro encontrar alguém por eles, ouvir barulho, o que é inimaginável ao ver de fora os dois arranha-céus de vidro espetados há 39 anos quase no centro de Belo Horizonte, saber que são 1.086 apartamentos, mais de 5 mil moradores. Multidão silenciosa, que se recolhe, a maioria sozinha, atrás daquelas portas de madeira e exposta nas imensas janelas com vista para a praça Raul Soares ou o bairro Santo Agostinho. Estão lá, com seus afazeres miúdos como todo mundo, com trajetórias de vida a compor biografias dignas de livros, anônimos no meio de tanta gente, diluídos nesta obra monumental de Oscar Niemeyer: o conjunto JK, um dos legados do arquiteto. É ajustar o foco, mirar o apartamento, de quarto e banheiro, de Ângela Regina Carvalho da Costa, ex-funcionária do Ministério das Comunicações, que vive lá há 9 anos.
“Pode sentar aí. Você me vê assim, mas já fui rica. Meus padrinhos de casamento foram o Juscelino Kubitscheck e o Tancredo Neves.” Retira álbum de fotos para provar. Não precisa, mas ela insiste em fazer a retrospectiva cadenciada de vida feliz decrescente: o casamento com homem rico do Rio de Janeiro, depois desfeito; a perspectiva de trabalhar com o governador Tancredo Neves e com ele na Presidência, na embaixada em Paris, desfeita com a diverticulite; a fama da filha, a modelo Andréa Costa, que adoeceu e se foi em menos de 24 horas. “Entrei com ela no hospital na sexta-feira e no sábado retirei-a de lá morta.” A foto da filha está na porta do armário, nos álbuns, nas lembranças a compor seu drama. “Era a mulher mais bonita, morena de olhos verdes, chamada a locomotiva de Belo Horizonte”.
Mais perdas, a dos pais, do irmão. A saída do apartamento de cobertura na Savassi, a ida para o quarto e banheiro do JK. Coisas da vida incontrolável, que ela vai contando. “O presidente Juscelino Kubitschek idealizou o prédio na casa do meu pai, João Júlio Jacó”, lembra Ângela. Agora habita a criatura, conversa com todo mundo, a quem chama de tesouro e que virou seu apelido. Tesouro trouxe a sua história e ajuda a escrever do Conjunto JK, desta vez só, com armário dividido entre roupas, mantimentos e filtro de água. “Você quer alguma coisa?” Um copo d’água. “Não tenho.” Mas abre o armário, abaixa, procura e acha sacola de plástico, dessas de supermercado. Desembrulha uma taça de cristal. “Acho que tem mais de 50 anos.” Relíquia de tempos passados, hoje no armário do JK. “Estou em paz, não espero mais nada.”
Sem queixas, nem incômodos. Vive, tem amigos no prédio, vai ao chá da tarde promovido de 15 em 15 dias, no salão de festas do JK. Junta-se a tanta gente só. É andar pelos corredores do prédio da rua Timbiras, com seus 23 andares, afamado, junto com o da rua Guajajaras, em tempos não tão remotos de prostituição, tráfico de drogas, suicídios, favela verticalizada, e conhecer a ex-vendedora Vânia Maria Gonçalves, com suas histórias. “Donos de prostíbulos compraram apartamentos no prédio para alugar. Encontrava travestis nos elevadores. Hoje não, subiram o valor do condomínio. Há superlotação de idosos”, diz ela, a terceira moradora do conjunto. Foi para Brasília, Goiânia, Palmas, Belém, Miami e voltou ao JK. “Minha vida é aqui. Quando tomo café à frente desta janela parece que estou em Manhattan.” A sensação norte-americana se estende ao enorme corredor, do amplo apartamento, com fotos de Marlon Brando, Elvis Presley, Marilyn Monroe. Tem 400 DVDs já assistidos, que começa a revê-los. Os dias transcorrem entre um filme e outro, ao cenário alongado pelas enormes janelas com Belo Horizonte, que lembra o condado de Nova Iorque, a ajuda à igreja católica. Perpassa a ficção e chega à realidade da vida como ela é, com seus vários enredos, singulares, deste aglomerado de pessoas diferentes. |
Conchester Camppi, a dona Concha para simplificar nome árabe tão destoante do vocabulário português, faz o seu papel tão bem na realidade que foi parar em documentário e continua na sequência infalível de cada dia. Cuidava de gatos em casa, proibida após ficar em coma por mais de uma semana, doou-os, passou a alimentar os bichos que viviam no condomínio, depois na vizinha praça Raul Soares. Eram mais de 30. Quando a praça foi fechada para reforma, ajudou a transferi-los para ONG de animais abandonados. “Mas um a gente não conseguiu tirar nem a muque”, diz. Ganhou crachá de livre acesso ao local durante as obras para alimentar este gato arisco, que divide com ela as atenções do filme Concha e Machão, de César Mendonça, exibido no Youtube. Todos os dias de manhã e à tarde, lá está ela, essa paulistana mais mineira e kubistschequiana impossível, com seu Machão e a Chininha, gata que apareceu na região e virou companheira de seu protegido. Conversa, dá água, comida e de cima, de seu apartamento 3016 no 30ª andar, os vigia de binóculos potentes. “Não sou solitária, tenho muitos amigos, mas não gosto de ir à casa de ninguém”, afirma dona Concha, sem filtrar a sinceridade. Nem de criança. “O Machão também, quando chega um menino perto, ele se arrepia e logo aviso para sair dali.” Seu documentário de vida, de quem já passou pelos Estados Unidos, São Paulo e quatro apartamentos no JK, continua a ser rodado neste lugar que pretende ser fixo. “Sou muito feliz aqui.” Fica dias e noite por lá como os outros, no sobe e desce dos elevadores nesta cidade vertical, perto de tudo. “O grande problema é carro. A gente não precisa dele”, diz o bancário aposentado Maurílio Tavares do Nascimento. Divide o apartamento com a filha e retém as lembranças de época passada em sua terra São João Nepomuceno e Juiz de Fora, na Zona da Mata, Contagem, os casamentos desfeitos. “No JK a gente tem convivência diferenciada.” Todos os dias encontra com os amigos no salão de festas, conversa, toma cerveja, escreve mais um capítulo da vida, vê quem trabalha nesta quase cidade, são cerca de 100 funcionários no conjunto, e além daquelas pilastras de cimento e vidro. |
Cidade na verticalConfira números elevados do Conjunto JK
Bloco A
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Fonte: Assessoria de comunicação do conjunto JK |