Será que é aqui? Depois de mais de cinco horas naquela rodovia cheia de curvas, que jogava a gente de um lado para o outro, 12 quilômetros de estrada de terra, muita poeira, foi um alívio: era o sítio de Carlos Santana.
O dele, da família que sobrevive só do queijo, indicado por técnicos da Emater de uma lista de nove. No curral, estava Zica, que havia retornado ligação da revista feita para a casa de seu cunhado, e o marido Carlos, as vacas. “Podem entrar”, disse ela, Maria Rodrigues da Lomba. Chegamos cheios de perguntas, fotos para fazer, mas eles preferiram que tomássemos primeiro café.
A mesa de madeira longa com roscas, biscoitos, café e queijo na cozinha. “Achei que fosse pegadinha”, comentou Zica. Quem poderia ir até eles, tão distantes, a mais de duas horas a pé do asfalto, sem telefone nem internet. Queríamos ver o dia a dia dessa família: era só assistir esses afazeres costumeiros, sem mudanças, maquiagens, porque havia gente de fora. Voltamos ao curral, Carlos tirava leite e ela foi ajudá-lo. Também faz o queijo, mas sozinha. “Mulher é mais caprichosa”, disse o marido. Só quando ela vai à cidade, que ele enfrenta as formas de plástico, molda os queijos. Fluem, sem pressa, no compasso das horas e é hora de preparar o almoço. Os três filhos mais novos chegam da escola.
Ela quis fazer frango caipira para as visitas, tão comum no interior, mas a filha Giselhy não conseguiu pegá-lo. Havia peixe, do lago que fica perto do casarão, carne guardada na gordura, macarronada, tomate e alface. Não precisa de almoço. Como não? Só desculpa, porque lá estávamos à beira do fogão. Éramos de casa em tão pouco tempo, de 8h15 às 14h30. Mas estava na hora de voltar para a cidade grande, onde havíamos saído às 3h da manhã.
Silvânia Arriel
Matéria: http://www.revistaviverbrasil.com.br/52/materias/01/especial/minas-do-queijo/
Divertir é muito bom. Enquanto se trabalha nem se fala
Divertir é muito bom. Enquanto se trabalha nem se fala. Nesta matéria do BDSM (sigla para bondage, dominação, sadismo e masoquismo) eu não só me diverti muito como tenho certeza que proporcionei o mesmo aos meus colegas de redação. Porque não houve um só dia até esta matéria sair em que o assunto não fosse mencionado, em geral por conta de brincadeiras. Pensem bem: juntar numa matéria sexo pouco convencional, fetiches e práticas como homens usando cinto de castidade, mulheres que gostam de ser chicoteadas até as nádegas ficarem vermelhas, que usam coleiras e respondem pelo chamamento de cadela porque pertencem a um dono é pano pra manga! Ainda mais em tempos de afirmação da liberdade feminina – em que a última coisa que queremos é ter dono –, soou estranho, engraçado e até surreal tudo isto. Dá um nó na cabeça.
Debatemos o assunto por muitos dias: afinal, estes adeptos do BDSM são anormais? Soava muito agressivo esse relacionamento. Recebemos fotos que não puderam ser publicadas porque chocariam o leitor: a mulher está ajoelhada, sem sutiã, vestindo calcinha fio-dental e botas até o joelho. Ela lambe as botas de seu dominador (denominação do homem que desempenha esse papel) antes de tomar umas boas “espanadas” na bunda com uma tábua semelhante à palmatória, toda cravejada com bolas de metal. Dá pra ver que doeu, ai! Mas aí que estava a graça para ambos. E como entender que ele e ela se gostam e isso é parte de um jogo erótico? É tudo em comum acordo, não se trata de violência.
