Embora autoridades municipais e estaduais neguem que haja um surto de leishmaniose em Belo Horizonte, médicos, veterinários e especialistas estão em alerta e temem o agravamento da situação na capital. O motivo é que, apesar de todas as medidas oficiais de prevenção, os casos da doença, tanto em cães quanto em humanos, aumentaram na capital no ano passado em relação a 2007. Detalhe: a leishmaniose pode matar.
As regiões nordeste, noroeste e Venda Nova são as mais atingidas pela leishmaniose humana, de acordo com informações da prefeitura de Belo Horizonte. Em cães, os focos da doença também estão concentrados nessas áreas, além da região norte. Dados da Secretaria de Estado de Saúde de Minas apontam que, até novembro de 2008, foram confirmados 395 casos da leishmaniose visceral humana no estado. São 13 casos a mais que em 2007. Em novembro de 2008 foram constatados 949 casos do tipo visceral canina e, em dezembro, números parciais apontaram 953 animais soropositivos. Levantamento feito pela PBH indica que, em 2008, ocorreram 135 casos de leishmaniose humana na capital, com 18 óbitos.
A bióloga e técnica da gerência de controle da zoonose da prefeitura, Vanessa Pires, assegura, porém, que não há surto da doença na capital mineira e acrescenta que os dados não caracterizam a existência de uma epidemia na cidade. Vários especialistas consultados pela Viver Brasil, entretanto, discordam da afirmação. “Se não há surto de leishmaniose, como explicar que, de cada 10 cachorros examinados, 9 estão com a doença?”, questiona a médica veterinária Eliângela Orlando.
No Brasil, a leishmaniose está presente em duas formas: tegumentar e visceral. A tegumentar acomete a pele e as mucosas do infectado, podendo causar lesões graves, inclusive com infecções bacterianas secundárias, que complicam ainda mais o caso. Já a visceral ocorre com acometimento generalizado do organismo, com a diminuição da imunidade, que pode levar à morte. Tanto o homem quanto o animal podem ter os dois tipos. Entretanto, o diagnóstico dos cães é baseado na leishmaniose visceral.
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De acordo com Vanessa Pires, o grande desafio da prefeitura de Belo Horizonte está em conscientizar o cidadão do que é a doença e de como agir dentro e fora de casa. Segundo ela, a intenção e investimento das autoridades públicas estão em educar e informar as pessoas para o fato de que a leishmaniose pode matar. Que o diga a veterinária Kátia Xavier. Seu avô, Martinho Barbosa da Silva, que tinha 84 anos, foi um dos primeiros casos fatais em Belo Horizonte, em 1997. “Os médicos tiveram muita dificuldade para diagnosticar a doença. Quando descobriram, ele chegou a tentar o tratamento, mas não resistiu”, conta. Kátia relata que tinha cães em casa quando o avô faleceu, e que a prefeitura demorou a ir à sua residência fazer o exame nos animais, que eram soronegativos para a leishmaniose visceral canina. O período chuvoso, de dezembro a março, é quando os mosquitos se reproduzem. Com mais mosquitos, têm-se mais doença. O clima, todavia, não é o único vilão. Segundo o médico e professor de Medicina Preventiva, José Geraldo Leite, o desmatamento é outro fator importante para a proliferação do vetor. “E principalmente para o aumento do risco da leishmaniose tegumentar humana.” |
A vendedora Vanderli Veríssimo, moradora da região de Venda Nova, conheceu de perto esse tipo da doença. Tudo começou com uma ferida na perna, diagnosticada como berne (verme) pelo primeiro médico. Logo, a febre e o desânimo apareceram e a ferida não curava. “Procurei um médico particular, que diagnosticou a leishmaniose tegumentar. Tomei 98 injeções e fiz todo o tratamento, que é muito forte, com antibióticos”, conta. Poucos dias depois, o filho de Vanderli apareceu com uma ferida no rosto, que também se confirmou como leishmaniose tegumentar. “Muitas pessoas, ao perceberem que o seu animal sofre de alguma doença, não cuidam e acabam abandonando-o na rua, o que aumenta os riscos”, afirma. E como tratar desses animais já que a leishmaniose visceral canina não tem cura? De acordo com a veterinária Eliângela Orlando, pode haver o controle da doença através do tratamento que prolonga a vida do cão. “A doença é crônica, mas o tratamento elimina o parasita da pele e da circulação sanguínea. O cachorro deixa de ser um animal transmissor”, afirma. Eliângela já perdeu 19 cães com a zoonose. Hoje, ela é proprietária de cinco cachorros, e acredita que sacrificar os animais não resolve o problema. |
