Domingo, 26 de Maio de 2013
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Especial Comportamento

Sexo aos 60, 70, 80 anos...

Medicamentos, disposição, finanças equilibradas retiram a data de validade da vida sexual: não há mais limite

Texto: Raquel Ayres | Fotos: Victor Schwaner


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Lembrete: não existe limite de idade para a vida sexual. A frase afirmativa é do médico Drauzio Varela, em artigo veiculado dia 10 de março, na Folha de S. Paulo. E vem ao encontro de pesquisas da Organização Mundial de Saúde (OMS) que colocam o sexo como um dos quatro pilares para a longevidade e qualidade de vida. Levando-se em consideração que, ainda de acordo com a OMS, em 2019 teremos uma população de 32 milhões de pessoas acima de 60 anos, nada mais natural do que sabermos que, sim, a terceira idade, ou ditos idosos, fazem sexo.  
 
Neste cenário, a ideia de que sexagenários são desprovidos de desejo e prática sexual é caricata e não cabe mais. O avô na cadeira de balanço ou a vovó tricoteira são estereótipos desconectados da realidade. A criação de medicamentos que devolvem a potência sexual masculina e prolongam a vida hormonal feminina proporcionam manutenção da virilidade e libido. Temos ainda uma geração que envelhece sem doenças, dispõe de tempo livre e finanças estáveis. “Somos biologicamente preparados para não sermos dessexualizados”, afirma o ginecologista e sexólogo Gerson Lopes, coordenador do departamento de medicina sexual do hospital Mater Dei.  Lopes cita um exemplo interessante. Segundo ele, um jovem e um velho saem da praça Sete, no centro de Belo Horizonte,  e chegam à praça do Papa, no bairro Mangabeiras, do mesmo modo. Apenas em tempos diferentes. Assim é com o sexo. Não há aposentadoria neste campo. O que há é alteração quantitativa. É época de mudanças e modificações. Também de descobertas. Não faz sentido reproduzir modelos e sensações de épocas já vividas. 
Para Lopes, são a família e a sociedade que dessexualizam o velho na medida em que os mostram infantilizados ou, ao contrário, como escandalosos ao se beijarem. “Creio que isto acontece porque é a primeira vez na história da humanidade que conhecemos uma sociedade velha. Só começamos a falar na sexualidade desta faixa etária a partir da década de 60 com as pesquisas pioneiras de Masters e Johnson”, refere-se ele à dupla de médico e psicóloga estudiosa da sexualidade humana. 
 
Se aos 20 e poucos anos as pessoas estão preocupadas com a quantidade de relações sexuais, o homem tem ereção rapidamente e a mulher apresenta grande capacidade de lubrificação, aos 60 deixa-se de valorizar tanto a genitália para valorizar-se mais o beijo, as viagens, o companheirismo. Sem abrir mão do ato sexual. “Há estudos que mostram que na velhice o sexo pode ser também satisfatório. A não ser que a pessoa venha de uma sexualidade ruim na juventude e maturidade”, observa o sexólogo. Vale lembrar que desde 1998 a famosa pílula azul (Viagra) garante sucesso no tratamento das disfunções eréteis. Traduzindo: auxílio para acabar com a impotência e retomar a vida sexual. Para as mulheres, hormônios em forma de creme, aplicados na vagina, possibilitam também o retorno à atividade sexual. Ambos devem procurar o médico para ver se há contraindicações. 
 
Maria Eugênia Rodrigues é uma bela mulher de 74 anos e esteve sozinha por quase 10, após um divórcio. Há dois namora o dentista aposentado José Alves Cardoso, 72. Ambos passaram por outros relacionamentos e desfrutam de independência financeira suficiente para viverem com intensidade. Inclusive no que se relaciona ao sexo. “Acho que agora é melhor do que anteriormente. Quando eu era moça, o assunto era um tabu”, comenta ela. O casal, que mora junto, está de casamento marcado. “Somos ficantes, estamos aí”, brinca Maria Eugênia. “Eu a beijo e abraço muito. Digo o quanto gosto dela. Felicidade sexual é o casamento com companheirismo, pois transportamos para a cama o que vivemos no cotidiano”, avalia Cardoso.

