A atual recessão econômica deverá gradativamente chegar a cada um dos estados brasileiros. Em alguns, o desemprego e a queda da produção poderão ser dramáticos; em outros, a flutuação econômica poderá ser mais suave. O que diferencia a situação específica de um estado como Minas Gerais? Em primeiro lugar, há que se considerar a estrutura produtiva. Quanto maior for o índice de especialização produtiva de um estado ou de uma região maior poderá ser o seu grau de vulnerabilidade ao ciclo recessivo da economia nacional e mundial. Por exemplo: a região do centro-norte do Mato Grosso (onde estão os prósperos municípios de Sinop, Sorriso, Primavera do Leste, Lucas do Rio Verde etc.) é altamente especializada na produção de grãos e carnes, para o mercado interno e o externo. Qualquer alteração brusca nas quantidades e nos preços internos e externos dessas commodities afetará profundamente o PIB, a renda familiar, o nível de emprego e a base tributável daquela região, levando os seus habitantes ao desalento.
Minas Gerais, desde o período da nova industrialização, iniciada com muito sucesso nos governos Israel Pinheiro e Rondon Pacheco, vem diversificando intensamente sua estrutura produtiva. De um estado grande, produtor de alimentos, minérios e metais nos anos 1960, passamos a ser conhecidos nacional e internacionalmente como produtores de bens de consumo e de capital com maior nível de sofisticação tecnológica. Entretanto, a nossa estrutura produtiva ainda é pesadamente composta de bens com elevado conteúdo direto e indireto de recursos naturais, justamente nos segmentos onde a recessão mundial tem rebatido mais fortemente (minérios e metais, papel e celulose, proteína animal e vegetal etc.). O segundo fator que pode explicar os impactos diferenciados da crise econômica global sobre as economias estaduais está ligado ao desempenho das organizações produtivas em cada unidade da Federação. Esse desempenho de um mesmo setor ou ramo de atividade varia muito de região para região. Há algumas organizações brasileiras que se re-estruturaram, se modernizaram e se tornaram competitivas globalmente no período pós-abertura econômica dos anos 1990. Há outras que permaneceram na economia tradicional, com excesso de confiança em fatores básicos ou não especializados (clima, posição geográfica, mão-de-obra de baixo custo, recursos naturais, etc.), incapazes de conhecer sua posição relativa nos mercados em que atuam e de ajustar seus níveis de competitividade. Assim é possível que as organizações mais dinâmicas possam alavancar o crescimento econômico das regiões e dos estados em que se localizam, ampliando o seu market share até mesmo nos mercados nacionais e globais em ambiente de retração econômica.
Sob esse aspecto, Minas vive uma dualidade básica: há organizações e atividades produtivas que estão na fronteira da produtividade, e outras que se conformaram com padrões tecnológicos e administrativos típicos de economias tradicionais vocacionadas para a estagnação econômica. Guimarães Rosa afirmava que, pela sua diversidade cultural e social, Minas são muitas. Vista do ponto de vista dos indicadores econômicos, infelizmente, essa diversidade se exprime por uma Minas que compreendeu as assimetrias do processo de globalização econômica e financeira e se tornou competitiva e dinâmica, e outra que se exprime pelo atraso tecnológico e organizacional à espera das políticas públicas compensatórias que possam resgatá-la das entranhas da pobreza e do subdesenvolvimento.