Chamou muito minha atenção o fato dessas pessoas se assumirem como sádicas, masoquistas, submissas, dominadoras. Aceitarem o chamamento de escravo(a) e até mesmo procurarem se aperfeiçoar nestes papéis. Fiquei até tocada. Imagino que há alguns anos, quando éramos mais preconceituosos ainda, devia ser muito difícil ter acesso a informações que proporcionasse o encontro entre iguais e, consequentemente, a consciência de que “não sou tão estranho assim.” Se o sexo já não é simples de ser vivido convencionalmente, o que dizer sobre a preferência pelo sexo de tais modos? Antes de se encontrarem como BDSM, eles mesmos deviam ficar com um nó na cabeça.
Gostar de sexo, direi bizarro, está tão entranhado na cabeça do ser humano que é farto o material sobre, na literatura, música e cinema. Algumas práticas podem ser realmente chocantes: o uso de cateter para controlar necessidades fisiológicas do companheiro, a introdução de eletrodos no ânus, por exemplo. São maneiras muito diversas de se relacionar e foge mesmo à compreensão da maior parte das pessoas e gera comentários de que “este povo do BDSM é maluco.” Todos se mostraram muito dispostos a dar entrevistas, falar sobre o assunto, exatamente para mostrar que nem são tão estranhos assim, muito menos têm comportamentos doentios. Talvez, estranhos para nós, os baunilhas, como os praticantes do BDSM nos chamam, mas pareceu que suas teorias são bem fundamentadas. Quer um exemplo? Quem não fica mesmo pensando, na hora do sexo se está gordo, magro, que prefere assim ou assado? Já para eles, um pouco de dor corta todas estas paranoias e fica-se mais concentrado. Achei que faz sentido.
Creio que é como diz o polêmico Caetano Veloso: “Qualquer maneira de amor vale a pena.”
Raquel Ayres
Imagine passar quatro dias em Lisboa e não saborear bacalhau? Escalada para fazer reportagem na capital de Portugal, veio logo à minha cabeça monumentos como a Torre de Belém, o rio Tejo, fado, o vinho do Porto e - claro - o mais famoso prato português.
De contemporâneo, o máximo que me recordava era do Madredeus, grupo musical do país, que adoro. Cheguei à cidade no dia 20 de julho, terça-feira, e voltei no sábado, 24. Nesses quatro dias vi a cidade tradicional do meu imaginário, mas me deparei também com outra, cosmopolita e luxuosa.
Convidada da Associação de Turismo de Lisboa (ATL), fui levada a pontos históricos, restaurantes e hotéis. Éramos cinco jornalistas, quatro paulistas e eu - a única mineira. Todas anfitrionadas pela portuguesa Carmo Botelho e a paulistana Roberta Mastieri, da ATL. Ao chegar, fomos recebidas no Ritz Four Seasons Lisboa com massagem que recarregou nossas energias após 9 horas de voo. O Ritz é um hotel lindíssimo, clássico, fundado há 51 anos. A construção teve início a pedido do estadista Antônio de Oliveira Salazar porque, na época, ao contrário de Paris, não havia um hotel nesses moldes na cidade. Funcionavam em prédios históricos adaptados para hóspedes.
Logo pensei: se Salazar marcou a história pelo regime ditatorial, ao menos contribuiu com o hotel, hoje da rede canadense Four Seasons. Em quatro dias, cumprimos programa pelos pontos históricos: Mosteiro dos Jerônimos, Palácio de Queluz, bairros antigos de Lisboa, Sintra e o charmoso balneário de Cascais, próximos da capital. Após ca parte antiga, chegou a vez da Lisboa moderna. O parque das Nações, antiga região portuária hoje revitalizada com atrações, como o Oceanário, e seus shoppings e edifícios de arquitetura contemporânea, são imperdíveis.
O trabalho começava às 9h30, quando saíamos do Ritz , e se arrastava até o início da noite. Por volta das 21 horas, já estávamos lá, no hall do hotel prontíssimas para os jantares, com degustação de vinhos e pratos preparados por chefs estrelados. Saboreamos muitos exemplares da culinária portuguesa, como porco preto, azeitonas, vieiras, pastéis de Belém, de nata, servidos em pratos cinematográficos, mas, curioso, nada de bacalhau.
