As chuvas que castigaram Minas Gerais e Belo Horizonte, em particular, nos meses de dezembro e janeiro, além de Rio de Janeiro e Espírito Santo, evidenciam mais uma vez o despreparo do país e dos estados atingidos para fenômenos absolutamente previsíveis, como o aguaceiro desta época do ano. Há mais de 30 anos no ofício de repórter ou editor de jornais, rádio e televisão, foi raro o verão, nesse período, em que não cobri ou não coordenei desastres desse tipo em Minas. E, à exceção de 1979, quando todo o estado se transformou numa imensa lagoa, não escapando sequer o semiárido, normalmente as regiões atingidas têm sido sempre as mesmas.
A intensidade é que varia. Num ano, é o Sul de Minas. No outro, é Belo Horizonte. No seguinte, a Zona da Mata e, no próximo, o Vale do Rio Doce. Neste ano, foram todas essas regiões. Exceção, por enquanto, é o Norte de Minas, irmão-gêmeo da seca, que, mesmo assim, por pouco, não pagou pela imprevidência dos que abriram as comportas da Cemig em plena cheia do São Francisco, quase repetindo o desastre de 1979, quando Pirapora, São Romão, Januária e outras mais foram invadidas pelas águas do Velho Chico, já em plena estiagem.
De sorte que as inundações, as quedas de barreiras, as enchentes, os deslizamentos de morros e os milhares de desabrigados fazem parte da tragédia anunciada a cada período chuvoso, sem que União, estados e municípios se antecipem ao desastre das chuvas e passam a correr, depois, atrás dos prejuízos – alguns passíveis de recomposição, mas outros não, como é o caso das vidas que se perdem. Ora, a essa altura, já era para estados e municípios saberem exatamente onde o morro vai deslizar, que ponto de estrada vai ceder, onde os rios transbordarão e, de posse dos dados, disponíveis em função da repetição anual das tragédias, quando não por estudos geológicos, acudirem a tempo de evitar o desespero dos que perdem casas, plantações e até mesmo parentes e amigos.
Mas não. Entra ano e sai ano, nada ou quase nada é feito. Esperam as águas chegarem, na expectativa, quem sabe, de que este ano não virão. Mas vêm, inevitavelmente, obrigando-os a pedir socorro, a apelar para a caridade pública, a rezar para que a chuva cesse. Quem pode dizer que, no ano que vem, novos deslizamentos não ocorrerão, em Ouro Preto, por exemplo, se não fizerem a contenção de alguns morros da cidade? E quem garantirá que a BR-040 ou a BR-381 não será interrompida se não forem restauradas em alguns pontos? E por que não fazer, desde já, uma intervenção preventiva em alguns bairros de Belo Horizonte, onde critérios mínimos de ocupação do solo não teriam sido observados, como se pode verificar no bairro Buritis? A propósito, de quem é a culpa pelo desastre naquela região?
É preciso que se ponha um fim nessa cantilena de, ano após ano, Minas recolher os escombros e chorar os seus mortos passadas as chuvas, previsíveis como a neve em São Joaquim, na serra Gaúcha. Minas pleiteia de Brasília 4,5 bilhões de reais para recuperar o que as chuvas levaram. E o que é necessário para evitar que as próximas façam o mesmo? Ou vamos somente tirar a lama e tapar os buracos das estradas, reconstruir as pontes, reerguer as casas destruídas e vacinar a população atingida, para, em dezembro, começar tudo de novo? O bom senso manda que se faça a prevenção ao longo destes próximos meses para que, no final do ano, o governador do estado não tenha que interromper suas férias e voltar às pressas a Belo Horizonte, para, nos primeiros dias do Ano Novo, ir de cidade em cidade prestar a sua solidariedade às novas vítimas da próxima tragédia desde já anunciada.