Quarta, 23 de Maio de 2012
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Caiu na rede...

...é bem provável se tornar uma bola de neve. daí pode surgir uma avalanche mobilizadora e até uma ingênua anedota

Texto: Raquel Ayres | Fotos: Daniel Teixeira/ AE, Frederico Rozário/ TV Globo, Nélio Rodrigues e arte de Paulo Werner


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Luiza - a que estava no Canadá, lembra? – está cogitando fazer supletivo. Não deu para a estudante de 17 anos concluir o intercâmbio desde que seu pai, o colunista social Geraldo Rabello, mencionou, num comercial, que ela estava fora do país. Daí em diante foram mais de 6 milhões de visualizações da propaganda no Youtube. A expressão “Luiza, a que estava no Canadá” virou bordão e em uma semana ela conquistou mais de 7 mil seguidores no Twitter. Também  já deu entrevista na Rede Globo, foi cogitada como participante do programa BBB e seu pai é o novo garoto-propaganda da Vivo. Também rola o cochicho que está emancipada para poder aceitar propostas de posar nua.  

“Quem não ficou sabendo desta bobagem? De tanto ler Luiza no Canadá acabei assistindo ao vídeo da propaganda para entender”, conta a arquiteta Adriana Feitosa de Toledo Machado, usuária frequente do Wikipedia, Facebook e Youtube. Adriana, como muitos que estão na rede, acabou reencontrando colegas de colégio, formando grupos fechados, defendendo causas que lhe interessam, postando fotos, links e também buscando informações cotidianas. “Há 15 dias eu ia viajar e uma amiga postou que havia enorme engarrafamento na rodovia. Lógico que adiei a viagem para o dia seguinte. Mas sei de casos de pessoas que até arrumam emprego!”

Uma bola de neve. É a expressão que dá a medida do que as mídias sociais têm provocado, uma vez que funcionam com dinâmica própria. “Elas criaram um novo modelo de interação, de organização e até de valores mediados pela tecnologia e potencializados por fenômenos que incluem o boca a boca e a viralização”, explica a consultora de comunicação e negócios em mídias digitais, Cátia Lassalvia. “Isso mudou a vida da gente.” 


Luiza: celebridade instantânea faz presença vip em festas e posa para fotos e autógrafos
Luiza: celebridade instantânea faz presença vip em festas e posa para fotos e autógrafos

E onde isto vai parar? Só Deus sabe. Mas até pode ser na prefeitura de Belo Horizonte, onde foram repercutir os posts de protestos que choveram no Facebook, relativos ao aumento de 61% no salário dos vereadores. Ainda um pequeno grupo organizou-se a partir do mundo virtual, ganhou as ruas do centro da capital e, munidos de apitos, foram protestar. No dia 23 de janeiro o prefeito Marcio Lacerda vetou o aumento e o resultado da mobilização via rede foi assunto da revista Veja de 1º de fevereiro. Internautas também criaram o site nãovaiderrubar.com, que fiscaliza a opinião dos vereadores acerca do veto. Com fotos e tudo. 

Luiza, do Canadá para o Brasil, também sabe o que é o poder das redes sociais. A prova são os cachês de até 15 mil reais faturados para fazer presença em festas – pelo menos até que venha a piada seguinte.

Já para o modelo Daniel Echaniz, a piada não teve nenhuma graça. Ele foi eliminado do BBB 12 depois que pipocaram no Twitter protestos indignados por sua conduta de suspeita de estupro de uma colega. O tópico danielexpulso chegou a contabilizar 116 mil menções. O Ministério Público interveio e a enxurrada de comentários negativos foi tamanha que a direção do programa expulsou o rapaz. 

Bicicletada: o movimento se organizou a partir das redes sociais para incentivar o uso de transporte não motorizado nos centros urbanos
Bicicletada: o movimento se organizou a partir das redes sociais para incentivar o uso de transporte não motorizado nos centros urbanos

 Não há limites para o que pode ser discutido pelas redes socaisi. Temas agradáveis à população resultam em mobilizações por causas bastante nobres. Como o movimento Massa Crítica, surgido na Califórnia em 1992 e já espalhado por 300 cidades do mundo que prega o uso da bicicleta como meio de transporte predominante. Por aqui deu origem ao Bicicletada e reúne, toda última sexta feira do mês, adeptos também do skate, patins ou qualquer meio de transporte não motorizado. É o ativismo ao estilo do faça seu próprio movimento. 

Indo mais fundo, a bola cresceu, rolou e despencou na cabeça do ditador egípcio Hosni Mubarak, após quase 30 anos no poder. Segundo especialistas, a nova geração usou a internet e as redes sociais para o ativismo político. A morte do também ditador Muamar Kadafi, da Líbia, invadiu o Twitter no dia 20 de novembro de 2011 e esteve em primeiro lugar dos Trending Topics mundiais por cerca de quatro horas. “Em momentos como este é possível observar estudantes americanos compartilhando pensamentos com jovens do mundo árabe. São ideias que se espalham mundo afora, independente de etnia, cultura ou comportamento”, avalia o analista de mídias sociais Fernando Leroy. Nada mais tem fim ou fica encoberto. Os debates políticos, por exemplo, encerrados nas TVs, continuam nas redes sociais. “Homens públicos com tabus serão desmascarados, mentiras serão desvendadas. Não há mais espaço para sigilo. Tudo virá à tona”, pontua Leroy.