Intrigada, uma jornalista perguntou a Carmo se nós, brasileiras, não comeríamos bacalhau em Lisboa. Segundo ela, o prato era servido a todos os jornalistas que visitavam a cidade. Por um lapso, cada restaurante elaborou um menu e, como pensaram que o outro serviria bacalhau, nenhum fez o prato, que acabou fora do roteiro gastronômico.
Sem saída, Carmo brincou, então, que nos convidaria a atravessar o Tejo para jantar bacalhau, em sua casa. Lá conheceríamos o marido, João Antônio, e seus miúdos (como se chamam as crianças em Portugal), Guilherme e Margarida. Em Portugal, contou é proibido registrar os filhos com nomes estrangeiros, a não ser que os pais sejam de outro país. Portanto, difícil encontrar por lá Michael Jacksons, Harleys ou Ladie Dianes, como no Brasil.
A promessa do bacalhau na casa de Carmo não se concretizou - óbvio -, e acabou virando uma brincadeira das jornalistas para provocar a portuguesa. Aliás, o povo é muito educado. Eles adoram os brasileiros por causa da facilidade do idioma, da música e das novelas. A cantora Maria Bethânia, por sinal, que cumpria turnê na Europa, estava hospedada no Ritz.
Fim da programação, saí no sábado cedinho, às 5h30, do hotel para o aeroporto de Lisboa. Foram quase cinco horas de espera para o embarque, devido ao atraso do voo. Sentada no avião, exausta, no serviço de bordo da TAP, uma surpresa: bacalhau. Àquela altura, Lisboa, com certeza, já havia ficado para trás, mas a inesquecível viagem não terminou sem o gostinho do bacalhau lusitano.
Márcia Queirós
Matéria: http://www.revistaviverbrasil.com.br/lisboa
Parece que a morte está à espreita na BR-381. Sempre tive medo do trecho entre Belo Horizonte e João Monlevade pela avalanche frenética de carros, carretas, pelos acidentes tão corriqueiros nas páginas dos jornais.
Evito andar por lá, mas há quem não possa. Não dá para esquivar e aí fomos também pela estrada afora ver como é a manhã de uma segunda-feira. Congestionada no início, vaivém impaciente, escasseada mais no meio, um carro na vala. Adiante, bem à nossa frente, a poeira e outro veículo que caía no buraco. Aquela coisa dúbia de ter que ajudar, mas ao mesmo tempo o medo de que o motorista estivesse machucado. Não estava, ainda bem. Logo, mais um carro parou e já providenciava o guincho. São tão acostumados, habituados com essa triste rotina.
Sempre há alguém, ao longo da estrada, para contar dos acidentes graves e dos que acontecem a qualquer hora. Vivem ali, bem próximo, convivem com a rodovia dia e noite. Fomos parar na casa do trabalhador rural Joaquim de Almeida Costa, 71 anos, 27 filhos espalhados por este estado (“Ah, um morreu porque foi por caminhos errados”). A mais nova Gisele Evelyn, de 2 anos, mora com ele, em Nova União, à beira da estrada, e outros cinco irmãos. O quintal fica ao lado da BR-381, praticamente no acostamento. A mãe Carmita Moreira de Oliveira, de seis dos filhos de Joaquim, não sossega na vigilância. Diz que o pessoal das redondezas gosta dos acidentes para pegar a carga dos caminhões. “Tem gente que até construiu casa com o que arrecadou.” Triste sina.
Deve continuar até a duplicação que não vem. A informação do Dnit é que comece no próximo ano. Tomara, e que ela freie tantas mortes e essas tristes rotinas.
