É comum, quando falamos em separações, pensarmos quase que exclusivamente do ponto de vista de uma relação amorosa. Talvez por ser o nascimento, nossa primeira experiência amorosa e, também, nossa primeira experiência de separação. O corte do cordão umbilical, ao mesmo tempo em que marca a nossa entrada no mundo, marca também a nossa separação do corpo materno.
Há um longo percurso na vida de todos nós, desde a fusão inicial com a mãe até alcançarmos certa independência. O percurso, como todo crescimento, envolve transformação de um estágio ou de uma situação anterior a algo desconhecido. Nosso corpo é pura expressão dessas transformações.
Nesse processo, a própria vida parece nos impulsionar num movimento paradoxal entre dependência e autonomia. E sempre haverá conflitos entre o desejo de um porto seguro e o desejo de liberdade.
Diante de circunstâncias fundamentais da vida, cada pessoa se posiciona de acordo com seus anseios, seus desejos e temores mais profundos, o que as fazem únicas. Para alguns, mudanças significativas podem gerar resposta criativa: aceitar desafios, terminar uma situação que não permite nenhum crescimento, encarar riscos, pode ser estimulante, pode significar enriquecimento da vida. Para outros, no entanto, separar de algo conhecido, de um relacionamento mesmo que infeliz, de trabalho sem motivação ou de qualquer situação limitadora, pode gerar muito sofrimento, chegando mesmo a imobilizar a pessoa em um sentimento de profunda impotência.
Em geral, é difícil não haver nenhum sentimento de perda. A maior ou menor dificuldade para superar nos remete aos nossos primeiros vínculos afetivos, às nossas primeiras angústias de separação, que se presencializam na vida adulta. O que nem sempre nos damos conta é que do nosso nascimento até o amor maduro e o trabalho muitas etapas foram superadas.
Separamo-nos da nossa infância, dos nossos pais, de velhos sonhos, de velhos amigos, de tantas ilusões. Separamo-nos dos nossos filhos, de nós mesmos, da nossa juventude. Separamo-nos inúmeras vezes. Revemos fotos, nos vemos e não nos vemos mais naquela pessoa. Rimos e choramos da dor e da delícia de sermos e não sermos mais o que está ali. Um paradoxo da nossa existência que é muito bem traduzido na canção de Milton Nascimento e Fernando Brant: “(...) chegar e partir são só dois lados da mesma viagem, o trem que chega é o mesmo trem da partida, a hora do encontro é também de despedida...”.
Se as dores do viver não podem ser evitadas, podem, ao menos, ser atravessadas de maneira mais criativa e inteligente. O sentimento de vulnerabilidade que acompanha toda a nossa existência pode muito bem nos levar a descobrir um jeito de dar valor positivo a nossa fragilidade humana.