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Quinta, 24 de Maio de 2012

Artigo

Chile: democracia e demografia

Um observador atento vê que, à medida que o tempo passa, a participação relativa dos jovens nascidos após a ditadura vem aumentando na população chilena

Texto: Paulo Paiva
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Paulo Paiva -

A população chilena escolheu o seu quinto presidente da República desde a redemocratização do país, ocorrida no final da década de 80. O eleito foi Sebastián Piñeda que, há cinco anos, havia sido derrotado pela atual presidente Michelle Bachelet. O resultado pareceu surpresa para muitos, posto que a coligação de  centro-esquerda, denominada Concertación, havia ganho todos os pleitos anteriores e Bachelet ostentava a aprovação de mais de 80% da população chilena. Piñeda rompeu a hegemonia de 20 anos da coligação liderada pelo Partido Democrata Cristão e pelo Partido Socialista.

A primeira interpretação para a derrota do candidato governista é imputá-la à ruptura da aliança de centro-esquerda. De fato, Enrique-Ominami, que obteve 20% dos votos no primeiro turno, é uma dissidência do Partido Socialista, e Jorge Arrate, ministro do Trabalho de Frei no seu governo anterior e atingiu 6% dos votos, foi candidato da aliança de esquerda liderada pelo Partido Comunista. Por hipótese, se esses 26% dos votos tivessem se somado aos 29,6% de Eduardo Frei, candidato da Concertación, este teria conseguido 55% dos votos no primeiro turno, vencendo então as eleições.

Contudo, não foi isso que aconteceu. No segundo turno Piñeda obteve 52% e Frei 48%. O total de eleitores foi aproximadamente o mesmo: 6.938 mil no primeiro e 6.943 mil no segundo turno. Considerando, o que me parece razoável, que todos que votaram no primeiro turno retornaram às urnas no segundo e quem votou em Piñeda e em Frei o fez nos dois turnos, verifica-se que dos votos dados aos dois candidatos de esquerda derrotados no primeiro turno (Enrique-Ominami e Arrate), 29% foram para Piñeda, no segundo turno. Assim, parece-me que a baixa votação obtida por Frei no primeiro turno não foi apenas resultado da ruptura da aliança de centro-esquerda. Outras motivações podem ter levado os eleitores chilenos a procurar outras opções.

Vale a pena observar a tendência das votações passadas. Em 1989, primeira eleição pós-ditadura, Patrício Aylwin, da Concertación, foi eleito no primeiro turno com 55% dos votos. Cinco anos depois, Eduardo Frei foi eleito também no primeiro turno com 58% dos votos. A seguir, Ricardo Lagos obteve 48% e Michele Bachelet, 45% dos votos, ambos não se elegeram no primeiro turno. Agora, Frei não atingiu 30%. Desde o início da década de 90 os candidatos da aliança de centro-esquerda vêm perdendo apoio popular.

Um observador atento vê que, à medida que o tempo passa, a participação relativa dos jovens nascidos após a ditadura vai aumentando. Atualmente, o segmento com idade entre 20 e 29 anos representa 21% da população chilena. Para esses novos eleitores, os embates que marcaram o Chile entre as décadas de 70 e 80 estão distantes. É provável que na hora de decidir o voto, as perspectivas sobre o futuro do país se sobreponham às reminiscências de um passado cada vez mais longínquo. O conflito ideológico perde força para questões como eficiência e qualidade da gestão pública. Enfim a democracia já está consolidada. O futuro importa mais do que o passado. São as novas gerações impondo novos rumos àquele país, sem se preocupar com rótulos ou carimbos gastos pelo tempo.