“Se a revolução virtual ainda não está concretizada, está por acontecer”, assegura a socióloga e professora de ciências políticas Angela Albuquerque. Para ela, a agilidade das  informações garante a rápida mobilização e, consequentemente, a concretização de ações. “O fato das pessoas, muitas vezes, não precisarem sair de casa faz com que protestar seja mais cômodo.” Tina Rosenberg, autora do livro Join the Club: How Peer Pressure Can Transform the World (tradução do título, ainda não disponível no Brasil, Junte-se ao Clube: Como a Pressão Social pode Transformar o Mundo) diz que as causas das redes sociais passaram a ser nossas principais formas de conexão, o que explica a disposição das pessoas integrarem movimentos, colaborarem umas com as outras, compartilharem ideias. “É o que chamamos de crowdsourcing, pois as pessoas estão, por meio de suas intervenções, contribuindo para gerar melhorias”, analisa Leroy.

Daniel Echaniz: expulso do BBB 12 depois de protestos no Twitter
Daniel Echaniz: expulso do BBB 12 depois de protestos no Twitter

Gerar comentários, construir uma reputação por meio das redes sociais. Também colaborar e criar conteúdos. Caso do artista plástico Erik Fontes, criador do personagem Sr. Skull, um crânio falante que dá o ar da graça no Youtube. “Ele incita as pessoas a interagir por meio de uma pergunta. O caso da Luiza, por exemplo, serviu para reflexões até mesmo sobre a necessidade de se ter determinado talento para virar celebridade. Pessoas que são eleitas para tais finalidades sem nem mesmo terem controle sobre”, pontua Fontes. 

Com intuito de dar sua colaboração, a advogada Simone Rocha Campos, 48, criou o post Minas - Acorda Brasil “O povo não pode se permitir ser tão roubado. Ou acreditar neste ou aquele político porque seu programa eleitoral na TV tem mais recursos. Não se pode aceitar tudo. As pessoas têm que ver o que o cara faz”, afirma. “Creio que nossas fronteiras estão ampliadas pois as mídias socais nos dão maior poder de intervenção. Um grupo sempre vai puxando o outro e pode até mudar nossa maneira de pensar.” 

Segundo o psicanalista Pedro Castilho, constatações como a que faz Simone mostram que as mídias sociais estão muito mais fortes do que podíamos imaginar também porque não há mais necessidade de vinculação de ideais às instituições políticas ou religiosas. “Correspondem, no mundo contemporâneo, ao que os gregos denominavam Ágora.”Este espaço era público e central na vida da Grécia. Era onde o cidadão encontrava-se com o outro fosse para trocar mercadorias ou para discutir política; espaço de cidadania. 

Na rede, estamos concretizando os 15 minutos de fama a que o artista plástico Andy Warhol se referiu. Somos sujeitos à observação e julgamento a partir do que se posta, envia, do que se curtem. Igualmente estamos aptos a emitir opiniões que se pulverizam e espalham sem a interferência dos grandes grupos midiáticos, em proporções nunca vistas

Luiza no Brasil

  • Estourou dia 17/01 no Twitter e  atingiu o pico à 1h da manhã do dia 19/01.  
  • Mais de 6 milhões de pessoas assistiram, nas mídias sociais, à propaganda que deu início ao fenômeno Luiza no Canadá
  • Ao digitar Luiza no Canadá no Google, aparecem 2.930 páginas
  • Até música foi criada para Luiza no Canadá. O vídeo referente teve 1,343 milhões de views em duas semanas. Luiza foi tema de concurso público para a vaga de técnico municipal em nutrição, para a prefeitura de Jaboticabal, no interior de São Paulo
Simone Campos: redes sociais para falar de política
Simone Campos: redes sociais para falar de política

Maiores redes sociais do mundo

  1. google.com l 150,132,536  l -0.34%
  2. facebook.com l 137,917,539 l 13.33%
  3. yahoo.com l 137,281,886 l 2.02% 
  4. youtube.com l 123,404,304 l  22.42% 
  5. bing.com l 86,836,886 l 48.43% 
  6. wikipedia.org l 81,157,591 l 6.01% 
  7. amazon.com l 74,978,780 l 12.71% 
  8. msn.com l 73,799,209 l 8.95% 
  9. live.com l 72,369,485 l  4.21% 
  10. ebay.com l 67,372,294 l  -10.04% 

Fonte: Compete, de monitoramento de visitas a websites. 2011

Erik Fontes criou personagem que incentiva interação por meio de perguntas
Erik Fontes criou personagem que incentiva interação por meio de perguntas

Etiqueta na rede

  • Cuidado com erros de português
  • Jamais fale mal do seu chefe
  • Jamais fale mal da sua empresa
  • Seja criterioso ao compartilhar imagens 
  • Limite o número de twitadas diárias 
  • Reflita se o que você posta é relevante
  • Não se faça de engraçadinho o tempo todo
  • Não use as redes sociais como diários
  • Não responda tópicos de pessoas que não são suas amigas
  • Evite religião e política
  • Aprenda a usar a simbologia própria
  • Evite mandar mensagens para vários amigos ao mesmo tempo
  • Só atribua frases a alguém quando tiver 100% de certeza da autoria
  • Diga não também

Fonte: revista VIP, fevereiro 2012, editora Abril


 
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