A exceção da imagem de Nossa Senhora Aparecida, que mede 39 cm, o que move o Santuário Nacional são os superlativos. A engrenagem que começou exclusivamente por causa da fé, hoje não pode se desvincular dos números que giram um comércio gigantesco na cidade que fica a 173 km da capital São Paulo. Os mesmos fiéis que de joelhos rogam pela intervenção da Padroeira do Brasil, movimentam mais de 30 milhões de reais por ano somente no santuário, em doações e compras de objetos religiosos e lembranças. O divino e o profano se integram em total harmonia na Meca brasileira.
A demanda é realmente gigantesca. Peregrinos de diversas partes do Brasil somaram quase 9,5 milhões em 2008. Só numa semana de abril deste ano, o local recebeu 270 mil pessoas. Semelhante a um formigueiro, esses visitantes estão em todos os lugares: há filas para visitação à imagem original da santa, banheiros, missas, restaurantes, até mesmo para anunciar perdidos e achados. Eles movimentam também a economia da cidade: 99% da população – segundo estimativas da prefeitura da cidade – dependem direta, ou indiretamente, do santuário que é o maior empregador com seus 1.211 funcionários. As despesas mensais ficam em 1,5 milhão de reais. Tudo parece seguir a lógica da grandiosidade: o tamanho da Basílica Nova, o maior templo Mariano do mundo, impressiona: 23 mil m2 de área construída em estilo neo-românico e mais 272 mil m2 de estacionamento.
É neste cenário que uma massa de visitantes parece desconhecer a crise econômica, apesar de o ecônomo do santuário, padre Darci Nicioli, afirmar que 2009 deve ser um ano diferente. Não pela queda de visitantes. “Se a vida das pessoas está boa, elas agradecem, se não, vêm pedir”, afirma. Mas, a renda per capita da igreja, que no ano passado estava em 2,6 reais por fiel visitante, deve diminuir por causa da crise. “As pessoas estão diminuindo as compras e a projeção é que a igreja receba menos doações”, diz.
O argumento que o padre utiliza para isso é irrefutável: a arrecadação destes primeiros meses do ano. Mas, a julgar pelo vai-e-vem dos fiéis por todas as lojas e as sacolas em seus braços, a lógica é que o comércio vai muito bem, obrigado. É possível gastar meros 0,50 centavos ou bem mais de mil reais. Há velas a metro para pedidos de orações, uma infinidade de produtos e brinquedos da China, eletroportáteis, outros tantos milhares de escapulários, terços, orações, e até noivas procurando vestidos de casamento.
A romeira Luciene Alves dos Santos, 32, vai se casar no final deste ano. Moradora de São José dos Campos, que fica a pouco menos de uma hora do Santuário, é visitante assídua. Já perdeu a conta de quantas vezes foi à cidade. Ela entra apressada no bazar e começa a olhar algumas dezenas de vestidos de noiva com preços que variam entre 30 a 1,2 mil reais. Um modelo na vitrine chama a atenção. Ele está amarelado, sujo na barra e um pouco largo no busto e cintura. Num misto de felicidade e alívio, Luciene é taxativa: “Achei o vestido do meu casamento.” Pagou 900 reais no bazar e voltou satisfeita para casa. “Depois que usá-lo, volto na Basílica para nova doação”, diz.
Parece exagero, mas é quase impossível ao fiel não sucumbir ao apelo do consumo. Tome-se o exemplo de quem veio à santa pedir a cura de uma doença, agradecer. Há espaço específico do Santuário, a Casa das Velas, que como o próprio nome indica vende uma infinidade de modelos: há desde aquelas que imitam órgãos, e são oferecidos à santa para a cura da doença, como pés, mãos, vesículas, fígado, seios, cabeças, até as tradicionais em metro. Somente numa manhã de domingo, a gerente do espaço, Elda Débora Dantas Ferreira, contabiliza mais de mil unidades de velas de próteses vendidas e 15 mil reais em metros. “E só conseguimos atender 7% das pessoas que frequentam o santuário”, afirma.
O céu também parece ser o limite no Centro de Apoio aos Romeiros, com quase 400 lojistas, tamanha a profusão e preços de produtos. Espécie de shopping popular, as lojas com tamanhos entre 9 m² e 100 m², pagam aluguéis para a Basílica. O gerente administrativo Márcio Balieiro não fala em arrecadação e diz que o preço do aluguel pode variar entre 800 e mil reais. “Estima-se que 80% dos frequentadores do santuário venham ao centro para compras. Mas não temos como saber o faturamento dos lojistas”, explica.
