O ano de 1947 foi um ano de grandes realizações e perspectivas para mim. Com 10 anos de idade, concluía o curso primário e me preparava para o exame de admissão no Colégio Estadual. No Natal daquele ano, recebi de presente de meus pais meu primeiro livro: Winnetou. Um romance extraordinário, escrito pelo alemão Karl May, que contava as aventuras de um índio apache norte-americano. Os princípios éticos e humanos da tribo eram retratados de uma forma que muito me impressionou. Ganhei os outros três volumes e não podia imaginar como os livros iam fazer parte tão importante de minha vida. Das obras de Karl May para a literatura brasileira foi um salto muito rápido. Comecei por Monteiro Lobato e logo cheguei a Machado de Assis e Guimarães Rosa. No Colégio Estadual, o professor Otoniel Beleza me incentivou mais ainda. E, no Colégio Marconi, onde fiz o científico, o professor Emanuel Sampaio me deu o empurrão final. Ao longo de 64 anos, foram mais de 3 mil livros. Tenho muito orgulho de minha biblioteca.
Mas não foi tudo. Aos 18 anos, procurei um emprego de vendedor na editora Globo, cujo gerente em Belo Horizonte era o senhor Mercezino Fonseca. Por uma feliz coincidência, era ele pai de um ex-colega no Estadual, José Alberto Fonseca. Pedi a ele uma interferência junto ao pai. Consegui o emprego. Não só passei a ler mais como também ganhava dinheiro com os livros. Trabalhei cerca de três anos como vendedor. Visitava as grandes repartições estaduais e federais. Grandes bancos. Prédios de escritório. E era muito bem recebido à época. Hoje alguns prédios colocam avisos em suas portarias com dizeres tais como: “É proibida a entrada de mendigos, cachorros e vendedores de livro”. Não entendo a referência aos cachorros. Triste, não?
Participei ativamente da primeira e da segunda Feira do Livro de Belo Horizonte, organizada pelos irmãos Moreira, da antiga livraria Itatiaia, na rua da Bahia. Trabalhava duro, mas o dinheiro começou a crescer. Graças a isso, me foi possível comprar a primeira geladeira para meus pais e irmãos. E depois também uma eletrola estéreo Telefunken. E veio também meu primeiro veículo: uma lambreta adquirida na Casa Arthur Haas. Descobria minha vocação: ser vendedor. Com muito orgulho, já não precisava da ajuda de meu pai, que jamais me faltou. Agora, ao contrário, podia ajudá-lo nas despesas e também aos meus irmãos.
Minha biblioteca continuava a crescer. Proust, Balzac, Stefan Zweig, Érico Veríssimo, os grandes escritores mineiros. Os autores policiais Georges Simenon, Agatha Christie, John Le Carré, entre tantos estrangeiros. Um brasileiro do gênero: Rua do Quenta Sol. Os grandes poetas brasileiros. E portugueses também. E foi lendo os romances em torno da Justiça que me decidi por meu curso superior: o de Direito. E entra, então, a literatura jurídica, ampliando meu conhecimento e me permitindo ler os grandes filósofos do direito.
A capacidade de ler, percebo, tem uma velocidade adequada a cada idade. Continuo lendo, não mais com o mesmo desempenho, mas com um prazer maior ainda.
Infelizmente, o hábito da leitura está em decadência no Brasil. Jovens e adultos mal leem uma revista semanal ou um jornal diário. E, não lendo, não falam e tampouco escrevem corretamente. Alguns chegam a ler, mas sem entender. Nas escolas, salvo as chamadas honrosas exceções, a leitura não é estimulada. Discursos de políticos, e o Brasil já teve grandes oradores no Congresso e em algumas assembleias, são verdadeiros crimes cometidos contra a língua portuguesa. E mesmo nossa presidente não é o melhor exemplo. O ex, então, nem se fala.
Salva-se, enfim, o jornalismo brasileiro, no qual pontua um dos maiores especialistas em educação, Cláudio Moura Castro, a clamar sempre pela melhoria de nosso ensino, que acaba de conquistar um lamentável troféu: o último lugar entre 83 países avaliados internacionalmente.