Mauro de Souza, com Joana Mesquita:
Mauro de Souza, com Joana Mesquita: "Procuro realizá-la sexualmente"
Operado de próstata, diz que isto não afetou a vida sexual do casal. Ele não nega que há, sim, alguma diferença entre o sexo na juventude e na terceira idade. “A intensidade é menor no sentido de que o jovem tem ereção mais duradoura e ao envelhecermos nem tanto. Mas satisfaz do mesmo modo. Se contarmos como é, ninguém acredita.” Detalhe importante: o casal não abre mão do uso de preservativos. Não por confianças ou desconfianças, mas por responsabilidade. Lembram-se da famosa frase: O Ministério da Saúde adverte? Pois é, segundo estudos divulgados, cresceu o número de infectados com o vírus HIV entre pessoas acima de 50 anos. 
 
“A grande novidade do século 21 é o idoso”, afirma a psicóloga Maria Cândida dos Santos, idealizadora do projeto Maioridade. Isto porque até o século 20 a expectativa de vida estava na casa dos 65 anos. “Agora, aos 70, estão aí pelas ruas, de short, com postura e linguagem modernas.” A psicóloga diz que esta realidade já foi captada pela mídia ao mostrar o ator José Mayer, 63 anos, não mais como galã, mas em papel de plena atividade sexual com a atriz Cristiane Torloni. Na novela A Vida da Gente, que terminou em março, um dos núcleos principais trouxe o amor, a paquera e o sexo entre os idosos como tema. 
 
Na opinião de Maria Cândida, a libido mudará conforme o conflito. E passará pela aceitação de que não há perda na sexualidade, e sim intensidade menor. A psicóloga conta que há casos em que, após 20, 30 anos de casamento, o casal separa-se e é comum verem o desejo ressurgir, por novos parceiros, de forma avassaladora. Alguém aí já viu este filme, não é? Isto porque após os 60 pode-se caminhar com mais equilíbrio, existe a certeza de que a vida acaba, olha-se para o fim. “E o sexo significa manter-se vivo até a hora da morte. Há velhinhas de 80 anos que são vorazes.”
 
Maria Elieusa Chagas não é uma velhinha. Ao contrário, assegura que se sente como uma menininha, mas aos 64 anos diz, com firmeza e sem constrangimento, que, se aos 20 fugia do sexo, agora, procura por ele. “Me considero gatinha e não perdi o desejo.” O bom é que encontrou Ivan Correa, 67 anos, e há quatro estão namorando. Camisolas insinuantes, cinta-liga, roupas novas, streep-tease e o que mais a imaginação ditar faz parte da vida do casal. “Eu já comprei cremes, gotas de sabor para os seios”, confessa ela. “Nunca vi mulher mais fogosa”, assegura Correa. “Se deixar por conta dela, é sexo todo dia.” Mas o casal diz que mantém a média de três vezes na semana, sem o uso de medicamentos e afins. 
 
De bem com a vida, ela não hesita em dizer que a mulher se prejudica quando abre mão do sexo para, por exemplo, dedicar-se apenas a cuidar de netos. “Isto desgasta nossa energia, pois não é nossa responsabilidade. Até dá para viver sem sexo, mas é ruim, a pessoa fica mal-humorada”, afirma com sinceridade. “Penso que tenho que aproveitar o mais possível de mim, o sexo ao máximo, viver, ser feliz. Por isto, hoje, o sexo é melhor. Sei o que quero.” Para o companheiro, não ter preocupações com trabalho e filhos faz o sexo ser compensador. “Atualmente é muito diferente, sem dúvida. A vida sexual não começa na cama, é no baile, na conversa, no encontro. A juventude não sabe disto”, pontua Correa.
Maria Elieusa Chagas, com Ivan Correa: “Não perdi o desejo”
Maria Elieusa Chagas, com Ivan Correa: “Não perdi o desejo”
“O sexo é importante para se envelhecer bem”, assegura o doutor em psicologia e autor do livro Relacionamento Amoroso (Publifolha), Ailton Amélio. Ele diz que, se por um lado existe o estereótipo do corpo magro,  torneado, e a cultura que inventou o mito da juventude; o sex appeal e a sensualidade não dependem de idade, mas de comportamento. 
 