Silvânia Arriel
Matéria: http://www.revistaviverbrasil.com.br/381
O Brasil tem jogadores para times internos, exportação e, mais ainda, aspirantes a esta alta escala na sociedade, de esforço, mas de dinheiro mais fácil que para a maioria do povo. O caso do goleiro Bruno, da denúncia de crime bárbaro, puxou os holofotes para essa categoria. Como são preparados? Eles têm porte psicológico, social para lidar com a fama, o monte de dinheiro no final do mês e, junto, colado, o assédio? Resolvemos ir até a base dos times, ao quase começo de tudo. No Cruzeiro, as portas foram abertas, assim, rápidas. Os meninos escolhidos pelo diretor de futebol de base, Roger Galvão, para dar entrevistas. Os dois pensam em jogar na Europa, ganhar dinheiro e ajudar a família. A situação se repete com os outros entrevistados do América, também de fácil acesso. No início, a preocupação do que seria a reportagem, depois distenderam. Assessor de imprensa a postos, dirigentes com boa vontade. Meninos, de 14 a 18 anos, que querem conseguir passar por esse túnel estreito e sobressair no grande estádio. Preocupam-se em ter, como dizem, cabeça para não sair dos gramados como Bruno. Ele que passou pela categoria de base do Atlético, o time que não abriu a Cidade do Galo à reportagem.
No princípio, não haveria problema algum. Podia ir lá entrevistar seus meninos. Noutro dia, estavam só esperando autorização, que não veio, nem viria: proibiram a entrada, nada de conversar com eles. Pedi então que repassassem informações de como funcionava a categoria de base. Não. Nem isto. Por quê? Não havia explicação, argumentação: é isto e pronto. Aí, recorri a pessoas que conhecem garotos que vivem lá. A entrevista foi feita por telefone, sem antena bloqueadora que impedisse saber como é a vida dentro dos muros da Cidade do Galo. Nada demais pela fala dele. Mas por que a proibição? Espaço aberto para a diretoria do clube...
Silvânia Arriel
Matéria: http://www.revistaviverbrasil.com.br/49/materias/02/esporte/treino-para-a-vida-toda/
Foram mais de 60 dias de apuração e uma certeza: a castidade para religiosos no Brasil ainda é um assunto um tanto espinhoso. Para começar, a maioria dos entrevistados não quis sair do anonimato. Feitas pessoalmente, as conversas tinham um quê de intimidade, como se fosse um alívio para aquelas pessoas falar sobre as carências, as alegrias, as dificuldades da opção por ser casto.
Extremamente inteligentes e articulados, esses religiosos abriram-se de uma forma até então pouco provável – acreditam que a liberdade ultrapassa a religião e que a vida sexual também pode ser conciliada com a vocação. A pergunta óbvia era que se a igreja derrubasse a norma instituída no século 11 o que fariam? Poucos optariam por casar-se ou ter algum tipo de relacionamento. Durante todo o processo de apuração da matéria, o mais procurado era um religioso que tivesse uma vida sexual ativa e que não se importasse de falar. Foi achado, mas não houve acordo para que ele falasse na matéria, nem mesmo com o nosso compromisso de não revelar qualquer detalhe que pudesse identificá-lo.
Procuramos ouvir também uma fonte oficial da Igreja, que deixou bem claro não haver discussão quanto a acabar com obrigatoriedade do celibato. É como um Davi lutando contra Golias. Do lado dos religiosos, há muitos que reforçam que a Igreja Católica pode até mesmo acabar se não rever suas normas. Do lado do Golias, há uma luta hierárquica dentro da própria Igreja, que mesmo enfrentando diariamente problemas por causa da castidade, bate o pé ao não discutir a sexualidade e fecha os olhos para a real situação de seus membros.
