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ReportagemLivrei-me do crackMarco Aurélio Costa deixou a droga há sete anos, carrega o estigma de ex-usuário, pede atenção aos dependentes dispersados nas diversas cracolândias da vida
Texto: Silvânia Arriel | Fotos: Pedro Vilela, Nélio Rodrigues e arte Paulo Werner
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Foi ele, aos poucos, se afundando nesse mundo. “O crack é a pedra que volta o homem à idade da pedra.” Isolou-se, buscou a droga a qualquer custo, roubou produtos em supermercados quando não tinha dinheiro, foi preso, era solto, voltava. “Tinha vida de mendigo em apartamento de luxo.” O que ele escarafunchou à procura da câmera escondida. Retirou todos os fios das tubulações, desfez a TV, peça por peça, o fogão, a geladeira, o freezer. “Neste dia, pedi que não me procurasse mais”, diz o pai, o advogado Lincoln Costa. Ele que tinha sido chamado tantas noites à delegacia, levado aos hospitais, às clínicas, livrado dos processos. “Ele fazia as coisas e eu era o seu escudo. Mentia. Cada dia uma novidade. O telefone tocava de madrugada, às vezes estava preso.” Havia saído sem pagar conta, deixava a identidade e lá ia a família resolver. Pedia dinheiro emprestado aos amigos do pai, dizia que o carro havia estragado e assim vivia. Estava na sétima carteira de identidade, perdia 30 quilos, engordava 60. Parava com a droga, voltava. Foram três recaídas. “Roubava as joias da mãe. Eu ficava sabendo para quem. Ia lá e comprava”, lembra o pai. A mãe, Regina Abritta, resolveu fazer psicologia para entender o filho. Morreu de câncer na medula um semestre antes de concluir a faculdade. “Queria que ela visse a minha vitória.” Não a viu. O pai acompanhou, segue o filho nessa batalha, sofre ao olhar para o passado. “É difícil, só quem viveu isto sabe.” Emociona-se, vasculha seu papel de pai para ver se colaborou para as dores do filho. “Criei os três iguais.” Duas mulheres e ele, Marco Aurélio, o filho do meio, hoje com 47 anos, mais de 20 sob o efeito das drogas, sete sem elas.
“Foi este o seu erro”, responde Marco Aurélio. Aponta o tratamento igual, a falta de diálogo. O pai vê falha em ter dado carro quando fez 18 anos. Depois outro, mais um, o quarto, todos capotados. “Ofereci amor dentro do meu conceito. Não sabia a forma correta”, argumenta o advogado. Expõem suas fissuras: o pai que hoje trata melhor os netos, a falta de convivência com os filhos. “Depois que deixei o crack sabe quantas vezes fui à casa dele? Três vezes”, conta Marco Aurélio. “Mas sempre foi este o nosso costume. A gente só vai à casa do outro em aniversário”, afirma Lincoln Costa. O ser sempre assim realçado pelo filho. “Mas não faltou ajuda a ele.” Recorreu-o em toda a sua vida. “Sempre que pedi. Mas nunca recebi telefonema: você está bem?”, queixa-se. As feridas abertas, escancaradas nestes anos de dependência, ainda para serem cicatrizadas. Veem pontos positivos: a honestidade e a responsabilidade do pai, a bondade do filho. “O dependente químico tem atitude de marginal, mas é doente, como um diabético. Precisa de acompanhamento, ser amado”, diz Marco Aurélio. Acha que careceu disto e acredita, tem certeza, que os outros também. “A família é preparada para ter engenheiro, médico, não para dependente químico.” Está aí para colaborar, convive com usuários, evita ir a locais onde possa ter a droga. “Sai dela em doses homeopáticas. A recuperação é tripla: disciplina, trabalho, espiritualidade.” Agarrou-se a isto para sair, se manter, perpetuar sóbrio em sua finita existência. “As pessoas ainda não acreditam na minha recuperação. Não importo.” Não se sente à vontade com os outros. “Sou até rejeitado.” Carrega o estigma de ex-usuário de crack, foi cobrado em restaurante por atos cometidos na época da dependência, ressente-se das irmãs. O pai havia desejado sua morte nas crises do crack. “Ia chorar uma vez só”, afirma Lincoln Costa. Passou, sobreviveu à pedra, quer dissipá-la, ainda que pesada, de sua vida. Retirar a marca de que foi um dependente químico, realçar que venceu, que outros também podem nessa sequência de um dia após o outro. Ela é forte, mas o homem é mais. |
O crack na universidadeConfira o perfil do estudante de nível superior usuário da droga:
Fonte: 1º Levantamento Nacional sobre o Uso de Álcool, Tabaco e outras Drogas entre Universitários das 27 Capitais Brasileiras, feito pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas em 2009
Efeito rápido De 8 a 15 segundos, em média, o crack chega ao sistema nervoso central. Sua ação dura de 5 a 10 minutos, período em que aumenta a liberação de dopamina, o neurotransmissor que regula a sensação de bem-estar 15 minutos é o tempo que leva a cocaína para ir ao cérebro e sua ação é a metade do crack O que é a droga
Usuários brasileiros
No tempo do crack
Fonte: Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, Confederação Nacional dos Municípios, Subsecretaria de Políticas sobre Drogas de Minas
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