Informação que não confere com a do gerente do restaurante Sagrada Família, Alexandre Braz de Araújo. Ele serve mil refeições em dias movimentados a 7 reais o prato. “Não tenho como falar o valor do aluguel porque depende do nosso faturamento que repassamos à administração para o cálculo. Mas, geralmente, nossa média mensal de aluguel é de 15 mil reais”, diz. Mesmo lojas pequenas como a J.F. Presentes, com seus pouco mais de 20 m² de área chegam a pagar 2,3 mil reais mensalmente pelo aluguel. O gerente do espaço, Vlad de Paula Santos, utiliza expressões como “correr atrás” para conceituar o atual momento da loja. O investimento para o negócio, aberto em setembro do ano passado, chegou a 80 mil reais. “Isso aqui é a realização de um sonho. Todo mundo quer abrir um negócio próprio”, afirma. E o público segue num vai-e-vem frenético. A aposentada Virgínia Martins da Silva comprou oito velas de metro e está levando uma infinidade de lembrancinhas para os filhos e os netos. Faz duas visitas por ano a Aparecida e desta vez gastou 50 reais. “Se tivesse mais, teria comprado. Tenho muita fé em Nossa Senhora. Fumei por mais de 40 anos e ela fez com que me livrasse do vício”, conta. Para a igreja, promete deixar 10 reais em doação.
Há determinados momentos do dia, que o santuário parece ficar pequeno, mesmo com sua capacidade para 75 mil pessoas. Se a opção for sair um pouco do espaço e passear pelas ruas de Aparecida, a sensação de multidão é a mesma. As barracas tomam quase todo o espaço da rua e tal qual o tráfego precisam de mão e contramão. Deixam um espaço mínimo para o pedestre e os carros. As informações de quanto esse comércio de rua movimenta, de quanto o turista gasta por dia em Aparecida, dos mapas dos melhores hotéis – entre os 157 da cidade, que oferecem 30 mil leitos – tudo é impreciso. “O comércio cresceu desordenadamente, sem planejamento. Temos poucas informações”, afirma o secretário de turismo da cidade, Diego Samahá.
Enquanto constrói um plano para ordenar essas informações e fomentar o turismo nos próximos seis meses, Samahá sonha com outra possibilidade que pode render ainda mais turistas para a cidade: há lobby forte da igreja, prefeituras da região, para que o trem-bala – linha de alta velocidade que ligará São Paulo ao Rio de Janeiro – tenha uma parada em Aparecida. “Estamos 8
na expectativa para que a cidade seja incluída no trajeto de paradas. Estivemos com o governador José Serra em abril e reforçamos esse pedido”, diz o padre Darci Nicioli.
Enquanto o trem-bala figura no campo dos desejos, há pelo menos dois projetos que estão bem concretos. O santuário deve aumentar sua área em mais 10 mil m² graças à compra do empreendimento Magic Park Aparecida e também inaugurar, no próximo ano, o Centro de Eventos Culturais e Esportivos Padre Vítor Coelho de Almeida e acrescentar quase 15 mil m² a sua área construída. “Além dessas novas obras, temos um contingente de 120 homens que trabalham continuamente na manutenção do santuário”, observa o padre Darci.
Logo na entrada, uma senhora de 69 anos, a viúva Minervina Aparecida da Silva, assiste a esse crescimento como viu os que movimentaram o local nos últimos 42 anos. É o tempo de trabalho na porta da Basílica, como vendedora ambulante de terços e orações dedicados à Nossa Senhora. Minervina só trabalha aos sábados, domingos e feriados, e chega a vender mais de 30 terços por dia de serviço. A renda fica em torno de um salário mínimo, que diz, ajudou a criar as duas filhas. “Vou continuar aqui até morrer”, diz sorridente debaixo de um guarda-chuva usado para se esconder do sol.
Ninguém duvida que motivos e público não faltem para que dona Minervina fique mais alguns anos neste trabalho. Ainda não há perspectiva de qual o percentual de aumento de visitantes com todas essas mudanças, mas a expectativa é que Aparecida se transforme no maior santuário do mundo. Se bem que para o padre Darci Nicioli esse feito já é do Santuário Nacional. Ele torce o nariz quando há comparações de Aparecida com outros santuários mundiais. “Falam em 18 milhões de visitantes no Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe e 14 milhões para o do Padre Pio. Eu conheço esses santuários e sempre me pergunto: qual a metodologia que utilizam para chegar a tais números? Eles não têm a menor infraestrutura. Acho improvável que recebam tantos visitantes.”
No caso de Aparecida, para se chegar ao número de peregrino, a contagem é rápida. Segundo o padre Darci, os funcionários que cobram as diárias de estacionamento – 9 reais para carros e 28 para ônibus – também são os responsáveis por contar o número de pessoas presentes dentro dos veículos. “Não trabalhamos com estimativas. Nossos números são concretos”, diz o administrador. Os que chegam a pé são muitos e não entram na conta. Padre Darci parece mesmo ter razão: são fiéis a perder de vista que colocam o santuário entre os maiores – senão o maior – em visitação no mundo. E que assim continue, amém!