Eliana Fonseca
Matéria: http://www.revistaviverbrasil.com.br/49/materias/01/reportagem/entre-a-cruz-e-a-castidade/
Éramos oito no grupo – sete educadores, uma jornalista – para conhecer um programa de educação em plena Walt Disney World. Sete dias de viagem por Orlando é uma verdadeira maratona e a conclusão óbvia, depois de um tempo andando pelos gigantescos parques, é que é preciso ter mais do que entusiasmo.
Chegamos às vésperas de feriado norte-americano, o Memorial Day, e por isso precisávamos correr para conhecer e praticar algumas ações do Youth Education Series (YES). Foi algo extraordinário despencar de elevador fantasma, andar em montanhas-russas sinuosas e visitar o backstage, com aulas sobre as atrações, os segredos, a tecnologia da Disney. Mas o melhor da viagem foi o grupo de amigos que conheci. Tati, Sérgio, Wagner, Frei Jacir, Babi, Fernando e Daniel. Fomos um grupo e tanto na viagem. Primeiro porque testamos, e fomos bem-sucedidos, em algo que ultrapassa o dia a dia, que é o conhecer o outro sem amarras, sem o celular insistente, sem os puxões frenéticos que a rotina nos dá e faz com que corramos de lá para cá, de cá para lá. Por vezes sem prestar atenção no que realmente é importante, ou melhor, no que nos faz bem. Tal qual os adolescentes que visitam os parques, e os que passarão pelo programa YES, ríamos de tudo, nos divertimos, fomos cúmplices. O cansaço era grande – a maratona começava antes das 8h da manhã e se estendia até 22h – e não era difícil alguém dormir no carro, nos trens e até mesmo nas atrações mais leves. Contávamos piadas, conversávamos sobre a vida, fazíamos confidências, discordávamos do outro e andávamos, muito. E, nesse meio tempo, íamos reafirmando nosso estilo de vida – sim, nada melhor do que a reflexão quando se está num país distante, para reafirmar pontos positivos e negativos do lugar de onde viemos. As atrações são maravilhosas, tudo é organizado, mas, a comida e o hábito alimentar dos norte-americanos são péssimos. Estamos engatinhando, aqui no Brasil, na reciclagem e reutilização. Pois bem, os Estados Unidos estão lá atrás. Tudo é descartável. A segurança também é um item que irrita os estrangeiros, mas, tudo bem, depois de um 11 de setembro é impossível não ficar paranóico.
Talvez por isso o programa YES represente muito mais do que um aprendizado nos parques da Disney. Ele representa um novo olhar de adolescentes que, quem sabe, nunca tenham saído do país, de perto dos pais, e estejam vivenciando a liberdade pela primeira vez. É um convite à reflexão, ao amadurecimento. E também brinda esse jovem com a convivência com o outro. Pode ser uma lição para o resto da vida.
Eliana Fonseca
Matéria: http://www.revistaviverbrasil.com.br/materia_01.php?edicao_sessao_id=967
Sempre imaginei Cuiabá como um dos lugares mais quentes do país. Segundo os próprios moradores, não me enganei. Mas nos dias em que estive na cidade para a reportagem da Viver Brasil, levei o frio na bagagem. Dizem que os termômetros chegaram a marcar inacreditáveis 11 graus à noite. Acabei tendo que dormir de edredom e cobertor. A frente fria que tomou conta da capital mato-grossense durou mais de uma semana. “Moro aqui há 13 anos e nunca vi um período tão longo de frio”, contou-me o gerente de churrascaria Sidney Pedro da Rosa. Fiquei por lá cinco dias e só no último senti um “tiquinho” de calor, mas nada comparável aos 40 graus tão divulgados...
