Os que acompanham a vida política e econômica de Minas conhecem ou já ouviram falar no famoso diagnóstico da economia mineira feito sob a liderança do economista Fernando Roquete Reis. Em síntese, o estudo ficou marcado por uma frase: “pior do que a realidade, só a perspectiva”. Mas foi a partir daí, já com Fernando Reis na então poderosa Secretaria da Fazenda do governador Rondon Pacheco, que Minas deu o salto que a colocou como a segunda ou terceira economia do país, menos de 20 anos depois. E assim tem permanecido, entra governo sai governo, uns menos outros mais. Agora, quando Minas experimenta taxas nominais de crescimento acima da média do país, um outro espectro ronda o estado: Minas crescerá menos do que o país e inferior a São Paulo nos próximos 15 anos, fazendo aumentar as desigualdades intrarregionais. Um novo diagnóstico da economia mineira, à maneira do estudo orientado por Fernando Reis?
Não parece tão dramático assim, mas não menos preocupante. O estudo é do Centro do Desenvolvimento Regional (Cedeplar), da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG, e teve a coordenação do professor Edson Domingues. Nele, os pesquisadores da UFMG mostram que Minas terá nos próximos 15 anos, horizonte do trabalho, crescimento médio de 3,7% – o que não é pouco, convenhamos – enquanto o país crescerá no mesmo período a taxas médias de 4,5%. E no mesmo período, o norte de Minas, o Vale do Jequitinhonha e o Mucuri crescerão menos do que o Triângulo Mineiro, a região central do estado e o Sul de Minas, que já têm Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) maiores do que as outras. Ou seja, os pobres continuarão mais pobres e os ricos mais ricos. O estudo, claro, mostra algumas portas de saída para tais anomalias, advindas em sua maioria do perfil da nossa economia, historicamente atrelada ao setor minero-metalúrgico.
Pode-se dizer que o estudo, na verdade, apenas confirma com números cruzamentos, estudos de variáveis e outras metodologias de pesquisa o que se observa a olho nu. Contudo, o que chama a atenção é que as campanhas eleitorais que estão nas ruas e na televisão parecem passar ao largo do que o Cedeplar detectou. E a não ser um debate ou outro sobre a questão dos impostos sobre o minério ou ainda algo vago sobre a necessidade de diversificação da economia mineira, ninguém toca no assunto com a profundidade que o tema requer.
O estranho é que não há momento melhor do que o eleitoral para que os candidatos digam aos eleitores e contribuintes o que pretendem de fato fazer para melhorar a vida do cidadão. E nada mais oportuno do que tomar como ponto de partido um estudo acadêmico, portanto isento das paixões partidárias e imune à demagogia própria do momento, para discutir com a sociedade o que é melhor para o estado. Senão vejamos. Se um dos candidatos, não importa qual, propuser a repetição pura e simples do modelo industrial ora vigente no estado, ele simplesmente vai reproduzir, com efeitos mais danosos ainda, as distorções detectadas pelo Cedeplar no formato do desenvolvimento mineiro. O próprio diagnóstico dos professores da UFMG, ao apontar as distorções, baseadas sobretudo no modelo exportador de matérias-primas, sinaliza algumas soluções. É possível que alguém diga que os economistas, de modo geral, são dados a exercícios de futurologia ou, quem sabe, são meros sonhadores – eu já ouvi isso. E que mal faz um sonho? Mas ainda assim é no mínimo estranho que um estudo dessa profundidade, com reconhecido rigor técnico, seja desconhecido ou menosprezado por aqueles que pedem aos mineiros um crédito de confiança para governar o estado. Como a campanha segue seu ritmo, na discussão de questões meramente pontuais, ainda há tempo para rever essa visão que não condiz com o preparo dos que nos pedem o nosso voto. E não custa lembrar que Minas só deu o salto que deu, na década de 70, graças à futurologia ou ao sonho da equipe liderada pelo romântico Fernando Roquete Reis.