O que há de inexplicável em nossas vidas? A perda de um ente querido, vítima de uma tragédia. As indagações existenciais. Uma descoberta da ciência de difícil entendimento para os simples mortais – vide a criação do Grande Colisor de Hádrons (LHC), no trabalho para achar a partícula de Deus. Outros encontram o incompreensível em alguns relatos de gente que entorta e move objetos com a força do pensamento. Naqueles que se comunicam por telepatia. Ou naqueles que têm a capacidade de prever fatos antes de acontecerem. Há aqueles que chegam aos hospitais e encontram o impensável – médicos e paranormais debruçados em um mesmo projeto, o de tentar associar as percepções extra-sensoriais ao diagnóstico médico-hospitalar. O projeto em questão não faz parte de nenhum filme ou série norte-americana e, sim, está sendo desenvolvido no Brasil. Mais precisamente pelo Núcleo de Estudos dos Fenômenos Paranormais (NEFP) da Universidade de Brasília em parceria com o Hospital Universitário de Brasília (HUB) desde o início do ano. O projeto integra uma tendência de alguns cientistas e pesquisadores brasileiros: estudar, com seriedade e rigor científico, os chamados fenômenos extra-sensoriais.
Certo, o pensamento recorrente é associar esses tipos de fenômenos à charlatanice ou à religiosidade. Porém, não é novidade que os Estados Unidos e a Rússia iniciaram, há bem mais de três décadas, estudos sobre o assunto. Há pesquisas que indicam que pelo menos 20% da população mundial tenha lidado com algum desses fenômenos no decorrer de sua vida. No Brasil, pelo menos três instituições de ensino renomadas, a Universidade de Brasília (UnB), a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e a Universidade de São Paulo (USP) têm pesquisadores e projetos com foco nos chamados fenômenos paranormais. Há também o Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas (IPPP) e a Faculdades Integradas Espírita, no Paraná, que se debruçam em estudar o tema. “Cabe às pesquisas distinguir entre os que podem ser considerados fenômenos paranormais, daqueles que possivelmente estão associados a psicopatologias”, explica o físico Álvaro Luiz Tronconi, coordenador do NEFP.
A regra básica de separar as psicopatologias dos fenômenos paranormais pode soar estranha. Segundo o psiquiatra Alexander Moreira Almeida, diretor do Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde da UFJF, os chamados fenômenos de transe eram considerados, no século passado, a terceira maior causa de loucura no país. “Atualmente, para considerarmos algo como doença mental é preciso analisar se o comportamento da pessoa gera sofrimento ou incapacitação”, avalia Almeida. Entre 2001 e 2005, o psiquiatra analisou o perfil sociodemográfico e saúde mental de 115 médiuns. A pesquisa envolvia o estudo do impacto desses fenômenos na vida das pessoas, a adequação social no trabalho, com a família, apontando a presença, ou não, dos chamados transtornos dissociativos (quando uma parte da mente funciona de forma independente). “Os médiuns não tiveram pontuação de sintomas psiquiátricos ou desajuste social. Para nossa surpresa, aqueles que tinham maior incorporação mediúnica eram os que tinham maior adequação social”, afirma. Para o psiquiatra, chegou a hora de estudar quais as implicações desses fenômenos na vida das pessoas, quais os impactos, que alterações causam no cérebro. A paranormal Rosa Maria Jaques, 60, está participando da pesquisa do NEFP no Hospital Universitário de Brasília. Ela é paranormal desde criança e passou por diversas religiões para tentar entender sua vidência e telepatia. Sentiu-se vítima de preconceitos, não gostava dos rótulos. Na ciência, encontrou a possibilidade de uma discussão ampla e aberta sobre suas experiências, que chama de transcendentes. “Acredito que nada substitui a prática como forma de obter conhecimento, vivenciar meus limites na procura do entendimento do que acontecia comigo e auxiliar outros paranormais a sofrerem menos preconceito, deboche ou serem rotulados de loucos. Submeti-me a todos os testes. Entendi a dificuldade que a percepção racional tem em analisar processos sensitivos como também o papel da fantasia no emaranhado mundo místico/religioso”, afirma. |
