Terça, 21 de Maio de 2013
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Internacional

As dores da guerra

Trinta anos depois, combatentes argentinos expõem o sofrimento dos dias vividos durante o conflito nas Malvinas

Texto: Élida Ramirez | Fotos: Arquivo


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Combatentes em foto da época da guerra
Eles tinham entre 18 e 20 anos. Foram levados para um exercício militar de rotina e mal viam a hora de voltar para casa. Em geral, não sabiam nada de política e só estavam cumprindo obrigação. Uma etapa exigida pelo governo: apresentar-se ao serviço militar argentino antes de começar a desenvolver os sonhos para a vida de adulto. O que não sabiam é que desembarcariam em meio a uma guerra. Não metaforicamente. “Tocou a sirene no meio da madrugada do dia 1º de maio de 1982. Já estávamos há alguns dias em treinamento. A ideia era ser dispensado em seguida. Porém, recebemos ordem para pegarmos objetos pessoais básicos e seguirmos armados. Comemos meio pão de sal servido com um copo de café. Entramos em um barco. Fizemos dois voos. Ninguém nos disse nada. Desembarcamos em meio a um tiroteio. Depois de muitos mortos nos demos conta que estávamos nas Ilhas Malvinas. E que teríamos que lutar. Não pela posse de território. E sim por nossa sobrevivência. Esse foi o último dia da vida que conhecíamos” conta Miguel Luiz Todde, 50 anos, ex-combatente da guerra das Malvinas, travada entre Argentina e o Reino Unido pela posse do local.
 
Segundo a Casa de Veteranos de Guerra Merlo, que fica na província de Buenos Aires, há 50 quilômetros da capital federal, as famílias não foram avisadas e só depois de várias semanas receberam comunicado sobre a localização de seus filhos. “Muitos, já haviam morrido”, diz Adrian López, também veterano. “Entramos meninos e saímos homens, feridos. Sem ter escolhido estar lá. Sem saber por que estávamos lutando. Quando voltamos para casa, éramos socialmente heróis.” Mas ficaram as marcas:  “A verdade é que nos transformamos em um pacote explosivo e sem ideais. Eu me casei duas vezes. Minha primeira mulher sofreu muito e nosso casamento foi totalmente afetado pela guerra.” 
 
Dados  do governo da Argentina mostram 623 mortos e incontáveis feridos. Mas informações levantadas pela Casa Veteranos, os estragos teriam sido maiores. Os feridos mortos fora da área de conflito não foram contabilizados e nem mesmo os que atentaram contra a própria vida. Seriam mais de 2 mil jovens mortos. “O pior são aqueles que estão vivos, mas mortos pelo álcool e pelas drogas. Nem todos conseguiram seguir suas vidas. Eu mesmo tomei caminhos errados”, diz  Juan Carlo Acosta. Ele não se esquece da noite do dia 16 de abril de 1982, quando um submarino britânico explodiu no barco em que estava. “Imundo de petróleo, caí na água que estava com temperatura de 20 graus negativos. Não havia botes para todos. Revezávamos-nos na água. Não há um só dia que não sinta aquela sensação gelada”, desabafa. Ele, diferente da maioria, tinha convicções políticas e nem por isso queria o confronto. 

Grupo argentino que lutou nas Ilhas Malvinas
Grupo argentino que lutou nas Ilhas Malvinas
Gustavo Aguirre, 50 anos, instalava as minas nos campos. O objetivo era matar mais gente em menor espaço de tempo. Entre as poucas palavras ditas por ele, entrecortadas por suspiros, confidenciou que dorme apenas duas horas por dia, à base de tranquilizantes. Para ele, o único lado bom da guerra foi ter saído com vida, ao lado do amigo, Victor Ruben Castaño, 49 anos. Isso porque Victor foi abandonado pela tropa um dia antes do final da guerra. Ele conta que sentiu o medo mais forte de sua vida. O destacamento dele foi atacado. Cenas de horror: amigos mortos e feridos.  Homens que berravam de dor. O humano que havia em cada um parecia ter se dissipado e a tropa sumiu. Victor estava em uma colina. Sozinho. Aos 19 anos. De frente com um inimigo que não era dele. Fazia disparos automatizados. “Nessa hora, eu não enxergava nada mais. Só atirava, recarregava, atirava mais. Eu me movia rapidamente, mas via a cena em câmara lenta. Quando fiquei de frente com os britânicos superarmados, quis ter mais um segundo de vida para pedir perdão aos meus pais e dois irmãos.” A batalha terminou, mas viu que a sua luta estava apenas começando. “Quando cheguei da guerra, não era mais eu mesmo. Ainda vivia como as rajadas de balas. Sempre no automático. Acreditava que estava bem até o dia em que meu filho mais velho me disse que teve uma criação boa, mas nunca teve um pai.” Ele admite que nunca esteve presente na vida deles. Agora Victor se uniu a Gustavo e, juntos, ajudam comunidades carentes locais. A ideia é estar presente na formação das crianças e ajudar com alimentos, água e infraestrutura.  
 
A união dos veteranos de guerra entre si e com a sociedade é para eles uma resposta ao abandono do governo, explica Juan Carlo Acosta. “Não é preciso brigar, matar e nem morrer para se colocar um ponto de vista ou para lutar por nossos direitos. Por isso, percorro as escolas contando a história real e não o que o governo queria que fosse mostrado.” Ele diz que nem sempre é bem-visto e quer conscientizar crianças e jovens através da educação. “Hoje percebo que o respeito ao próximo está fora de moda, principalmente entre os mais jovens. Em geral, não há uma consciência política.” Vitor endossa a ação do companheiro. E finaliza a entrevista citando o lema que o grupo dos veteranos criou quando se formou. Que fala um pouco da dor de todos, que não passará jamais: “Algum dia conseguiremos olhar nos olhos dos nossos filhos, dos nossos jovens e lhes diremos que nem tudo que fizemos foi suficiente. Mas nunca teremos que dizer que não fizemos nada.” De um jeito ou de outro.  
Adrian López:
Adrian López: "Entramos meninos e saímos homens, feridos"

Saiba mais sobre a Guerra

A guerra das Malvinas começou com a invasão da Argentina no arquipélago de três ilhas, em 2 de abril de 1982. O terrítório  era colônia britânica desde 1833. No entanto, os argentinos se consideravam donos da área depois da independência do país de sua metrópole, a Espanha, em 1822. A Espanha era dona das Malvinas e os argentinos queriam ter a posse delas, já que a área é ponto estratégico militar e fala-se da possibilidade de petróleo. Na época, a Argentina passava por uma ditadura militar e alguns pesquisadores alegam que a guerra pode ter sido estratégia do general Leopolfo Galtiere para esticar o governo militar, em crise. Do outro lado do oceano, mais crise. A primeira-ministra britânica, Margareth Thatcher, andava com a popularidade baixa e reagiu com mãos de ferro.  No final de abril, quase 30 mil soldados britânicos, em 100 navios, chegaram às Malvinas. O efetivo argentino era menor, cerca de 14 mil soldados e 40 navios. Em 14 de junho, a guerra termina com a rendição dos soldados argentinos. O saldo de mortos foi de 623 argentinos e 249 britânicos, segundo dados oficiais dos dois países. 
 

Sobre as Malvinas:

  • Área: 12.173 km 2
  • Habitantes: 3.140
  • Capital: Stanley
  • Língua oficial: inglês
  • Moeda: libra malvina
  • Distância da Inglaterra: 12,8 mil km
  • Distância da Argentina: 464 km

 
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