Quarta, 23 de Maio de 2012
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Reportagem

Livrei-me do crack

Marco Aurélio Costa deixou a droga há sete anos, carrega o estigma de ex-usuário, pede atenção aos dependentes dispersados nas diversas cracolândias da vida

Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Pedro Vilela, Nélio Rodrigues e arte Paulo Werner


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Um dia após o outro: o álcool, a maconha, a cocaína, o crack. Empregos abandonados, outros arrumados, logo deixados. As prisões por furtos, as internações, as fugas de lugares físicos e da vida, as fissuras, as recaídas, a retirada de fios do apartamento onde morava porque tinha certeza que havia câmera escondida lá. A mãe que morreu, o pai que cansou, as irmãs que não falam mais com ele. A procura por ajuda, a distância do crack há sete anos, a ainda falta de confiança dos outros, o refúgio na clínica, hoje como coordenador. As cenas se sequenciaram nesse túnel da miséria humana construído, envolto pelo uso da droga, carregadas de emoção da família, dele nos momentos sóbrios, que se repetem por aí com frequência. Saiu-se do lado de cá, da vida bruta sem alívio. Ganhou essa batalha difícil nas cracolândias do submundo, dispersa na capital paulista no início desde ano, exposta para todo mundo ver em homens, mulheres e crianças vagando sem rumo pelas ruas, trabalhada em outras cidades, invisível em longínquos municípios, ao nosso lado. 

“Sou o homem que venceu o crack”, diz Marco Aurélio Abritta Costa, nosso personagem focalizado no meio dessa pequena parcela de quem esteve lá e conseguiu, desgarrou-se da pedra. Mantém a vigilância, se cerca desse mundo de livre arbítrio, ainda pena com o preconceito de ex-usuário de droga, expõe as suas dores, se refaz com o pai, queixa-se da família. “Deixei o crack quando a dor foi maior que o prazer.” Puxa da lembrança o princípio de tudo há mais de 20 anos: o prazer trazido pelo álcool, que levou à maconha, à cocaína, à pedra de um grama mais potente. “Enquanto era a cocaína dava para conciliar com o trabalho de vendedor em concessionárias.” Começou na Faculdade de Ciências Contábeis. Mas depois veio o crack, com seu prazer instantâneo, que pedia mais. “Em oito segundos ele faz efeito e a gente busca sempre a sensação da primeira vez, que nunca vem.”


Marco Aurélio, com o pai Lincoln Costa: “A família é preparada para  ter engenheiro, médico, não para dependente químico”
Marco Aurélio, com o pai Lincoln Costa: “A família é preparada para ter engenheiro, médico, não para dependente químico”

Foi ele, aos poucos, se afundando nesse mundo. “O crack é a pedra que volta o homem à idade da pedra.” Isolou-se, buscou a droga a qualquer custo, roubou produtos em supermercados quando não tinha dinheiro, foi preso, era solto, voltava. “Tinha vida de mendigo em apartamento de luxo.” O que ele escarafunchou à procura da câmera escondida. Retirou todos os fios das tubulações, desfez a TV, peça por peça, o fogão, a geladeira, o freezer. “Neste dia, pedi que não me procurasse mais”, diz o pai, o advogado Lincoln Costa. Ele que tinha sido chamado tantas noites à delegacia, levado aos hospitais, às clínicas, livrado dos processos. “Ele fazia as coisas e eu era o seu escudo. Mentia. Cada dia uma novidade. O telefone tocava de madrugada, às vezes estava preso.” Havia saído sem pagar conta, deixava a identidade e lá ia a família resolver. Pedia dinheiro emprestado aos amigos do pai, dizia que o carro havia estragado e assim vivia.

Estava na sétima carteira de identidade, perdia 30 quilos, engordava 60. Parava com a droga, voltava. Foram três recaídas. “Roubava as joias da mãe. Eu ficava sabendo para quem. Ia lá e comprava”, lembra o pai. A mãe, Regina Abritta, resolveu fazer psicologia para entender o filho. Morreu de câncer na medula um semestre antes de concluir a faculdade. “Queria que ela visse a minha vitória.” Não a viu. O pai acompanhou, segue o filho nessa batalha, sofre ao olhar para o passado. “É difícil, só quem viveu isto sabe.” Emociona-se, vasculha seu papel de pai para ver se colaborou para as dores do filho. “Criei os três iguais.” Duas mulheres e ele, Marco Aurélio, o filho do meio, hoje com 47 anos, mais de 20 sob o efeito das drogas, sete sem elas. 

