Quarta, 23 de Maio de 2012
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Mercado Imobiliário

Rua Laura, sem número

Não foram só prédios que desabaram no bairro Buritis, em Belo Horizonte: os sonhos de quem ficou também estão entre os escombros

Texto: Fernando Torres | Fotos: Victor Schwaner


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Há dois anos, a médica Carla Souza Friche, 30, se mudou com o marido para um apartamento de três quartos, adquirido na planta. O imóvel, avaliado em 500 mil reais, representa o sonho conquistado da casa própria, ideal da maioria de brasileiros. Tudo seria perfeito, não fosse um detalhe: o prédio fica na rua Laura Soares Carneiro, no bairro Buritis, região Oeste de Belo Horizonte, a menos de 100 m do edifício Vale do Buritis, que, depois de mais de três meses de tragédia anunciada, finalmente veio ao chão em janeiro. “Ficamos com muito receio de ter que abandonar o apartamento. Tínhamos medo de que o efeito dominó afetasse a rua toda. Só ficamos mais tranquilos após o desabamento”, conta a médica.

Os temores de Carla são comuns aos moradores e proprietários de imóveis da rua e do entorno do bairro. Embora o impacto não possa ser comparado aos das 24 famílias dos prédios condenados e interditados, eles compartilham a incerteza do futuro. “A polícia e a Defesa Civil não nos fornecem informações consistentes e oficiais. A gente só fica sabendo do que está acontecendo pelos jornais”, reclama a relações-públicas Aparecida Alvim, moradora da rua desde 2003. Quando as rachaduras se tornaram evidentes e os prédios foram interditados, ela diz ter entrado em pânico, com medo de o asfalto afundar, como aconteceu em frente aos prédios que ruíram. “Agora, estamos ansiosos para que os órgãos responsáveis solucionem o problema da rua”, diz.


Carla Friche: “O problema é encontrar alguém que queira comprar o imóvel”
Carla Friche: “O problema é encontrar alguém que queira comprar o imóvel”
Por enquanto, as únicas medidas tomadas na região, além da demolição do bloco I do edifício Art de Vivre (vizinho ao Vale dos Buritis), é o início da obra de contenção de barreira na avenida Protásio de Oliveira Penna, que dá fundos para a rua Laura Soares Carneiro, e a monitoração constante da área de risco. No logradouro trágico em si, nada foi feito; apenas a interdição. “Estamos apreensivos e aguardamos resultados dos estudos geotécnicos para levantar as causas do desastre, para só então o poder público tomar as providências necessárias”, diz a presidente da Associação de Moradores do bairro Buritis (ABB), Fátima Gottschalg.
Há especulações de que o desmoronamento também tenha afetado o mercado imobiliário da região, onde o metro quadrado custa entre 2 a 3 mil reais. “Os compradores podem ter ficado mais seletivos no que diz respeito à inclinação da rua e à localização do prédio, mas afirmar queda generalizada nos preços é sem fundamento”, contradiz o presidente da Câmara do Mercado Imobiliário (CMI-MG) e do Sindicato das Empresas do Mercado Imobiliário (Secovi-MG), Ariano Cavalcanti.
As imobiliárias também negam a desvalorização. “O bairro não se resume àquela região. A procura e os preços em geral não caíram”, afirma o diretor da VPR Imóveis, Wellington Padovani, que comercializa, por ano, média de 150 unidades no Buritis. Contudo, ele admite que, desde o ocorrido, não fechou nenhum negócio nos logradouros do entorno do desastre. Eliane Padilha, supervisora de vendas da GR Imóveis, também diz que o deslizamento não compromete os preços. Mas, segundo ela, a procura caiu. “Tivemos redução de 20%, especialmente nas áreas de encostas. Quem mora em ruas íngremes realmente terá dificuldade para vender no momento.”
É o caso de Carla Friche, que gostaria de se mudar do Buritis para o Sion, na região Centro-Sul. “Mas nnem cogito vender este ano. O problema não é o preço cair ou não, mas encontrar alguém que queira comprar um imóvel justamente na rua do deslizamento. Meu vizinho estava vendendo, mas já tirou a placa”, lamenta. Em contrapartida, há quem acredite que o momento pode ser bom para investir. “Se eu tivesse dinheiro, procuraria um imóvel com preço mais em conta na região. Daqui a um ano, as pessoas já vão ter se esquecido e tudo volta ao normal”, aposta Aparecida Alvim. 
Aparecida Alvim: sem informação
Aparecida Alvim: sem informação

Saia mais

O que causou o desastre

Laudo técnico feito pelo Instituto Mineiro de Avaliações e Perícias de Engenharia (Ibape-MG) e divulgado pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Minas Gerais (Crea-MG) aponta 6 razões para  a movimentação do terreno na rua Laura Soares Carneiro. O documento aponta causas, não responsáveis. O parecer conclusivo será dado em de dois meses. Veja o que o laudo aponta:

  • A rede de abastecimento de água não possui compactação adequada
  • Deficiência no sistema de microdrenagem, com trincas e ausência de boca de lobo
  • Cortes no fundo do terreno
  • Afundamento do trecho da rua em frente aos prédios interditados
  • Compactação deficiente do reaterro de vala
  • Existência de uma nascente de água a 200 metros do entorno

 
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