A indústria automotiva é um dos setores que mais vêm sofrendo com a crise internacional. Nos Estados Unidos, na Europa e até no Japão, uma onda de demissões se seguiu às enormes quedas, que chegaram à casa dos 60% e não pouparam nenhum dos maiores mercados do mundo. O Financial Times, um dos veículos de comunicação mais respeitados do segmento econômico, chegou a afirmar que os fabricantes de automóveis estão à beira de um colapso. Só nos EUA, as últimas notícias dão conta de que cerca de 500 fornecedores correm o risco de ir à falência em função da queda nas vendas e a falta de perspectiva de uma ajuda governamental, como a que literalmente salvou a General Motors e a Chrysler da falência. No Brasil, o cenário é diferente, para não dizer antagônico. É de recuperação. “Aumentamos nossa produção em 40%”, afirmou o diretor comercial da Fiat, Lélio Ramos, durante o lançamento do Punto T-Jet, neste mês. Mais do que confiança em um mercado que, até agora, não acendeu a luz vermelha, a marca quer continuar na liderança que vem sendo ameaçada pela Volkswagen. “Nossa expectativa é para o volume de 2,4 milhões de unidades no fechamento deste ano”, avalia o presidente da companhia, Cledorvino Belini.
Enquanto a Fiat aumenta a produção, a GM, que vive o pior momento de sua história nos Estados Unidos e na Europa, contabiliza lucro no Brasil. “Nossa matriz recebeu a segunda parte do aporte governamental, nos Estados Unidos, e falta apenas a terceira e última parcela desta ajuda”, declara o vice-presidente da subsidiária brasileira, José Carlos Pinheiro Neto. O executivo garantiu que não haverá necessidade de novos aportes e que, aqui, a empresa registrou seu melhor ano financeiro, desde que iniciou suas operações no país, no ano passado. “Acho que teremos um segundo semestre melhor do que estamos tendo neste primeiro, mas precisamos de novas medidas para incentivar as vendas”, acrescenta Pinheiro Neto.
Ivan Segal, que assume o controle geral da Citroën no país no dia 1º de abril, em substituição a Jean-Louis Orphelin, tem a missão de levar a marca a uma participação de 3% no mercado nacional e também acredita que o cenário atual é positivo. “O momento é propício, pois é nas épocas de crise que se devem aplicar as mudanças”, disse ele, durante a apresentação do C4 hatch, segundo dos cinco lançamentos previstos para este ano.
Mas nem tudo são flores. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) garante que, não fosse a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), o mês de fevereiro teria uma queda de 20% ao invés da alta de 1% registrada. A redução na taxa de juros de 1,5%, anunciada pelo Banco Central no último dia 12, foi bem-recebida pelo setor, mas ela não parece suficiente para manter os volumes atuais. “É um passo na direção certa, mas é fundamental que esse valor chegue, rapidamente, na ponta do varejo”, afirma o presidente da Anfavea, Jackson Schneider. A crise estrangeira, no entanto, acaba comprometendo a produção nacional. Afinal, as exportações vêm caindo há oito meses consecutivos e, só em fevereiro, esta queda superou a casa de 50%, em relação a 2008. Schneider acredita que nossas montadoras não recuperarão o ritmo anterior tão cedo. “O nível de crédito, no exterior, diminuiu muito”, declara o executivo.
O presidente mundial do Grupo Fiat, Sergio Marchionne, vai além. “Os fabricantes estão dirigindo sob forte neblina e com uma visibilidade que não ultrapassa os 100 metros. Há necessidade de se adaptar continuamente ao cenário”, afirma. Já gigantes como a GM têm problemas ainda maiores. “A companhia precisa de drásticas atitudes e valores”, diz o consultor da RAK, Rob Kleinbaum, que trabalhou na empresa por nove anos e, depois, mais 15, prestando serviços de consultoria. “O grupo, infelizmente, vive de seu passado de glórias. Ele terá que redefinir sua noção de investimentos e corte de custos”, avalia o especialista. Para Kleinbaum, a subsidiária brasileira é um exemplo de sustentabilidade para a matriz.
Para toda a indústria nacional, há uma grande expectativa em relação à prorrogação da medida que reduziu o IPI. “Se não houver esta prorrogação, teremos de pensar em outras soluções, como uma redução ainda maior das taxas de juros, que possa incentivar o consumo”, diz o presidente da GM brasileira, Jaime Ardila. Já o presidente da Fiat, Cledorvino Belini, lembra que, no ano passado, o país saltou da 12ª posição do ranking mundial de produção, para o sexto lugar e confirmou a manutenção do plano de investimentos da companhia no país, bem como a ampliação da capacidade de produção da fábrica de Betim, para 800 mil unidades. “Mesmo com a perspectiva de pequena retração do mercado, em 2009, tenho certeza de que este será um dos melhores anos do setor, no Brasil.”