A estudante de direito Jenifer Lima sabe bem o que é isso. Há cerca de dois anos, ela perdeu três cachorros com leishmaniose, pela eutanásia. “Na rua inteira não sobrou nenhum cachorro”, conta. Já os cães da dona de casa Sheila Arcuri foram diagnosticados com leishmaniose visceral canina por uma veterinária. Ela teve dois cachorros e os dois tiveram a doença. O primeiro, muito fraco, ela preferiu sacrificar, mas com o segundo, um labrador, ela optou pelo tratamento. “Não existia a vacina, mas ele sempre usou a coleira repelente e eu tinha todos os cuidados de prevenção. Ele teve a doença, fez a quimioterapia e viveu bem por um ano. Porém, os remédios deixaram sequelas e ele morreu com problemas renais.” Sheila conta que o tratamento não dá garantias de sobrevivência ao animal, além de ter um custo alto. Em seis meses, ela gastou cerca de 3 mil reais com exames e remédios para o seu labrador. É o que também afirma Eliângela. Segundo ela, o tratamento é realmente caro e precisa, acima de tudo, de um comprometimento por parte do proprietário, responsável pela medicação e pelo controle de exames. “O animal precisa tomar a medicação por toda sua vida e, se o proprietário não faz a manutenção para o tratamento, abre-se espaço para que o parasita volte”, explica. E alerta: atualmente é proibido tratar animais infectados pela doença. |
A medida tem sido alvo de polêmica. Os ministérios da Saúde e da Agricultura, Pecuária e Abastecimento estabeleceram no dia 11 de junho de 2008 a portaria interministerial nº 1.426, que proíbe o tratamento de leishmaniose visceral canina em cães infectados ou doentes, com produtos de uso humano ou não registrados. Segundo o decreto, não existem garantias da eficácia do tratamento ou da redução do risco de transmissão. De acordo com a veterinária Elizabeth Biondini, é necessário um conjunto de medidas dentro de casa e com os animais para evitar o mosquito vetor. “Ter cuidado com plantas e entulhos, usar coleiras com inseticidas nos cães e também vacinar”, afirma. O valor dessa vacina está em torno de 90 reais a dose, e são três doses no primeiro ano. Após um ano, ocorre a revacinação, que deve ser feita por toda a vida do cachorro. Além disso, as medidas preventivas para os cães à base de repelentes possuem, em média, o valor de 35 reais. Os exames para o diagnóstico de controle da doença também para os animais custam entre 20 e 30 reais. A prefeitura disponibiliza 80% desses exames para ações de inquérito canino programador e os 20% restantes para pessoas que queiram fazer exames em seus animais. O que acaba fazendo o assunto cair no velho ditado de que é melhor prevenir do que remediar. |
Ciclo da doençaA leishmaniose é uma doença transmitida através da picada do vetor – o mosquito palha ou birigui, que contamina os cães. Infectados, os animais acabam transmitindo a doença às pessoas através do mesmo inseto. A trasmissão também pode ocorrer se o mosquito picar uma pessoa contaminada: o processo é o mesmo. Está presente no Brasil em duas formas: leishmaniose tegumentar e visceral. |
Perguntas & RepostasQual a prevalência da leishmaniose visceral? Ela ameaça cerca de 350 milhões de homens, mulheres e crianças em 88 países. Segundo a OMS, são notificados anualmente cerca de 500 mil novos casos. No Brasil, está distribuída em 22 dos 27 estados. O Ministério da Saúde informa a ocorrência de 2 mil a 3 mil casos por ano. Estima-se que, para cada caso humano, há uma média de 200 cães infectados. Quais os sintomas que um cão com a leishmaniose visceral pode apresentar? São observados lesões de pele, acompanhadas de descamações e, às vezes, úlceras, além de depressão, apetite diminuído e perda de peso. Alguns cães apresentam crescimento exagerado das unhas e dificuldade de locomoção. Em estado mais avançado, há comprometimento do fígado, baço e rins, podendo levar o animal à morte. Como a doença pode ser prevenida? As únicas medidas de controle são combate ao mosquito, práticas de educação da população, rápida identificação e controle dos reservatórios e emprego de medidas de saneamento. Hoje, já existem vacinas disponíveis para os cães. |