Freud admitia que os sofrimentos humanos se originam principalmente de três fontes: pela imposição das forças da natureza, com seu poder esmagador e impiedoso de destruição; por nossa consciência da fragilidade e caducidade de nosso corpo, que sequer pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de alerta contra perigos, estando também inexoravelmente condenado à decadência do envelhecimento; mas nada seria mais doloroso que a perda do afeto de alguém que amamos e faz parte de nosso equilíbrio pessoal. Vazio no peito, frio na alma. O mundo parece ruir. O rompimento amoroso consegue trazer mais sofrimento do que a morte da pessoa amada. Aprendemos a moderar nossas reivindicações de felicidade e a nos curvar diante dos fatos naturais, que já impuseram limites aos nossos desejos e nos forçaram a transformar o princípio do prazer em princípio de realidade. Se a morte é imposição da natureza, aceita ao fim do doloroso processo de luto, o rompimento é vicissitude existencial com a qual lidamos mal.
Intuindo o potencial bombástico da desilusão amorosa, não são poucos os que dela se defendem no isolamento: evitam amar. Afinal, quem não tem não perde... Garantem, assim, a quietude do tédio. Nossos vínculos amorosos guardam as marcas de nossa história. Nossa sexualidade infantil circulou em torno de quem inicialmente se preocupou conosco e de nós cuidou – a mãe, ou quem quer que a substitua. Esta é a mais costumeira fonte de definição do amor e de escolha do ser amado: alguém capaz de amar e cuidar. Há quem escolha amar quem se pareça consigo. Aquilo que pensa definir seu próprio eu se torna o modelo para a pessoa amada. É gente que segue em busca de si mesma e desenvolve vínculos narcisistas com o ser amado, extensão da magnificência atribuída ao próprio eu.
Como nosso desenvolvimento é manhoso e complexo e raramente segue um curso tranquilo e uniforme, o mais comum é que nossas escolhas amorosas misturem esses dois modos de vinculação. Esses dois tipos de escolha amorosa – tecnicamente conhecidos como anaclítico e narcisista, respectivamente – são possíveis, mas um deles costuma ganhar mais relevância. Pessoas narcisistas, cheias de si, aparentemente seguras e autossuficientes exercem grande fascínio sobre quem renunciou à parte do próprio narcisismo e está em busca de alguém para amar e por quem ser amado. Os narcisistas estimulam a admiração do outro, pois parecem estar numa posição libidinal inatacável: inveja-se o bem-aventurado estado de espírito que exibem. Sua posição de aparente invulnerabilidade atrai quem neles enxerga o ideal de pessoa que saberá amar de forma perfeita e segura, funcionando como complemento perfeito do eu que se sente frágil. Na maior parte dos casais, acontece esta dobradinha: um que deseja mais ardentemente ser amado pelo outro supervalorizado, mais narcisista, indiferente e centrado em si mesmo. A insatisfação e as dúvidas amorosas têm sua origem na incongruência entre os diferentes motivos que determinam a escolha do parceiro. É frequente que as posições se alternem, de acordo com as circunstâncias do momento. As consequências de um rompimento dependerão do equilíbrio do casal no momento da separação: um está mais forte do que o outro, mais carente e fragilizado no momento. Este último mergulhará mais prontamente no sofrimento. O outro vai elaborar a perda paulatinamente – e não quer dizer que não exista sofrimento. Quando o amor se vai, o que perdemos? A esperança de um porto seguro, que ofereça carinho e cuidado, ou parte de nós mesmos? Ficam a dor, o vazio e a angústia, interrogação que nos faz ir em busca de novas respostas.