Criada no final do século 19 sob forte influência do liberalismo para ser “centro de atividade intelectual, industrial e financeira e ponto de apoio à integridade de Minas Gerais”, conforme mensagem do governador Augusto de Lima, a nova sede do governo estadual, tornou-se, inicialmente, a cidade dos funcionários públicos. Não é por outra razão que um de seus bairros mais prósperos chama-se até hoje Funcionários. Belo Horizonte significou, no plano urbano, os avanços da racionalidade do século 19. A consolidação da revolução industrial estimulou o desenvolvimento urbano em um ambiente de grande afluência econômica, social e cultural da Europa na segunda metade do século 19. O projeto urbano de Aarão Reis resultou do racionalismo no planejamento das cidades modernas à época. Nesse contexto, para sediar o palácio do governo e várias secretarias, foi construído o complexo arquitetônico da praça da Liberdade no topo de uma colina na região ao sul do traçado circunscrito pela avenida do Contorno. Dessa praça se espraiou o desenvolvimento para as regiões central e sul da nova capital.
No plano humano, devido à sua função político-administrativa, a cidade acolheu grande número de intelectuais, na sua maioria funcionários públicos que tiveram grande importância na formação cultural brasileira. Na fase inicial da nova capital Ciro dos Anjos descreveu a vida de um servidor público ao transpor para romance o diário de Belmiro, um amanuense, morador da rua Erê e passageiro dos bondes de outrora. Com Ciro dos Anjos conviveram Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Emílio Moura e tantos outros. Era o belo horizonte romântico do liberalismo que ia se abrindo às novas ideias. Ao longo do século 20, Belo Horizonte foi se transformando. A semana de arte moderna de 1922, que representou a ruptura com os padrões tradicionais do parnasianismo e do lirismo, teve grande influência sobre a vida cultural da capital.
Já na década de 40, a organização do espaço urbano sofreu profunda mudança graças à visão empreendedora do prefeito Juscelino Kubitschek com a construção do complexo da Pampulha: obra da genialidade de Niemeyer e símbolo maior da presença do modernismo na nova capital. O complexo da Pampulha induziu o crescimento econômico no sentido norte da cidade, além das fronteiras da avenida do Contorno. Foi, sem dúvida, a segunda inauguração de Belo Horizonte. Fernando Sabino, outro funcionário público, traduziu no livro Encontro Marcado a vida urbana na nova capital, ainda romântica, mas com forte influência do modernismo. No final dos anos 50 a vanguarda mineira chegou à música com Pacífico Mascarenhas e Roberto Guimarães, expoentes mineiros da bossa nova.
Agora, no início do século 21, mais uma vez, Belo Horizonte se reinventa, graças ao arrojo do governador Aécio Neves. Unindo a racionalidade do planejamento urbano do século 19 com a ousadia do modernismo do século 20, Belo Horizonte ingressa na sua terceira fase com a inauguração da Cidade Administrativa na região norte. Mais um marco da arquitetura de Oscar Niemeyer e mais um passo para consolidar a indução ao desenvolvimento urbano no sentido norte. Após a Linha Verde, a duplicação da avenida Antônio Carlos e a consolidação do aeroporto Tancredo Neves, a Cidade Administrativa nasce para estimular o desenvolvimento econômico, social e cultural da região norte de Belo Horizonte, além da Pampulha. Nasce com o compromisso da busca do desenvolvimento com inclusão social e preservação ambiental, que é o desafio de hoje.