O Carnaval de Salvador, a maior festa de rua do mundo conforme o Guiness Book (2004) vai homenagear seu filho ilustre, o escritor baiano Jorge Amado, no ano em que ele completaria 100 anos de vida. Amado, um apaixonado pelo Carnaval de Salvador escreveu sobre essa grande festa em seu primeiro romance O País do Carnaval, (1931), passando pelo conto História do Carnaval (1945), e por personagens como Vadinho em Dona Flor e Seus Dois Maridos, de 1966.
A festa de Salvador deve atrair mais de 2 milhões de foliões por dia que vão se acabar ao som eletrizante dos trios de Osmar (em Campo Grande), Dodô (Barra-Ondina) e Batatinha (Pelourinho), dos tambores dos blocos afro, pagode, afoxé e outros ritmos que invadem a folia. Lá, a festa é tão animada que começa um dia antes, na quinta-feira, dia 16, e só termina em 21 de fevereiro.
O Coração do Mundo Bate Aqui é o tema musical perfeitamente apropriado para a folia que acontece na Cidade do Carnaval, espaço de 25 quilômetros de avenidas, ruas e praças que são interditadas para a passagem dos trios elétricos e por onde só não vai quem já morreu.
“Salvador tem uma festa democrática em que o povo participa ativamente, na verdade, o povo é o artista e toma conta das ruas e vai atrás dos trios elétricos. A Bahia é um estado que tem na criatividade e na diversidade cultural fortes apelos para os turistas. Baiano já nasce artista”, declara Caio de Carvalho, diretor geral da Inter, empresa de entretenimento do Grupo Band de comunicação que apoia o Carnaval de Salvador há seis anos.
O advogado e promoter Leonardo Starling, 41, ficou literalmente contagiado com o Carnaval baiano quando lá esteve pela primeira vez em 2003. “A energia do lugar é impressionante. Fiquei tão extasiado que quis voltar para sentir aquela emoção de novo”, relembra.
Foram tantas idas e vindas que Leonardo acabou virando figurinha carimbada e expert sobre a festa baiana. Desde 2007 organiza grupos para quem quer literalmente se acabar em Salvador. “Para ir, são precisos quatro requisitos: dinheiro, tempo, gostar do Carnaval e ir acompanhado de quem também curte a folia”, diz.
Os grupos se formam por meio da indicação de quem foi e gostou. O que funciona é o boca a boca. “Ofereço um pacote totalmente vip e inesquecível que inclui apartamento com excelente localização e empregada, alimentação, bebida, os melhores abadás e camarote. Essa mordomia carnavalesca fica em torno de 7 mil reais para mulheres e 12 mil reais para homens já incluindo a passagem aérea”, contabiliza Leonardo. O grupo deste ano já está fechado e de malas prontas. São nove pessoas em quatro apartamentos. “Todos têm mais de 30 anos e sem vícios, quer dizer, apenas um: a cerveja gelada para suportar tanto axé e folia.”
São dois os principais circuitos de Salvador, o mais antigo, de Campo Grande, que acontece na cidade histórica (Pelourinho) a partir de domingo e o Barra-Ondina mais novo, com Carnaval de quinta a terça. São cinco quilômetros de folia na avenida por onde desfilam os trios elétricos seguidos pelos foliões que são protegidos pelos cordeiros, seguranças que evitam que a pipoca (foliões sem abadá) invada o bloco.
Além dos famosos trios elétricos, há os independentes que não cobram nada e fazem a alegria da galera. O ecletismo da Bahia se reflete também no Carnaval em que a riqueza de tambores e afoxés do Olodum, famoso internacionalmente, se confunde com o axé e o pagode. Festa plural de sonoridade e tribos.
Igualmente famoso é o bloco Afoxé Filhos de Gandhy, com 8 mil integrantes e que se apresenta no domingo e na terça no circuito Batatinha (Centro Histórico) e na segunda no circuito Barra-Olinda. Criado em 1949, o bloco de afoxé segue os preceitos do candomblé e usa basicamente três instrumentos: atabaque, agogô e cequerê. O lema é a paz, seguindo os preceitos do indiano Mahatma Gandhi. Este ano serão homenageados Carlinhos Brown e Gilberto Gil e as mulheres que ganham ato contra a violência.
Uma advertência: o Carnaval de Salvador pode viciar. É o que confessa a empresária Ana Gutierrez que nos últimos 10 anos se esbalda na folia baiana. “Sou suspeita para falar porque amo axé, o ritmo, a alegria das pessoas e, principalmente, a confusão dos camarotes, blocos e trios. Mas excepcionalmente este ano, estou com o coração partido porque não vou poder carimbar meu passaporte do samba. Por outros compromissos vou me privar do alto astral da Bahia. Não existe nada igual.”
Cheia de expectativa, a médica Bárbara Helen Nascimento dos Santos, 26, conta os dias para a folia. “Vou pelo axé, pelo Asa de Águia, pelo Chiclete com Banana e pela música eletrônica. Depois de me acabar durante seis dias de folia vou curtir a ressaca em Morro de São Paulo”, entrega.