Arte para educar, para divertir, para ressocializar ... São várias as funções da criação artística. No caso de Marcos Garcia, 61, é a força que o move a trilhar a vida. Com 34 anos de carreira e portador de artrite reumática há mais de cinco décadas, o artista produz obras em lápis de cor sobre papelcartão no apartamento onde vive, no bairro São Benedito, em Santa Luzia, região metropolitana. Não consegue mais trabalhar em pé; desenha deitado. Mas a doença, que dificulta os movimentos, não compromete as criações.
“Comecei a desenhar na infância, quando passava a maior parte do tempo na cama. Não frequentei a escola e só comecei a andar e sair de casa aos 25, quando encontrei tratamento. Nessa época, comecei a pintar por intuição. Nunca tive conhecimento de arte e museus.” Descoberto no circuito artístico de BH pela falecida crítica Mari’Stela Tristão, Garcia frequentou cursos, realizou exposições, ganhou prêmios e tem obras no acervo de grandes colecionadores.
Os primeiros trabalhos eram pinturas, mas as dificuldades físicas o levaram, em 1995, a trocar a técnica. Hoje, ele faz desenhos em cores ou em singelos traços negros de personagens que retratam o cotidiano: crianças a brincar, mães que cuidam dos filhos, pescadores e vendedores ambulantes. Também cria traços imaginários das culturas incas, maias e astecas.
A última exposição, em 2008, comemorou os 30 anos de carreira. Um ano depois, ele se submeteu a cirurgia, mas não pôde mais se locomover. “Sinto falta de ir às galerias e ver os amigos”, diz, lembrando da alegria de receber um telefonema do pintor Carlos Bracher.
Amigos, aliás, não faltam em sua trajetória, como o moldureiro José Paulo Agrello. “Os trabalhos de Garcia nos mostram toda força e energia desse Davi, que faz de seus lápis e pincéis a funda, com a qual derrota os Golias que insistem em lhe rondar a existência”, diz Agrello. Indagado se deseja outra exposição, Garcia alega falta de força física. “Tomo remédios à base de morfina para conter as dores e há dois meses espero consulta pelo SUS”. Seu maior sonho é lançar um livro de arte narrando sua trajetória. Impossível? Para a força que superou tantas agruras, com certeza, não.