Sexta, 10 de Fevereiro de 2012
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Mercado de Trabalho

Feiúra Atrapalha

Em tempos de valorização exacerbada à estética, a beleza é (de forma bem discreta)pré-requisito para se contratar

Texto: Raquel Ayres | Fotos: Kaystone


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Não é novidade que o mercado de trabalho é cruel. Como se não bastasse falar idiomas, dominar sucessivas tecnologias e fazer cur­sos vida afora numa maratona, ainda há que ser bonito, via de regra, para competir neste universo de ternos e tailleurs. De acordo com a pesquisa Beauty and Labour Market (Beleza e Mercado de Trabalho), as pessoas ditas feias têm salários de 5% a 10% menores. Como assim, se a beleza é subjetiva e sempre se disse que não põe mesa? Será o caso, a partir de agora, de usarmos o espelho, espelho meu, como ferramenta essencial para conquistar um emprego?

Ainda que pareça exagero, quem não se encaixa em rígidos padrões estereotipados, onde o belo é essencialmente alto, magro, de formas bem trabalhadas e branco, pode sentir-se discriminado. Não é à toa que a professora de história L.E.G.M. afirma, enfática: “Acredito que a beleza é, sim, diferencial competitivo no mercado de trabalho. E quem contrata acha que somos as vitrines das empresas”. Antes da cirurgia de redução de estômago – perdeu 55 quilos – ela sentia certo descrédito por parte de colegas. “Hoje percebo outro respeito. O feio não tem lugar, as pessoas rotulam.”

Se nos anos 1960 a intenção, principalmente feminina, era impor-se pela inteligência, a partir dos anos 1980 a aparência tornou-se fator estratégico por conta do processo da estetização. Na prática significa a supervalorização do belo, que se reflete inclusive no mo­do como os profissionais são selecionados. “Valoriza-se aquele que é capaz de seduzir também pela aparência. E a novidade é que o homem feio passa a ser mais desvalorizado. Ser muito feio significa estar sob a mira de um estigma, em posição de desvantagem”, avalia o sociólogo Euclides Guimarães Neto. 

Quando se fala em trabalho, aspectos como competência e produtividade são imprescindíveis. Mas ainda assim a beleza física se constitui num facilitador que outorga poder. Uma pessoa bonita e competente terá certamente mais acesso ao mercado. As reconhecidamente feias, em algumas situações, terão que se empenhar mais para alcançar seu objetivo. “Ser feio não é simples. Principalmente em um tempo em que os valores morais estão em queda livre, a beleza estética e o supérfluo imperam”, considera a psicanalista Márcia Álvaro.

O site de relacionamento Orkut traz nada menos que 382 membros relacionados na comunidade Feiúra e Depressão. Não faltam depoimentos sobre discri­minação no trabalho. Marta Medeiros, de Ribeirão Preto, relatou. “Sou cabeleireira e vi num anúncio de jornal um salão que procurava profissionais. A recepcionista me levou à gerente e, meu Deus! Quando me viu, ficou sem palavras... se enrolou toda para dizer que não estava contratando mais. Foi um balde de água fria.” Com o codinome Insatisfeita, outra narrativa se repete: “Fui discriminada no emprego. Odeio este lugar em que mais vale a sorte de ter nascido bonito do que a competência para ser eficiente, honesto, boa índole.”

A professora de administração especializada em gestão de pessoas e mercado de trabalho Débora Baren acredita que ter a personalidade atraente é que importa, ser firme, falar bem. “O problema é não ter auto-estima, porque aí vem a insegurança para se expor. É preciso que o feio não se ache feio porque todos têm condição de dar algo de bom. Além do mais é antiético escolher alguém tendo a beleza como principal critério. O importante é focar em competências.”

A psicóloga Tânia Guimarães Pompeu, que desenvolveu tese de mestrado em Alienação Estética no Nosso Tempo considera que, se a estética é valor para o ser humano, não deve ser discriminatória.“Estamos sempre achan­do defeitos em nós mesmos. Mas as pessoas têm que ser valorizadas como são e no que fazem de melhor. No entanto, a pessoa com baixa autoestima se inibe e pode até perder boas oportunidades de trabalho.”

No cuidado com a aparência pode estar a chave para se adquirir aquele algo mais. A especialista em etiqueta social Agni Melo afirma que a primeira avaliação a que somos submetidos é a estética. Portanto, roupas adequadas, postura elegante, articulação podem fazer toda a diferença no universo profissional. “O bom português, a posição física dizem a que o profissional vem. Transmitir imagem de saúde é importante, uma vez que o mercado exige rapidez, urgência. Sem falar na educação, que conquista e abre portas.”


 
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