Sábado, 18 de Maio de 2013
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Artigo

O dedo que faz a mágica

Texto: José Martins de Godoy
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José Martins de Godoy - Engenheiro, co-fundador do INDG e integrante do conselho de administração superior da Fundação de Desenvolvimento Gerencial

No Brasil, além do jeitinho, há o costume de se tentar conseguir as coisas sempre com o menor esforço. Em vez de aprenderem, algumas pessoas querem de imediato o dedo que faz a mágica.  Em 1993 o nosso movimento pela qualidade já era grande sucesso. Tínhamos treinado cerca de 150 mil executivos. Empresários e políticos chegavam a fazer lobby para conseguir vagas nos nossos treinamentos. A disputa era tão acirrada que o tamanho ideal de uma turma era de 80 pessoas, mas tive que de aceitar até 135 participantes. Também, a assistência técnica a empresas para implementação do método de gestão já era uma realidade.
 
Àquela altura, muitos pensaram que a chave do sucesso era a nossa parceria com a União Japonesa de Cientistas e Engenheiros (Juse). Executivos de organizações nacionais que pretendiam copiar a nossa atuação lançaram-se à empreitada de buscar a mesma parceria que tínhamos. Uma importante organização do Rio Grande do Sul convidou o Junji Noguchi, diretor executivo da Juse, para ser um dos palestrantes no congresso anual que promovia. Seria um bom momento para cooptá-lo. Outra organização paulista, usando influência política, buscou estabelecer  a parceria  utilizando a cooperação bilateral Brasil-Japão. Em meados de junho daquele ano, Noguchi veio ao Brasil e eu o acompanhei para assisti-lo e também para entender as proposições dos futuros possíveis concorrentes. A minha presença não visava a garantir a  reserva de mercado para nós, mas tentar impedir a pulverização dos recursos da Juse no Brasil.
 
Assisti à palestra de Noguchi e constatei que nos contatos ele não teve argumentos para negar receber uma missão gaúcha ao Japão. Porém, a almejada parceria restringiu-se a esse evento, pois não houve desdobramentos da parte brasileira que garantissem escopo relevante para continuidade da cooperação.  Depois fomos a Brasília, onde houve o contato com técnicos do Itamaraty.  Tentei, por meio deles, demonstrar a inconveniência de abrir outra parceria no Brasil já que a Juse era muito requisitada por vários países. Certamente, iria dispersar recursos humanos que eram importantes para o nosso programa. A influência política preponderou e a parceria foi feita. Recursos humanos do Japão foram enviados (como eu previa, compartilhados conosco). Tentou-se trabalhar por um tempo, mas não houve empatia, ambiente e contrapartida da instituição receptora para assegurar resultados expressivos. A parceria esvaziou-se.
 
Enganaram-se aqueles que pensaram que a executora da mágica era a Juse. É inegável que a grife nos deu respaldo e aval. Foi fundamental para o programa, recebendo nossas 33 missões técnicas ao Japão  e enviando especialistas para a transferência de conhecimentos e experiências. Mas o que fez a diferença foi que nós fizemos o para casa integralmente. Sempre havia pessoas capacitadas para dialogar com especialistas externos. Além disso, já tínhamos um conjunto de empresas clientes que recebia assistência dos japoneses. Estes se faziam acompanhar pelos nossos consultores, nem que fosse para carregar as malas deles. Em um tempo curto, passamos de alunos a orientadores. Como resultado de tudo, aprendemos a fazer as mágicas. Dito assim parece que foi fácil, mas demandou muito esforço gerencial e habilidade política para ancorar o programa na UFMG, trabalho duro de toda equipe, dedicação e persistência. Partir do zero e chegar a ser a maior consultoria brasileira em gestão requereu trabalho em equipe e criatividade.
 
Enfatizo que a Juse também manteve por longo tempo parcerias com dois países da América Latina. Como não adotaram a mesma estratégia,  pouco restou ao término da cooperação. Também, nos dois casos brasileiros relatados acima, houve logo o desânimo ao descobrirem que não havia caminho fácil a ser trilhado. A sigla Juse sozinha era incapaz de fazer a mágica almejada. O professor W. E. Deming, guru internacional da gestão, dizia: “Nada substitui o conhecimento”.  Não tenho dúvida de que, para adquiri-lo e fazê-lo transformar-se em resultados, é preciso de gente inteligente, bem liderada, persistente e, sobretudo, com disposição de lutar. Isto valeu para nós, como para qualquer outra iniciativa que pretenda ser bem-sucedida. Não tem outro jeito. Não existe lanche de graça!
 
José Martins de Godoy, engenheiro pela UFMG, dr. engenheiro pela Norges Tekniske Hogskole, ex-diretor da Escola de Engenharia da UFMG, cofundador do INDG, instituidor e integrante do Conselho de Administração Superior da Fundação de Desenvolvimento Gerencial
 
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