Logo Revista Viver Brasil - Assim é viver
Quarta, 23 de Maio de 2012

Artigo

Como a recessão chega a Minas

Quanto maior for o índice de especialização produtiva de um estado maior poderá ser o seu grau de vulnerabilidade ao ciclo recessivo

Texto: Paulo Haddad
Opiniões ou sugestões sobre a matéria?
Mande e-mail para: redacao@revistaviverbrasil.com.br
Paulo Haddad - Professor do Ibmec/MG. Foi 
ministro do Planejamento e da Fazenda no governo Itamar Franco

A atual recessão econômica deverá gradativamente chegar a cada um dos estados brasileiros. Em alguns, o desemprego e a queda da produção poderão ser dramáticos; em outros, a flutuação econômica poderá ser mais suave. O que diferencia a situação específica de um estado como Minas Gerais? Em primeiro lugar, há que se considerar a estrutura produtiva. Quanto maior for o índice de especialização produtiva de um estado ou de uma região maior poderá ser o seu grau de vulnerabilidade ao ciclo recessivo da economia nacional e mundial. Por exemplo: a região do centro-norte do Mato Grosso (onde estão os prósperos municípios de Sinop, Sor­riso, Primavera do Leste, Lucas do Rio Verde etc.) é altamente especializada na produção de grãos e carnes, para o mercado interno e o externo. Qualquer alteração brusca nas quantidades e nos preços internos e externos dessas commodities afetará profundamente o PIB, a ren­da familiar, o nível de emprego e a base tributável daquela região, levando os seus habitantes ao desalento.

Minas Gerais, desde o período da nova industrialização, iniciada com muito sucesso nos go­vernos Israel Pinheiro e Rondon Pacheco, vem diversificando intensamente sua estrutura produtiva. De um estado grande, produtor de alimentos, minérios e metais nos anos 1960, passamos a ser conhecidos nacional e internacionalmente como produtores de bens de consumo e de capital com maior nível de sofisticação tecnológica. En­tre­tanto, a nossa estrutura produtiva ainda é pesadamente composta de bens com elevado conteúdo direto e indireto de recursos naturais, justamente nos segmentos onde a recessão mundial tem rebatido mais fortemente (minérios e metais, papel e celulose, proteína animal e vegetal etc.). O segundo fator que pode explicar os impactos diferenciados da crise econômica global sobre as economias estaduais está ligado ao de­sempenho das organizações produtivas em cada uni­dade  da  Federação. Esse desempenho de um mesmo setor ou ramo de atividade varia muito de região para região. Há algumas organizações brasileiras que se re-estruturaram, se modernizaram e se tornaram competitivas globalmente no período pós-abertura econômica dos anos 1990. Há outras que permaneceram na economia tradicional, com excesso de confiança em fatores básicos ou não especializados (clima, posição geográfica, mão-de-obra de baixo custo, recursos naturais, etc.), incapazes de conhecer sua posição relativa nos mercados em que atuam e de ajustar seus níveis de competitividade. Assim é possível que as organizações mais dinâmicas possam alavancar o crescimento econômico das regiões e dos estados em que se localizam, ampliando o seu market share até mesmo nos mercados nacionais e globais em ambiente de retração econômica.

Sob esse aspecto, Minas vive uma dualidade básica: há organizações e atividades produtivas que estão na fronteira da produtividade, e outras que se conformaram com padrões tecnológicos e administrativos típicos de economias tradicionais vocacionadas para a estagnação econômica. Guimarães Rosa afirmava que, pela sua diversidade cultural e social, Minas são muitas. Vista do ponto de vista dos indicadores econômicos, infelizmente, essa diversidade se exprime por uma Minas que compreendeu as assimetrias do processo de globalização econômica e financeira e se tornou competitiva e dinâmica, e outra que se exprime pelo atraso tecnológico e organizacional à espera das políticas públicas compensatórias que possam resgatá-la das entranhas da pobreza e do subdesenvolvimento.