Este é um ano de comemorações para a Teoria da Evolução. Em fevereiro, celebrou-se o bicentenário do nascimento de Charles Darwin e em novembro registram-se os 150 anos da publicação de A Origem das Espécies, a obra desse naturalista que marcou para sempre a história da ciência e influenciou o modo como compreendemos a nossa própria humanidade. Para falar sobre esses importantes marcos, conversamos com Castor Cartelle, renomado paleontologista de origem espanhola, naturalizado brasileiro, que é curador da coleção de Paleontologia do Museu de História Natural da PUC Minas, professor aposentado da UFMG e presidente da Fundação Biodiversitas. “Na natureza, tudo está conectado, inclusive o homem”, destaca.
Qual a força, hoje, do pensamento de Darwin, 150 anos depois do surgimento da Teoria da Evolução?
O livro A Origem das Espécies foi publicado em 1859. Foi aí que surgiu a Teoria da Evolução e foi uma revolução, pois parecia que ela queria negar Deus. A teoria foi mergulhando num esquecimento e só depois da última grande guerra ela foi retomada, com uma denominação nova: teoria sintética da evolução. Pensava-se que a genética explicava tudo, mas ela pode ser considerada como um processo dentro da Teoria da Evolução. Hoje, do ponto de vista técnico, científico, para mim a Teoria da Evolução não existe, porque ela é um fato biológico. Não há que se falar em teoria, pois a evolução é a evidência, é o óbvio. Há 200 anos, por exemplo, havia teorias de tudo quanto era jeito para explicar a reprodução. Hoje ninguém fala na teoria da reprodução humana: ela é um fato. Para mim, a teoria da evolução hoje está nesse patamar. Mas, provavelmente, metade da humanidade não acredita nisso, mas na criação.
O que pensa essa metade da humanidade?
A questão da evolução virou, hoje em dia, quase um problema de xiismo religioso. Muitos ainda pensam que é como se Deus fosse substituído pela natureza. Como se a Bíblia estivesse em oposição ao livro do Darwin. Muita gente olha por esse prisma – mais da metade da humanidade –, mas penso que esse é um problema de cultura. A evolução não é uma questão religiosa; no máximo é um problema de ignorância ou conhecimento. Mas, na comunidade científica, ela é encarada, hoje, como o óbvio.
Essa dicotomia entre Teoria da Evolução e religião ainda faz sentido? Quem crê na teoria de Darwin não pode crer em Deus?
Absolutamente não existe essa dicotomia. Ciência e religião nunca se opõem. Quem tem medo de que a ciência se oponha a Deus, é sinal de que tem pouca fé. Se a pessoa acredita em Deus, a ciência é uma consequência do que Deus fez. É impossível, para quem acredita, que a ciência possa derrubar ou demonstrar Deus. Deus é uma descoberta pessoal. São coisas diferentes. Algo assim como o afeto e o carinho materno: a explicação ultrapassa o biológico.
Que descobertas mais importantes, desde 1859, vieram reforçar a teoria de Darwin? Em que medida, por exemplo, a descoberta de que a Terra tem bilhões de anos de idade veio ajudar a Teoria da Evolução?
Muitas descobertas foram reforçando a teoria. Nenhuma a desautorizou. Darwin escreveu que, para a teoria dele ser verdadeira, era preciso muito tempo – tempo necessário para a evolução acontecer. Naquela época, um físico inglês, que era lorde, calculou que a Terra teria, no máximo, uns 40 milhões de anos. O lorde Kelvin era um inglês, muito culto, físico, só que, hoje em dia, uma criança da sétima série já sabe mais do que ele a esse respeito. Ao descobrirmos que a Terra tem bilhões de anos, a Teoria da Evolução foi reforçada. Além disso, todo o estudo biogeográfico feito até hoje, bem como todos os estudos genéticos, reforçam o pensamento de Darwin. 8
O sequenciamento do genoma humano, por exemplo, que revelou uma similaridade entre os nossos genomas e os do chimpanzé, reforçando a tese de que descendemos do mesmo ser.
Sim. Nada, depois de Darwin, conseguiu contrariar a teoria. Inclusive a problemática ambiental de hoje reflete consequências evolutivas.
Durante a viagem a bordo do navio britânico HMS Beagle, além do fascínio que as ilhas Galápagos exerceram nele, parece que o achado de jazidas de fósseis, na Argentina, teriam sido muito importantes também para inspirar nele a ideia da Teoria da Evolução e da seleção natural. A paleontologia estaria, ao lado do naturalismo, na origem da Teoria da Evolução? Além de naturalista, ele foi também um paleontólogo?
Darwin não foi paleontólogo. O pai dele queria que ele estudasse Teologia, mas esse não era o mundo dele: entrou para o mundo dos insetos. O que ele não conhecia, como por exemplo a paleontologia, contava com a colaboração de outros, como Richard Owen, diretor do Museu de História Natural de Londres. Darwin, em seus estudos e viagens, começou a observar, que à medida que ia descendo para o sul, afastando-se dos trópicos, espécies eram parecidas, mas se diferenciavam. Era como se ocorresse uma adaptação a circunstâncias novas. Nas ilhas Galápagos, observou algo semelhante: alguns animais adaptavam-se de maneira diferente nas diversas ilhas. Diante dos seus olhos, lá estava uma aula de evolução dada pela natureza! Ele fez descobertas paleontológicas na Argentina. Especialmente ao descobrir tatus fósseis percebeu que eram diferentes dos atuais. O que ele via nas suas observações da fauna atual repetia-se no passado com as peças fósseis!
De acordo com Darwin, o mundo biológico que hoje conhecemos é o resultado de milhares de milhões de anos de evolução. Mas li um evolucionista dizer que hoje é possível se observar a evolução se desenrolando em tempo real. A evolução não é tão lenta, como Darwin imaginava? De que maneira a paleontologia tem contribuído, na atualidade, para corroborar a teoria de Darwin? É dito que ainda temos grandes lacunas a serem preenchidas, que há “elos perdidos” a serem encontrados... O cientista britânico Steve Jones afirma que a evolução acabou: o ser humano não sofrerá mudanças drásticas, porque viramos um grande continente genético, muito semelhante, e graças ao nosso estilo de vida. O que pensa disso? A ideia de que estamos sempre a caminho da evolução não se choca, de certa forma, com a descoberta de que há genes modificados, mutações que, ao contrário, não visam à evolução, mas à destruição do indivíduo, como genes para o desenvolvimento de doenças? Há algum grande equívoco na teoria de Darwin, algo que tenha sido colocado por terra ao longo do desenvolvimento da ciência, de 1859 para cá? Certa vez o senhor disse que o estudo da evolução humana é comparável a uma fotografia em processo contínuo de revelação. Cada descoberta acentua a cor da imagem. Já estamos perto de ver toda a foto? O que as imagens nos dizem, em síntese, é que na natureza tudo está de algum modo conectado a todo o resto? |