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Quinta, 24 de Maio de 2012

Artigo

Bendita Crise

Temos tendência para minimizar as dificildades do passado. A crise atual sempre apaenta ser a pior de todas.

Texto: Lúcio Costa
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Lúcio Costa -

Desculpem-me. Concordo que o título acima está politicamente incorreto e somente objetiva chamar atenção para o que abaixo exponho. Sabemos todos que depois da tempestade vem a bonança. Bons tempos virão mais cedo para o nosso país que para outros mais afetados pelas circunstâncias atuais. Quem viver verá! Sabemos, também, que o tsunami econômico mundial teve origem tão longe do Brasil quanto aquele maremoto que assolou as Filipinas recentemente, popularizando essa palavra até então desconhecida no linguajar pátrio. No frigir dos ovos, esperamos que o presidente Lula tenha razão ao minimizar para marolinha os efeitos circunstanciais no Brasil.

Sabemos, ainda, que essa crise, apesar da sua origem externa, estendeu-se pelo mundo todo, dada sua condição, cada vez mais concreta, de aldeia global, expressão criada pelo filósofo Marshall McLuhan, mais discutido do que lido, mais desprezado do que estudado, na década de 60, quando foi chamado de sonhador ou louco, conforme a simpatia que suas ideias provocavam.

Sabemos, enfim, que essa não é a primeira nem a última, já que a única coisa constante na vida são as mudanças. O mundo gira... a fila anda! Apesar de considerarmos sempre o passado tecnicolor, na vida real não é assim que as coisas de fato acontecem.

Temos tendência para minimizar as dificuldades do passado. A crise atual sempre aparenta ser pior que as passadas. Quem se lembra, hoje, do sofrimento que a mal-amada ministra Zélia causou confis­cando a poupança nacional, deixando cada um de nós com míseros 50 cruzados, ou cruzeiros novos, ou sei lá o quê? E quantas BTNs, ORTNs, URVs, tablitas, deflações e outras cascatas econômicas e financeiras que nos foram impingidas? E a inflação de 84% ao mês, no ocaso do desgoverno Sarney, que fazia os supermercados ficarem lotados para comprar no início do mês, já que, no final dele, os preços dobrariam? E as maquininhas etiquetando noite e dia, remarcando tudo incessantemente? E o preço de tudo, tudo, estipulado em dólares? E a valorização diária/noturna das fajutas moedas, via aplicação overnigth? E os planos Collor, Bresser, Verão, Sarney, Cruzado I e II, Real etc. e tal, cada qual querendo inventar a pólvora ou recriar a roda com circunferência alterada, muitas vezes tão maquiadas quanto os produtos congelados numa idiota e vã tentativa de regular a imutável lei da oferta e da procura?

E a prisão dos donos dos bois gordos que estavam nos pastos esperando o descongelamento de preços, ao invés de estarem congelados nos frigoríficos ou nos açougues? E os exibicionistas recalcados fiscais do Sarney exercendo pictórica hilariante e fictícia autoridade fechando supermercados ,quitandas ou padarias desobedientes ao plano? E a Rede Globo cidadã mostrando um patriotismo exacerbado em troca de quê? Eu, hein!?

Por pior que esteja a situação – e ela não está tão crítica assim como alardeiam alguns demagogos e aproveitadores de sempre, pois é setorial e, principalmente, focada em commodities mundiais e na eterna gana dos bancos – por pior que ela evolua, jamais tentará ser resolvida com um plano Mantega – ou Margarina, perdoem-me o infame trocadilho. Já passamos por essa fase nefasta. Ainda bem que aquele despirocado presidente, plagiando um filósofo italiano, obrou: \"O tempo é o senhor da razão\" – provando com seu impeachment que a frase tinha sustança, tanto que acabou prevalecendo.