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Artigo
Aqueles que, como eu, estudaram ciências naturais, durante o ginásio, certamente vão se lembrar das características da águia. Trata-se, recordando, da mais longeva das aves de rapina. Vive até 70 anos ou pouco mais e durante longas décadas teve uma perspectiva de vida maior que a do homem. É imponente, com um olhar que impõe respeito e algum temor. Entretanto o mais interessante ocorre quando atinge 40 anos de vida. A águia deixa então o seu ninho e vai buscar abrigo nos mais altos penhascos da região onde vive. Ali se aloja entre as pedras mais ásperas que encontra para dar início a um dos mais extraordinários fenômenos da natureza. Suas garras estão enfraquecidas e seu bico excessivamente curvado, dificultando-lhe segurar as presas e, portanto, alimentar-se. Suas penas estão foscas e soltando-se com facilidade. Inicia-se então sua temporada de sacrifício e renovação.
Pouco e pouco vai arranhando suas garras nas pedras até que lhe caiam uma a uma. Em seguida faz o mesmo com o bico. Jorra-lhe o sangue, mas ela só interrompe quando este lhe cai também. E então, pacientemente, espera. Quando as novas garras crescem e o novo bico ocupa seu lugar, desenvolve-se uma nova etapa. Com o novo bico e novas garras ela principia a arrancar todas as penas. E novamente espera. Após cerca de seis a oito meses, com novas garras, bico e penas, ela deixa o alto dos penhascos e desce em voos rasantes para completar a segunda metade de sua vida.
Vale o exemplo como uma metáfora, pois duvido muito que qualquer um de nós se submetesse a tal sacrifício com o mesmo estoicismo.
Dizem que os 40 anos são para nós a juventude da velhice e os 50 a velhice da juventude. É tempo então de buscarmos uma renovação, senão física, de ideias, de atitude.
Se não temos unhas a trocar, certamente temos muito de nosso comportamento a modificar. Ninguém vai alterar sua personalidade, mas, certamente, temos muito a melhorar em nossa maneira de ser e estar. É chegado também o tempo de aliviar boa parte de nossa bagagem. Lembranças ruins, amigos insinceros (para dizer o mínimo), momentos difíceis e outros que tais podem e devem abrir espaço para os velhos novos anos que se aproximam. Vamos fazer de nossa presença um motivo de satisfação para os amigos. De alegria para nossos filhos e netos. Uma oportunidade de retribuição de amor para nossas companheiras.
Provavelmente após os 50 é chegada a hora de renovar igualmente seu guarda-roupa. A plumagem. Muito cuidado aqui. Nada de ternos de corte supermoderno ou camisas de padronagem muito estampadas. Você não tem mais a idade que já teve. Seja sóbrio ao se vestir. Você não é velho, no máximo pode ser antigo.
Jamais dispense a companhia dos jovens. Há muito a aprender com eles. Os novos hábitos, mesmo que alguns você não aprove. Existe um novo vocabulário e é importante você conhecer. A gíria de sua época desapareceu. Mas existe uma atual, trate de saber.
Finalmente é chegada a hora de retomar seus planos de voo. Não tenha dúvida sobre ser esta a idade mais produtiva do homem, especialmente nos dias atuais. Se já foi, há algum tempo, dos 40 aos 50, tenho para mim que hoje é dos 50 aos 60. Alguns cuidados, contudo, devem ser tomados. Nada de voos rasantes. Procure voar baixo e com serenidade, como se estivesse num parapente. Observando a paisagem ao redor e o mundo lá embaixo. Sem barulho, mas com movimento. E faça, então, uma aterrissagem tranquila para desfrutar a próxima fase, a chamada terceira idade.
Você não é uma águia, mas nada impede de buscar viver como ela.
Hermógenes Ladeira, empresário
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