Rosa agora integra o grupo de paranormais que participam da pesquisa no HUB. Diz que fará no hospital o que já faz com todas as pessoas com quem conversa. “Realizo uma espécie de triagem para saber o que incomoda, se há alguma doença. Parto do pressuposto que tudo pode ser provado”, diz a paranormal. O coordenador da pesquisa do HUB, Álvaro Tronconi, evita informar qualquer resultado desta pesquisa e afirma que outros dois estudos estão em desenvolvimento: uma para discernir possíveis traços de paranormalidade e de psicopatologia entre pessoas consideradas sensitivas e outro, na área ufológica, para entender a relação de alguns padrões mentais com a percepção de tipos de eventos nesta área. Porém, o pesquisador afirma que esses fenômenos não observam os limites da metodologia adotada no meio científico. Para se ter uma ideia do que acontece, a repetição do fenômeno paranormal não ocorre da mesma forma que a da medição do valor da aceleração da gravidade. Essa falta de padrão é uma das grandes dificuldades dos pesquisadores. “É preciso buscar o rigor científico, mas é necessário, também, adequá-lo à realidade do fenômeno”, avisa Tronconi. O coordenador do Núcleo de Fenômenos Paranormais já levou muitos não para inúmeros projetos. Teve que buscar financiamento de instituições internacionais para sua pesquisa – a do HUB está sendo financiada pela portuguesa Fundação Bial. Curiosamente, quando se sentou com a classe médica do HUB para propor o projeto não encontrou qualquer barreira. “Os médicos hoje presenciam fatos que mostram que determinado conhecimento não está sobre o domínio total da academia. Isso faz com que a área de saúde em geral esteja muito sensível à temática”, explica. Para enfrentar essa barreira da complexidade dos fenômenos paranormais e da desconfiança sobre a possibilidade de realização de estudos cientificamente consequentes, começam a pipocar pesquisas como as do Laboratório de Psicologia Anomalística e Processos Psicossociais da USP. Para o professor Wellington Zangari, que integra o laboratório, há uma evolução no país na área de fenômenos extra-sensoriais, principalmente pelo crescente número de pesquisas. Somente na USP, nesta área, já são um estudo de iniciação científica, quatro de mestrado, quatro de doutorado e um de pós-doutorado concluído. “Outro fator importante tem sido o recente entrosamento entre pesquisadores de vários estados como Pernambuco, Rio de Janeiro, Paraná e São Paulo. Eles têm se reunido bianualmente nos Encontros Psi (Paranormais) e buscado diálogo com estudiosos de outros países”, conta. |
Atualmente, a USP já realizou um mapeamento das experiências paranormais em 306 pessoas, entre 18 a 66 anos. Nela, 82,7% alegaram ter vivenciado pelo menos uma experiência anômala extra-sensório-motora; há estudo de como as pessoas paranormais desenvolvem suas identidades psicossociais e como suas crenças paranormais são importantes para a constituição de suas personalidades; outra sobre a relação entre transe e a sociedade brasileira. Mas nem sempre a perspectiva científica é favorável à existência dos fenômenos paranormais. Em pesquisa realizada pelo próprio Zangari com 52 médiuns que alegavam poder para conhecer o futuro por meios paranormais, o resultado foi ou que esse poder não existia ou ele não podia ser capturado pelo método empregado pelo estudioso. Fora das universidades, profissionais de áreas distintas também realizam pesquisas científicas para tentar investigar os fenômenos extra-sensoriais. É o caso do delegado-chefe do Serviço e Registros Policiais para Investigação do Paraná, João Alberto Fiorini de Oliveira. Há cerca de dez anos, um dos meios utilizados por