Segundo Amélio, sem vida sexual a autoimagem torna-se estranha. “É como se a pessoa estivesse mutilada.” Claro que a idade pode, sim, trazer alterações de saúde como diabetes, pressão alta, problemas cardíacos que deterioram a vida sexual. Mas também, segundo ele, pode resultar em menos inibição para o ato sexual. “O velho pode ser mais tolerante com os vários tipos de amor. As pessoas apaixonam-se, fantasiam, ficam românticas iguaizinhas quando jovens.” 
 
E usam suas artimanhas. A viúva Joana Mesquita, 65, ficou mais de sete anos sozinha. Cabeleireira aposentada, em suas palavras nunca sofreu com os sintomas da menopausa, mas ficava em casa, deprimida, tomando remédio. Os namoros duravam pouco. Até que conheceu o ferroviário, também aposentado, Mauro de Souza. Homem charmoso, gentil e cheiroso, logo engataram uma amizade. “Convidei-o para ir para Araxá numa viagem com um grupo, mas só como amigo.” Chegando, a primeira surpresa: o guia entregou uma chave de quarto de casal para eles. Souza não entendeu nada. “Depois do almoço fomos deitar e ele veio com tanto carinho, muito beijo que só não rolou sexo porque tínhamos acabado de almoçar”, conta Joana. “Fomos dançar à noite e eu fiquei pensando como ia ser na hora de dormir”, completa Souza. Ao fim do baile, Joana foi tomar banho e deixou a porta aberta. “Fiquei no quarto, pensando: o que estou fazendo aqui que não entro no banho com ela?” O resto, fica pra imaginação do leitor. Fato é que estão namorando há 10 meses, felizes da vida. Contam que fazem sexo uma vez por semana. “Às vezes eu quero mais, ela fala pra deixar para semana que vem. Procuro realizá-la sexualmente e nem penso em perder a potência sexual.” 

Fique ligado

Confira dicas e informações sobre o sexo na velhice

Mulheres:
 
  • A menopausa traz queda dos hormônios sexuais, o que reduz a capacidade de sentir desejo
  • A lubrificação vaginal também diminui, o que pode causar dor no ato sexual e dificultar o orgasmo
  • Mas a terapia de reposição hormonal pode solucionar estes problemas
 
Homens:
 
  • O maior problema pode ser de ter e manter a ereção
  • Pesquisas indicam que de 15% a 25% dos homens podem apresentar este problema, que, por sua vez, pode estar relacionado a diabetes, hipertensão e doenças cardíacas 
  • Também o volume de esperma não é o mesmo da juventude. Mas medicação e estimulação erótica antes do ato podem resolver
 
Doenças que podem atrapalhar:
 
  • Hérnia de disco
  • Diabetes
  • Doenças cardíacas
  • Derrame
  • Anemia
  • Doença de Parkinson
  • Peyronie
 
Como melhorar a vida sexual:
 
  1. Procure um médico e converse com ele sobre como as transformações físicas impactam a vida do casal
  2. Deixe a vergonha de lado e fale francamente com seu parceiro (a) sobre o que lhe dá mais prazer
  3. Experimente novos horários para relações sexuais. De manhã, por exemplo, o corpo tem mais energia
  4. Não tenha pressa e capriche nas preliminares
  5. A masturbação também é alternativa 
  6. Mantenha um estilo de vida saudável 
  7. Faça exercícios e tenha boa alimentação
  8. Dê valor a seu companheiro(a) e não se esqueça que o sexo não é privilégio dos jovens

 
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