O dicionário Houaiss define loucura como um comportamento diferente do usual. Ou seja, quem não se comporta como a maioria é louco. Vale dizer, quando a maioria caminha rumo ao abismo, quem não seguir o mesmo rumo é louco! É difícil uma definição mais conservadora. Afinal, o comportamento habitual não pode, ele próprio, ser maluco? No Brasil, e em todo o mundo, há comportamentos usuais cuja lucidez – o oposto de loucura – é questionável. São compulsões, neuroses, cegueiras, autopunições e ilusões alimentadas por diversas fontes. No entanto, como são muitas as vítimas, elas são tidas como normais, embora seus comportamentos revelem loucura, e da grossa! Com nosso comportamento normal, estamos aquecendo e destruindo o Planeta. Daí eu dizer que a causa básica do aquecimento global é o (prévio) enlouquecimento global!
Em 21 de dezembro do ano passado, o Jornal Nacional mostrou uma família que viajou 73 quilômetros, enfrentou inúmeras filas, gastou 6 horas e voltou para casa, apertada no carro, com propósito de comprar presentes e guloseimas de Natal, e de retomar a odisséia no dia seguinte. Loucura, não? Um milionário brasileiro envolvido em incontáveis ações judiciais teria, em conta corrente, mais de 800 milhões de reais, e continua empenhado em ganhar mais. É, ou não, louca compulsão? É claro que faz diferença ganhar 1 dólar ou mil por dia; mas, em termos de qualidade de vida pessoal, há diferença entre possuir 100 ou 200 milhões de dólares? Milhares se comprimem em shoppings para comprar produtos de que não necessitam; loucura? Normalidade?
Milhões preferem morar em cidades sujas, barulhentas, poluídas, congestionadas, enfrentam filas no transporte, no banco, no supermercado, no telefone 0800 e outras mais; faz sentido ter de enfrentar tudo isso, em busca de sustento cada vez mais precário? Há necessidade de se criar empregos, mas o desenvolvimento tecnológico caminha no sentido de cortá-los. Faz sentido?
Milhões usam um veículo que pesa entre 600 e 2 mil quilos para transportar carga de cerca de 70 quilos; há algo mais louco? Detestamos os congestionamentos e festejamos o aumento da produção de automóveis; há lucidez nessa combinação? O esporte era sinônimo de saúde, mas os de alto rendimento, que causam lesões nos atletas, são glorificados pela mídia e por governos; loucura, não? Muitos se matam de trabalhar para ganhar dinheiro e comprar roupas novas, e descartam as antigas, ainda boas, porque a moda mudou; não é loucura, apesar de usual? Compramos um celular novo porque ele possui funções de que não necessitamos e nem sabemos usar, e jogamos no lixo o antigo; lúcido? Líderes decidem ações de governo pelos seus impactos midiáticos e contribuições de campanha que geram, e não em razão do seu potencial de solucionar problemas, e a Justiça parece cega. Loucura? A lista de loucuras pode ser ampliada, e todas as citadas contribuem para aquecer o Planeta. Quem diz que o rei está nu tende a ser acusado de louco, mas é essa loucura da maioria que precisa ser exposta e corrigida. Sem nos curarmos desse enlouquecimento global, são poucas as chances de se evitar o aquecimento e suas consequências nefastas. Para que a humanidade possa enfrentar seus problemas essa mudança de valores é fundamental, muito mais importante que fazer crescer o PIB. Copenhague não nos trouxe avanços na cura da loucura. Teremos outra chance no México, este ano, e cada um de nós terá nova oportunidade, a cada escolha de cada dia. Lucidez para todos nós, é o desejo para este 2010!