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Quinta, 24 de Maio de 2012

Artigo

Circo eleitoreiro

Texto: Paulo César de Oliveira
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Paulo César de Oliveira -

O saudoso Ulysses Guimarães, símbolo maior da luta democrática no Brasil, não gostava de ouvir críticas à Câmara dos Deputados. Sempre que alguém dizia que a Câmara estava ruim, ele reagia: “É porque você ainda não viu a próxima.” Esta frase-premonição, que talvez já tenha sido citada aqui, está atual como nunca. Os que já assistiram o programa eleitoral sabem do que estou falando. A tomar como parâmetro de comportamento futuro o que fazem hoje os candidatos no programa eleitoral obrigatório, teremos Câmara, Senado e assembleias, transformadas em picadeiros ou pátios de hospício. São candidatos que não se envergonham de transformar suas campanhas em palhaçadas e de apresentarem propostas sem qualquer sustentação, mais próximas da alienação mental do que da vida real.

O símbolo da palhaçada é Tiririca, um comediante sem graça que virou vedete, inclusive da mídia, na campanha paulista. Candidato a deputado federal ele confessa não saber o quê afinal faz um deputado, mas garante que, se eleito, vai buscar informação para explicar aos eleitores. E as pessoas acham graça.

 

Palhaços, cantores, jogadores de futebol e Napoleões de hospícios, que prometem de tudo e que, em alguns casos, falam como se falassem em nome de Deus, são recrutados pelos partidos como puxadores de votos. São convidados em função da fama e do prestígio popular que possam ter. A esperança é que agreguem votos de legenda e, com isto, ajudem a eleger quem não tem voto.

O problema é que não raramente alguns passam, elegem-se e vão para os parlamentos com os votos dos iguais. Votos dos eleitores que gostam deles ou que, de forma irresponsável, cravam seus nomes nas urnas como forma de protesto. Estão a dizer que, se a política está ruim, vamos piorá-la ainda mais para ver se melhora.

Não se iludam com esta forma de pensar. Quanto mais piorar, pior ficará para você. Um parlamento fraco, despreparado, com membros facilmente cooptáveis, interessa, e muito, aos que têm propósitos dominadores. Um parlamento formado por inconsequentes é ótimo para quem tem a alma de ditador. Não precisa ser fechado. Pode permanecer aberto, em falso funcionamento, apenas homologando o que deseja o Executivo e, ainda assim, passa a imagem de que se vive numa democracia.

Entre estes que buscam entrar na política aproveitando-se da popularidade que conseguiram em suas carreiras de artistas, desportistas ou religiosas, há sim, raros mas há, casos de revelações. Eles não são muitos, mas existem as exceções que se elegeram, desenvolveram-se e abraçaram com seriedade a carreira política.

Mesmo com todo mal que fazem à política e à vida de todos nós, reconheço que têm direito de se lançarem can- didatos. Todo cidadão tem esse direito. O eleitor é que não tem o direito de votar em qualquer candidato. O voto é importante demais para se transformar numa brincadeira de péssimo gosto.

Daqui até as eleições vamos aguentando o falatório, as encenações de quem não percebe o mal que fazem à de- mocracia, ao país. O descalabro é de tal ordem que chego a pensar, às vezes, que tudo isto é parte de um projeto de dominação. Desmoralizar para dominar.

Mas aí me bate a dúvida: de quem é este projeto, se todos os partidos, sem distinção, fazem parte dele. Tudo isso só vai acabar se o próximo presidente da República, na pri- meira semana de governo enviar ao Congresso, com apoio dos governadores, os projetos das reformas política e tributária. E é só início do governo e com muita vontade política. Caso contrário mais uma vez o governo passará sem fazer as reformas tão necessárias ao Brasil.