ele para solucionar um desaparecimento foi a parceria com um paranormal. O sensitivo localizou o corpo da pessoa, mas Oliveira lembra que foi o único trabalho na solução de crimes. “Na época era muito cético, não acreditava que essa parceria seria possível.” Tudo mudou há cerca de oito anos, quando o delegado viu notícia em um jornal sobre o caso de uma pessoa que teria a mesma impressão digital de outra que havia morrido. O espanto foi tão grande que resolveu iniciar uma pesquisa em que utilizou técnicas forenses como a dactiloscopia – processo de identificação humana por meio de impressões digitais, o retrato falado, a grafoscopia – a escrita como marca pessoal, a genética, a medicina e a odontologia legal, biologia, química, física e psicologia. O resultado está no livro Reencarnação – Investigação Científica, lançado pela editora Sergraf. “Pesquisei mais de uma centena de pessoas. De fato não houve qualquer comprovação de duas pessoas com as mesmas impressões digitais”, relata o delegado. Para o presidente e fundador do Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas, Valter da Rosa Borges, essas e outras pesquisas científicas estão fazendo um caminho sem volta, em que a aproximação dos fenômenos paranormais da ciência está cada vez mais forte. O IPPP realizou, nas últimas décadas, dezenas de estudos de casos aparentes de manifestações paranormais espontâneas, a quase totalidade delas de fenômenos poltergeist. Nem todas porém, como informa Borges, eram de natureza paranormal. “Atualmente, estudamos coisas do cérebro humano que pareciam de outro mundo há alguns anos. A ciência vai ter de engolir alguns sapos porque o paradigma científico não é um dogma. Logicamente, há pessoas que passaram a vida acreditando em algo e a mudança desse paradigma traz forte reação”, diz. As instituições livres – não ligadas ao Ministério da Educação – também realizam pesquisas, caso das Faculdades Integradas Espíritas. Nela, há um laboratório de telepatia com os experimentos Ganzseld, realizados há 13 anos. É a única no Brasil que utiliza a técnica alemã. A pesquisa – também financiada pela Fundação Bial – consiste em uma pessoa ficar em privação sensorial em uma sala e outra ficar em outro espaço, tentando ver e sentir o que está se passando na primeira. Os resultados, segundo o coordenador do curso de parapsicologia Reginaldo de Castro Hiraoka têm sido positivos. Hiraoka busca na mitologia grega o mito do leito de Procusto para refletir sobre o embate entre ciência e fenômenos extra-sensoriais. Procusto vivia numa floresta e tinha uma imensa cama. Todos que passavam por esse local eram presos e colocados por Procusto em sua cama. Os que eram maiores que o leito tinham seus pés cortados. Os menores eram esticados. “Esse leito é justamente o paradigma da ciência, da sociedade, os nossos modelos. Cortamos os pés ou os esticamos para caberem nas nossas crenças. Esses fenômenos incomodam e estão além do nosso conceito de tempo, espaço, matéria. Incomodam porque mexem em todos os princípios norteados pelo que acreditamos. Tudo pode ruir. Quem quer perder a segurança?” |
O que são?Fenômenos paranormais (também chamados de extra-sensoriais ou de percepção extra-sensorial) são fenômenos que parecem transcender as leis da natureza humana e estar além do que se concebe como capacidade humana considerada normal pela ciência Principais fenômenos: - Telepatia – transferência de emoções e pensamentos de pessoa para pessoa sem o emprego dos sentidos conhecidos - Telecinese e psicocinese – capacidade de mover um objeto com a força da mente - Clarividência (visão remota) – percepção visual de objetos, pessoas ou acontecimento sem fazer uso dos órgãos dos sentidos físicos. - Premonição – é a sensação ou aviso antecipado de algum fato que ainda estar por acontecer - Retrocognição – fenômeno que permite o conhecimento de acontecimentos passados * Fonte: Núcleo de Estudos de Fenômenos Paranormais |