"Na política, como na bem-aventurança celeste, muitos são os chamados e poucos os escolhidos." - Olavo Bilac
O ex-presidente Lula, o maior ganhador das campanhas eleitorais contemporâneas, capta sinais por puro instinto, e, sem rodeios, impõe, uma vez mais, sua vontade pessoal ao PT, ao desamarrar os nós górdios da política paulista e costurar a candidatura do ministro Fernando Haddad à prefeitura de São Paulo. O PSDB, como nos últimos pleitos, patina.
O ex-presidente FHC assegurou, em Buenos Aires, que “é mais fácil falar sobre o futuro do euro do que falar sobre o futuro do PSDB, sobretudo em São Paulo”. De fato, a oposição brasileira está desarticulada e, de tão fraca, praticamente obriga a imprensa a se comportar como partido político, na visão de muitos. E, quando isso ocorre, o chamado quarto poder se mete a pautar governos, esquecendo-se de suas atividades principais: defender a liberdade de expressão, estimular o debate das reformas, notadamente, econômicas e políticas, contribuindo no plano das ideias. Esse é um movimento perigoso, principalmente porque muitos parlamentares e religiosos detêm o comando, no ramo das comunicações, de redes ou emissoras, moldando os seus movimentos aos interesses particulares que representam.
Os cardeais da política de São Paulo, de todos os partidos, tentam cabrestear o restante do Brasil, impondo-nos seus candidatos. Após o período dito revolucionário, iniciado em 1964, somente o PSDB nos apresentou, sucessivamente, os seguintes candidatos paulistas à Presidência da República: em 1989, Mario Covas; em 1994 e1998 Fernando Henrique Cardoso, e, a partir daí, José Serra e Geraldo Alkmim. É mais que chegada a hora de diversificação. Interessante lembrar que Lula da Silva, do PT paulista, é o recordista, com cinco vezes seguidas, de candidaturas à Presidência. Essa hegemonia já está causando uma tendência de voto antipaulista, ainda mais diante da insistência de José Serra, que se projeta como eterno candidato, por não ter mais nada a perder, exceto sua empáfia. O ninho tucano em São Paulo é marcado por fortíssimas rivalidades, e essa desordem repercute, também, no plano nacional.
Apesar de ser mineira de nascimento, a atual presidente veio do Rio Grande de Sul, e sua candidatura só foi possível a partir do momento em que Lula viu ruir suas esperanças em nomes com militância na pauliceia, a exemplo de José Dirceu e Antonio Palocci. Ela pode pleitear a reeleição ou pavimentar o retorno de Lula. Sobram, além dos tradicionalíssimos Serra e Alckmin, candidatos por São Paulo, o mineiro Aécio Neves e o pernambucano Eduardo Campos. A hipótese Marina Silva perde substância, a esta altura.
O PMDB, por tradição, prefere alianças, e o DEM agoniza visivelmente. Aproveitando a tendência de voto antipaulista, e o fato de que dois tucanos não se bicam, não me surpreenderia se o mineiro Aécio Neves, em nome de pacificação do PSDB nacional, voltasse a disputar o cargo de governador por Minas Gerais, abrindo caminho para o estreante professor Anastasia enfrentar a presidente Dilma ou o ex-presidente Lula. Certamente, com a vasta cultura que ampara sua vocação para o debate, ele não cometeria os mesmos erros de Serra, que não ousou atacar Lula, nem teve a solidariedade de defender FHC no último pleito. Difícil de acontecer essa hipótese? Como diria o prussiano príncipe Otto von Bismarck, um dos mais importantes líderes do século 19: “A política é arte do possível”.