Quinta, 09 de Fevereiro de 2012
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Reportagem

O Valor da Fé

Santuário de Nossa Senhora, em Aparecida do Norte (SP), movimenta mais de 30 milhões de reais por ano graças aos 26 mil fiéis em média que passam por lá diariamente

Texto: Eliana Fonseca | Fotos: Daniel de Cerqueira


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A exceção da imagem de Nossa Se­nhora Aparecida, que mede 39 cm, o que move o Santuário Na­cio­nal são os superlativos. A engrenagem que começou exclusivamente por causa da fé, hoje não pode se desvincular dos números que giram um comércio gigantesco na cidade que fica a 173 km da capital São Paulo. Os mes­mos fiéis que de joelhos rogam pela intervenção da Pa­droeira do Bra­sil, movimentam mais de 30 milhões de reais por ano somente no santuário, em doações e compras de objetos religiosos e lembranças. O divino e o profano se integram em total harmonia na Meca brasileira.

A demanda é realmente gigantesca. Peregrinos de diversas partes do Brasil somaram qua­se 9,5 milhões em 2008. Só numa semana de abril deste ano, o local recebeu 270 mil pessoas. Semelhante a um formigueiro, esses visitantes es­tão em todos os lugares: há filas para visitação à imagem original da san­ta, banheiros, missas, restaurantes, até mesmo para anunciar perdidos e achados. Eles movimentam também a economia da cidade:  99% da população – segundo estimativas da prefeitura da cidade – dependem direta, ou indiretamente, do santuário que é o maior empregador com seus 1.211 funcionários.  As despesas mensais ficam em 1,5 milhão de reais. Tudo parece seguir a lógica da grandiosidade: o tamanho da Basílica Nova, o maior templo Mariano do mundo, impressiona: 23 mil m2 de área construída em estilo neo-românico e mais 272 mil m2 de estacionamento.

É neste cenário que uma massa de visitantes parece desconhecer a crise econômica, apesar de o ecônomo do santuário, padre Darci Nicioli, afirmar que 2009 deve ser um ano diferente. Não pela queda de visitantes. “Se a vida das pessoas está boa, elas agradecem, se não, vêm pedir”, afirma. Mas, a renda per capita da igreja, que no ano passado estava em 2,6 reais por fiel visitante, deve diminuir por causa da cri­se. “As pessoas estão diminuindo as compras e a projeção é que a igreja receba menos doações”, diz.

O argumento que o padre utili­za para isso é irrefutá­vel: a arrecadação destes primei­ros meses do ano. Mas, a julgar pelo vai-e-vem dos fiéis por to­das as lo­jas e as sacolas em seus braços, a lógica é que o comércio vai muito bem, obrigado. É possível gastar me­ros 0,50 centavos ou bem mais de mil reais. Há velas a metro para pedidos de orações, uma infinidade de produtos e brinquedos da China, eletroportáteis, ou­tros tantos milha­res de escapulários, terços, orações, e até noivas procurando vestidos de casamen­to.

A romeira Luciene Alves dos San­­tos, 32, vai se casar no final deste ano. Moradora de São José dos Campos, que fica a pouco menos de uma hora do Santuário, é visitante assídua. Já perdeu a conta de quantas vezes foi à cidade. Ela entra apressada no bazar e começa a olhar algumas dezenas de vestidos de noiva com preços que variam entre 30 a 1,2 mil reais. Um modelo na vitrine chama a atenção. Ele está amarelado, sujo na bar­ra e um pouco largo no busto e cintura. Num misto de felicidade e alívio, Lu­ciene é taxativa: “Achei o vestido do meu casamento.” Pagou  900 reais no bazar e voltou satisfeita para casa. “Depois que usá-lo, volto na Basílica para nova doação”, diz.