 

“Foi este o seu erro”, responde Marco Aurélio. Aponta o tratamento igual, a falta de diálogo. O pai vê falha em ter dado carro quando fez 18 anos. Depois outro, mais um, o quarto, todos capotados. “Ofereci amor dentro do meu conceito. Não sabia a forma correta”, argumenta o advogado. Expõem suas fissuras: o pai que hoje trata melhor os netos, a falta de convivência com os filhos. “Depois que deixei o crack sabe quantas vezes fui  

à casa dele? Três vezes”, conta Marco Aurélio. “Mas sempre foi este o nosso costume. A gente só vai à casa do outro em aniversário”, afirma Lincoln Costa. O ser sempre assim realçado pelo filho. “Mas não faltou ajuda a ele.” Recorreu-o em toda a sua vida. “Sempre que pedi. Mas nunca recebi telefonema: você está bem?”, queixa-se.

As feridas abertas, escancaradas nestes anos de dependência, ainda para serem cicatrizadas. Veem pontos positivos: a honestidade e a responsabilidade do pai, a bondade do filho. “O dependente químico tem atitude de marginal, mas é doente, como um diabético. Precisa de acompanhamento, ser amado”, diz Marco Aurélio. Acha que careceu disto e acredita, tem certeza, que os outros também. “A família é preparada para ter engenheiro, médico, não para dependente químico.”

Está aí para colaborar, convive com usuários, evita ir a locais onde possa ter a droga. “Sai dela em doses homeopáticas. A recuperação é tripla: disciplina, trabalho, espiritualidade.” Agarrou-se a isto para sair, se manter, perpetuar sóbrio em sua finita existência. “As pessoas ainda não acreditam na minha recuperação. Não importo.” Não se sente à vontade com os outros. “Sou até rejeitado.” Carrega o estigma de ex-usuário de crack, foi cobrado em restaurante por atos cometidos na época da dependência, ressente-se das irmãs. O pai havia desejado sua morte nas crises do crack. “Ia chorar uma vez só”, afirma Lincoln Costa. Passou, sobreviveu à pedra, quer dissipá-la, ainda que pesada, de sua vida. Retirar a marca de que foi um dependente químico, realçar que venceu, que outros também podem nessa sequência de um dia após o outro. Ela é forte, mas o homem é mais. 

O crack na universidade

Confira o perfil do estudante de nível superior usuário da droga:

 

  • Homem
  • De 25 a 34 anos
  • Aluno da área de exata
  • Morador do Sudeste
  • Vai às aulas no período da tarde
  • Começa a usar a droga aos 21 anos

Fonte: 1º Levantamento Nacional sobre o Uso de Álcool, Tabaco e outras Drogas entre Universitários das 27 Capitais Brasileiras, feito pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas em 2009

 


 

Efeito rápido

De 8 a 15 segundos, em média, o crack chega ao sistema nervoso central. Sua ação dura de 5 a 10 minutos, período em que aumenta a liberação de dopamina, o neurotransmissor que regula a sensação de bem-estar 

15 minutos é o tempo que leva a cocaína para ir ao cérebro e sua ação é a metade do crack


O que é a droga

 

 

  • É a mistura da pasta-base de coca ou cocaína refinada com bicarbonato de sódio e água
  • O princípio ativo é o mesmo da cocaína. As drogas se diferem na forma de uso
  • A pedra tem menos de 1 grama

 


 

Usuários brasileiros

 

  • 381 mil (0,7 da população) em 2005
  • De 800 mil a 1,2 milhão hoje. São estimativas. A Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, do Ministério da Justiça, começou a fazer pesquisa, que deve ser concluída neste ano

No tempo do crack

 

  • 1980 surge em bairros pobres de Nova Iorque, Los Angeles e Miami
  • 1989 ocorre o relato do uso em São Paulo. Dois anos depois há a primeira apreensão
  • 2000 começam a se espalhar as cracolândias pelas capitais brasileiras. Em BH aparece na rua Araribá, na Lagoinha, depois na praça da Estação, viaduto Santa Tereza, região da rodoviária, viaduto Senegal da avenida Antônio Carlos
  • 2006 aprovada a lei 11.343 que estabelece penas para traficantes de drogas ilícitas e financiadores do tráfico
  • 2011 alastra-se pelo interior do país: 90,7% de 4.430 dos 5.563 municípios brasileiros têm problemas com a droga, registra pesquisa da Confederação Nacional dos Municípios:
    - O governo mineiro lança projeto Aliança pela Vida para ajudar dependentes da droga. Vai às cracolândias, oferece internação, faz acompanhamento psicológico
    - União investe 4 bilhões de reais em  projeto para enfrentar o crack
  • 2012 Polícia Militar de São Paulo deflagra operação para dispersar os viciados de cracolândia na capital. Eles vagam pelas ruas da cidade

 

 

Fonte: Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, Confederação Nacional dos Municípios, Subsecretaria de Políticas sobre Drogas de Minas

 


 
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