Heitor Rezende Mendonça recebeu seu diploma de engenharia mecânica pela UFMG e não chegou a vivenciar um dia sequer da angústia pela qual muitos recém-formados passam: procurar um emprego. Em dezembro de 2007, após 18 meses de estágio na Construtora Odebrecht, ele saiu da universidade com uma vaga garantida, na sua área, e passou a integrar o cobiçado rol dos engenheiros trainees da companhia. A mesma boa notícia chegou a vários outros estagiários de engenharia da empresa, quando finalizaram a graduação. “Na minha turma de universidade, todos se formaram já contratados”, conta.
Esse quadro alentador era improvável até as duas últimas décadas. Especialmente no auge da inflação e da recessão que marcaram os anos 80, centenas de engenheiros, das mais diferentes especialidades, terminavam a faculdade e aposentavam prematuramente os seus diplomas.
“Ao longo de mais de duas décadas de estagnação, a engenharia perdeu relevância e os profissionais se viram sem espaço para atuar”, observa Murilo Celso de Campos Pinheiro, presidente da Federação Nacional dos Engenheiros (FNE).
A solução que a mão-de-obra encontrava na área, lembra o consultor de empresas e psicólogo Paulo César Martins Guimarães, sócio-diretor da Humana Consultoria Empresarial, era aproveitar o conhecimento de matemática e enveredar pela área de informática, que se despontava como promissora, pela área financeira, que remunerava melhor, ou migrar para áreas administrativas. “O resultado disso é que, agora, quando o país retomou investimentos em infraestrutura, há um grande gap, pois falta gente com experiência”, afirma Paulo César. Dados da Associação Brasileira de Educação em Engenharia (Abenge) indicam que existem 300 mil vagas de engenharia nas faculdades, mas o Brasil ainda forma menos de 30 mil profissionais a cada ano. Na avaliação de Murilo, esse cenário faz com que seja necessário incentivar os jovens que ingressam nos cursos a concluírem a graduação. Hoje, 50% dos alunos abandonam a área no segundo ano da faculdade. “A principal razão é a falta de formação nos ensinos médio e fundamental, que não preparam os estudantes adequadamente nas áreas de exatas”, afirma.
A falta de profissionais qualificados atinge às diferentes engenharias – petroquímica, química, elétrica, civil, mecânica. A área de engenharia ambiental, por exemplo, explodiu nos últimos dez anos. Especialmente nesta década, o tema meio ambiente ganhou destaque em todo o mundo, e a necessidade de todas as atividades produtivas estarem adequadas a novas regras, ecologicamente corretas, deu novo status à profissão. “O meio ambiente é uma área muito abrangente e o mercado se vê carente de profissionais que não sejam apenas técnicos”, observa Liséte Celina Lange, chefe do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFMG. Isso explica, em parte, o fato de o curso de engenharia ambiental, que está sendo oferecido pela primeira vez pela universidade, ter ficado entre os mais disputados no vestibular deste ano, com 22,5 candidatos por vaga – atrás apenas do curso de medicina. |
Além dos canteiros de obras, das plataformas petrolíferas, das empresas, dos laboratórios e das indústrias, também as salas de aula se ressentem da falta de profissionais devidamente qualificados. De acordo com Dilvo Ilvo Ristoff, ex-diretor de Educação Básica Presencial da Capes, e autor de um estudo sobre carência de professores de física e química, no nosso país se formam, somadas todas as instituições de educação superior, cerca de 1,8 mil professores de física. “No entanto, precisaríamos hoje, para atender à demanda da educação básica, de cerca de 56 mil professores dessa matéria”, pontua. Para agravar o problema, ele explica que, historicamente, somente 1/3 dos licenciados em física vai para as salas de aula. “Se nada for feito, precisaremos de mais de 80 anos para atender à demanda de hoje.” A situação na área de química não é tão diferente: são apenas 3,6 mil professores formados nessa área, por ano. Essas áreas, todas estratégicas, lembram os especialistas, precisam de investimentos e de capital humano. A carência de profissionais pode desacelerar o ritmo de crescimento do país, comprometendo e adiando projetos, e manter o Brasil dependente de outros países em áreas como biotecnologia e tecnologia da informação. Na área educacional, destaca Ristoff, as consequências também são complexas. “Não é possível construirmos um país avançado nas ciências e na tecnologia, um país soberano, dono de seu destino, se nossos estudantes são submetidos, ano após ano, a um grande improviso – isto é, obrigados a estudarem com professores não habilitados para ensinarem o que ensinam.” |
O tamanho da GAP- Existem 300 mil vagas de engenharia nas faculdades, mas o Brasil ainda forma menos de 30 mil profissionais a cada ano
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