Parece exagero, mas é quase impossível ao fiel não sucumbir ao apelo do consumo. Tome-se o e­xem­­plo de quem veio à santa pedir a cura de uma doença, agradecer. Há espaço específico do San­tuá­rio, a Casa das Velas, que como o próprio nome indica vende uma infinidade de modelos: há desde aquelas que imitam órgãos, e são oferecidos à santa para a cura da doença, como pés, mãos, vesículas, fígado, seios, cabeças, até as tradicionais em metro. Somente nu­­ma manhã de domingo, a gerente do espaço, Elda Débora Dan­tas Ferreira, contabiliza mais de mil unidades de velas de próteses vendidas e  15 mil reais em metros. “E só conseguimos aten­der 7% das pessoas que frequentam o santuário”, afirma. 

O céu também parece ser o limite no Centro de Apoio aos Romeiros, com quase 400 lojistas, tamanha a profusão e preços de produtos. Espécie de shopping popular, as lojas com tamanhos entre 9 m² e 100 m², pagam aluguéis para a Basílica. O gerente administrativo Márcio Balieiro não fala em arrecadação e diz que o preço do aluguel pode variar entre 800 e mil reais. “Estima-se que 80% dos frequentadores do santuário  venham ao  centro para compras. Mas não temos como saber o faturamento dos lojistas”, explica.
Informação que não confere com a do gerente do restaurante Sagrada Família, Alexandre Braz de Araújo. Ele serve mil refeições em dias movimentados a 7 reais o prato. “Não tenho como falar o valor do aluguel porque depende do nosso faturamento que repassamos à administração para o cálculo. Mas, geralmente, nossa média mensal de aluguel é de 15 mil reais”, diz.  Mes­mo lojas pequenas como a J.F. Presentes, com seus pouco mais de 20 m² de área chegam a pagar 2,3 mil reais mensalmente pelo aluguel. O gerente do espaço, Vlad de Paula Santos, utiliza expressões como “correr atrás” para conceituar o atual momento da loja. O investimento para o negócio, aberto em setembro do ano passado, chegou a 80 mil reais. “Isso aqui é a realização de um sonho. Todo mundo quer abrir um negócio próprio”, afirma. E o público segue num vai-e-vem frenético. A aposentada Virgínia Martins da Silva comprou oito velas de metro e está levando uma infinidade de lembrancinhas para os filhos e os netos. Faz duas visitas por ano a Aparecida e desta vez gastou 50 reais. “Se tivesse mais, teria comprado. Tenho muita fé em Nossa Senhora. Fumei por mais de 40 anos e ela fez com que me livrasse do vício”, conta. Para a igreja, promete deixar 10 reais em doação.

Há determinados momentos do dia, que o santuário parece ficar pequeno, mesmo com sua capacidade para 75 mil pessoas. Se a opção for sair um pouco do espaço e passear pelas ruas de Aparecida, a sensação de multidão é a mesma. As barracas tomam quase todo o espaço da rua e tal qual o tráfego precisam de mão e contramão. Deixam um espaço mínimo para o pedestre e os carros. As informações de quanto esse comércio de rua movimenta, de quanto o turista gasta por dia em Aparecida, dos mapas dos melhores hotéis – entre os 157 da cidade, que oferecem 30 mil leitos – tudo é impreciso. “O comércio cresceu desordenadamente, sem planejamento. Temos poucas informações”, afirma o secretário de turismo da cidade, Diego Samahá.
Enquanto constrói um plano pa­ra ordenar essas informações e fomentar o turismo nos próximos seis meses, Samahá sonha com outra possibilidade que pode render ain­da mais turistas para a cidade: há lobby forte da igreja, prefeituras da região, para que o trem-bala – linha de alta velocidade que ligará São Paulo ao Rio de Janeiro – tenha uma parada em Apa­recida. “Estamos 8
na expectativa para que a cidade seja incluída no trajeto de paradas. Estivemos com o governador José Serra em abril e reforçamos esse pedido”, diz o padre Darci Nicioli.

Enquanto o trem-bala figura no campo dos desejos, há pelo menos dois projetos que estão bem concretos. O santuário deve aumentar sua área em mais 10 mil m² graças à compra do empreendimento Magic Park Aparecida e também inaugurar, no próximo ano, o Centro de Eventos Culturais e Esportivos Padre Vítor Coelho de Almeida e acrescentar quase 15 mil m² a sua área construída. “Além dessas no­vas obras, temos um contingente de 120 homens que trabalham continuamente na manutenção do san­tuá­rio”, observa o padre Darci.