Fernando Torres
Matéria: http://www.revistaviverbrasil.com.br/materia_01.php?edicao_sessao_id=916
Apesar de haver passado 18 anos, ainda lembro-me bem da manhã ensolarada de dezembro na praia do Pontal, em Paraty, litoral do Rio de Janeiro, quando o garçom chegou apressado falando que a Yasmin tinha sido assassinada. Logo depois, ele voltou com a primeira especulação. Era o Bira, o par de Yasmin, o assassino. Ficção e realidade misturavam-se naquele momento. Os nomes eram dos personagens interpretados pelos atores Daniella Perez e Guilherme de Pádua, da novela De Corpo e Alma. Era surreal conceber que dois dos atores de maior evidência naquele momento tinham sido protagonistas de um crime tão macabro. Ela, a vítima. Ele e a então mulher, os assassinos.
Foram essas e outras lembranças que vieram à minha cabeça quando soube que entrevistaria Guilherme de Pádua. Depois de uma mal-sucedida entrevista concedida a um programa televisivo, ele queria falar. A grande discussão de muitos que souberam da pauta era – ele merecia falar, expor-se, aparecer? Vocês vão dar espaço para esse tipo de gente? Procurei a imparcialidade, mesmo sabendo que estava contaminada por mim mesma. Eu acompanhei a história na época do assassinato, fiquei chocada quando soube do crime, e sempre especulei demais: o que teria acontecido na época, o que motivou o crime, como ele viveria, cabia a mim julgá-lo ou ele já havia recebido o castigo merecido?
No templo da igreja Batista da Lagoinha, onde aconteceu a entrevista, Guilherme de Pádua só não responde a perguntas sobre o dia do assassinato. Teme ser processado pela mãe da atriz, a diretora Glória Perez. Enquanto responde à entrevista, demonstra nervosismo. Aperta os dedos da mulher, Paula Maia (outra Paula). Fala por mais de uma hora e é persistente no tema religião e na sua conversão. A entrevista em que fala sobre sua vida atual, o casamento, o tempo em que ficou preso está na edição deste mês da Viver Brasil.
Ele saiu de cena quando estava no auge da sua carreira na televisão. Mas a personagem pela qual sempre será lembrado é a de assassino de Daniella Perez. É possível mudar radicalmente a concepção de vida e tornar-se outra pessoa? Atire a primeira pedra quem for perfeito.
Eliana Fonseca
Matéria: http://www.revistaviverbrasil.com.br/materia_01.php?edicao_sessao_id=918
Amo viajar, conhecer lugares. Tenho uma lista de cidades que pretendo conhecer no Brasil e no mundo. Gramado nunca fez parte dela. Ou melhor, não fazia.
Pensava que lá era um lugar frio com um lareira, uma cadeira ao lado de uma mesinha com chocolate quente e um pote de biscoitos. Cheia de turistas ansiosos por ver flocos de neve. O que eu, mega-agitada, faria em um lugar assim?
Muita coisa. De esportes radicais à alta gastronomia. Em hotéis de luxo ou em casas de colonos que vivem da mesma forma que seus antepassados. Tendo como opção degustar vinhos de pequenas vinículas ou feitos com alta tecnologia.
A região das Hortênsias consegue reunir o melhor de vários mundos. Lá os jovens passam a tarde tomando chimarrão no gramado que contorna o Lago Negro. Famílias passeiam de pedalinho, visitam o zoo e fazem compras a pé pela cidade. Existe uma paz no ambiente que nos tranquiliza rapidamente. E olha que, como fui a trabalho, em 3 dias estive em 7 cidades. Fiz os passeios que turistas fazem quando ficam uma semana na região.
O ruim foi não conseguir ver tudo o que tinha. A cada lugar que ia descobria outros 3 indicados por turistas e moradores. Todos muito solícitos.
Gramado consegue ser uma cidade turística com a hospitalidade de uma cidadezinha interiorana. A população soube aproveitar suas raízes culturais e a tecnologia para transformar a cidade no terceiro ponto mais visitado do país. Hoje ela não só está na lista de lugares para onde quero voltar, como inclusive moraria lá.
Angelica de Castro
Matéria: http://www.revistaviverbrasil.com.br/materia_01.php?edicao_sessao_id=909