Logo na entrada, uma senhora de 69 anos, a viúva Minervina Apa­recida da Silva, assiste a esse crescimento como viu os que movimen­taram o local nos últimos 42 anos. É o tempo de trabalho na porta da Basílica, como vendedora ambulante de terços e orações dedicados à Nossa Senhora. Minervina só trabalha aos sábados, domingos e feriados, e chega a vender mais de 30 terços por dia de serviço. A renda fica em torno de um salário mínimo, que diz, ajudou a criar as duas filhas. “Vou continuar aqui até morrer”, diz sorridente debaixo de um guarda-chuva usado para se esconder do sol.

Ninguém duvida que motivos e público não faltem para que dona Minervina fique mais alguns anos neste trabalho. Ainda não há perspectiva de qual o percentual de aumento de visitantes com todas es­sas mudanças, mas a expectativa é que Aparecida se transforme no maior santuário do mundo. Se bem que para o padre Darci Nicioli esse feito já é do Santuário Nacional. Ele torce o nariz quando há comparações de Aparecida com outros santuários mundiais. “Falam em 18 milhões de visitantes no Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe e 14 milhões para o do Padre Pio. Eu conheço esses santuários e sempre me pergunto: qual a metodologia que utilizam para chegar a tais números? Eles não têm a menor infraestrutura. Acho improvável que recebam tantos visitantes.”

No caso de Aparecida, para se chegar ao número de peregrino, a contagem é rápida. Segundo o pa­dre Darci, os funcionários que cobram as diárias de estacionamento – 9 reais para carros e 28 para ônibus – também são os responsáveis por contar o número de pessoas presentes dentro dos veículos. “Não trabalhamos com estimativas. Nossos números são concretos”, diz o administrador. Os que chegam a pé são muitos e não entram na conta. Padre Darci parece mesmo ter razão: são fiéis a perder de vista que colocam o san­tuário entre os maiores – senão o maior – em visitação no mundo. E que assim continue, amém!


Galeria de Fotos

Raio X do Santuário

  • Visitantes em 2008: 9.449.513
  • Arrecadação anual: R$ 30 milhões (estimativa)
  • Volume de doação per capita dos fiéis: R$ 2,6
  • Gasto mensal do santuário: R$ 1,5 milhão
  • Recorde de visitação em um único dia: 12 de outubro de 1996 – 215 mil romeiros
  • Capela das Velas: a cada final de semana são retiradas, em média, 10 toneladas de cera derretida no local
  • Centro de Apoio ao Romeiro: área construída de 46.350 m², com 330 lojas de comércio varejista, 36 quiosques
  • Funcionários: 1.211
  • Sanitários: 996
  • Ambulantes: 240 cadastrados e 125 senhoras que vendem terços e lembrancinhas
  • Segurança: 180 homens
  • Cerca de 85 mil fotos de devotos de Nossa Senhora ornamentam o teto da Sala de Promessas

Basílica Nova:

  • Cúpula central: 70 m de altura
  • Torre: 107 m de altura
  • Área construída: 23 mil m²
  • Área coberta: 18 mil m²
  • Telhado: 257 mil telhas
  • Estacionamento: 272 mil m², com capacidade para 2 mil ônibus e 4 mil carros
  • Tijolos: 25 milhões

Maiores santuários religiosos do mundo

  • Nossa Senhora de Guadalupe, Cidade do México – 18 milhões de visitantes  (2007)
  • Vaticano, Roma – 4 milhões de visitantes (2007)
  • Santiago de Compostela, Espanha – 6 milhões de peregrinos (2007)
  • Fátima, Portugal – 6 milhões (2006)
  • San Giovanni Rotondo (Padre Pio), Itália – 14 milhões de visitantes (2008)
  • Lourdes, França – 8 milhões de visitantes

(*) Fonte: Sites dos Santuários


 
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