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ReportagemMil perdõesViver Brasil ouviu especialistas e personagens que passaram por momentos de extremo sofrimento para ir fundo e entender sobre a difícil arte de perdoar
Texto: Eliana Fonseca | Fotos: Nélio Rodrigues e arte de Paulo Werner
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E isso não significou esquecer, parar com a busca pela Justiça. Toda semana E. telefona ou procura o advogado para saber sobre o processo. Já está na fase do DNA dos agressores para identificar os culpados. É cobrada pelo filho que deseja cadeia para os abusadores. “O meu perdão eles têm, mas minha luta é para que enfrentem a Justiça.” Esse é o processo, antes de perdoar é preciso por vezes saber encolerizar-se e reclamar justiça, observa o psicanalista Sérgio de Mattos que lembra: não há perdão sem justiça no mundo humano. “Muitas vezes dizemos: eu te perdoo, mas, se não fizermos o trabalho que a Justiça exige, corre-se o risco de continuarmos com o rancor. Digo que perdoo, mas algo em mim continua ferido”, diz. O resultado é que o sentimento de injustiça submerso pode escapar de repente, sob a forma de violência de culpabilização ou retornar sob a forma de doenças. O perdão e as diversas contradições que provocam nos homens são tão antigos quanto a história da humanidade. Não por acaso, segundo Mattos, são várias as referências ao termo hebraico râham no Antigo Testamento, traduzido por compaixão, piedade ou misericórdia. O termo também remete ao verbo matriciar ou dar vida nova a uma situação, tal como ocorre com o útero quando está gerando uma criança. A tradição muçulmana também dá grande valor ao perdão e no budismo o termo karunã significa compromisso com a dor e o sofrimento dos outros. A principal oração do cristianismo, o Pai Nosso, também dá grande valor ao perdão. E assim, essa importância segue para os espíritas, evangélicos, e tantas outras religiões. |
Foram vários os ensinamentos cristãos de perdoar 70 x 7 o inimigo; amar incondicionalmente aquele que nos fez mal. Será isso possível aos meros mortais, ou como diz o dito popular, é reservado ao divino? A socióloga Jocélia Brandão, 45, mora na mesma casa onde viveu com a filha Miriam Brandão, assassinada brutalmente aos 5 anos com requintes de crueldade. Faz 19 anos que o crime aconteceu e por vários deles era impossível a Jocélia ouvir falar em Deus ou em perdão. Sua fragilidade emocional foi posta à prova por diversas vezes – em uma delas recebeu a visita de uma pessoa pedindo sua autorização para matar os assassinos da filha Miriam. “Apesar da dor, tive a capacidade de discernir que não era aquilo que desejava. Deus cuidou de mim, mesmo não acreditando nele. Foi uma época horrível porque não tinha fé, estava sozinha, sem Deus e sentia um peso enorme nas costas”, diz. Foi um processo longo, mais de uma década, de dor, fragilidade. “Num momento como este, é preciso que a pessoa se respeite, que se dê o tempo que for preciso, que brigue com Deus para dar conta”. Com a fé retomada, um dia Jocélia pegou-se orando, pedindo por essas pessoas que tinham assassinado sua filha. Hoje, afirma que se sente agradecida por ela ter esquecido Deus, mas continuar sendo conduzida por ele. “Poderia ter ficado louca, ter dado uma direção negativa à minha vida, mas Deus cuidou de tudo”, diz. Certa vez, estava em seu carro e viu um dos assassinos de Miriam, que já foi libertado, andando pela rua. Tremeu e pediu a Deus para não vê-lo mais. Tempos depois, mais calma, tornou a vê-lo pela última vez. “Acho que era para reforçar em meu coração que o havia perdoado. Porém, gostar dessas pessoas está acima das minhas forças.” Ao contrário do que se possa imaginar, o sentimento de Jocélia não vai contra o espírito cristão. No espiritismo, a caridade é a junção da benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições alheias e perdão para as ofensas. Porém, como afirma o presidente da União Espírita Federativa de Minas Gerais, Marival Veloso de Matos, é mais do que comum termos reservas com aqueles que nos fizeram mal, mesmo perdoando. É um sentimento que pode perdurar por várias vidas, ou encarnações, como acreditam os espíritas. “Por algumas encarnações, vamos guardar conosco aqueles episódios que envolveram o nosso relacionamento com a pessoa que nos fez mal. É certo lembrar até por instinto de preservação”, diz. |
Apesar de esse ser o sentimento comum, não foi o que ocorreu com o pastor Custódio Rangel que, nos anos 80, depois de sequestrado por Ronaldo Miguel Monteiro não sabia que o planejamento era a sua morte. Conseguiu escapar do cativeiro e meses depois soube da prisão do sequestrador. Não teve dúvidas, passou a ajudá-lo na prisão e prometeu-lhe um emprego quando cumprisse a pena. Quem conta a história é Ronaldo Miguel, hoje com 53 anos, já que Custódio, que tem 89, passou recentemente por uma cirurgia e está debilitado. “O Custódio escapou do cativeiro de uma forma inexplicável, acho que foi um milagre, porque já havíamos decidido por sua morte”, conta Ronaldo. O impacto de ver Custódio visitando-o na penitenciária, fazendo doações à sua família e o ajudando como podia, mexeu com Ronaldo. “Não acreditava naquela possibilidade, mas Custódio estava ali. Ajudou-me dentro da prisão e assim que saí fez uma oferta em dinheiro para que eu pudesse organizar minha vida. Pedi emprego e ele foi o primeiro que assinou minha carteira.” Hoje, Ronaldo tem uma ONG social para ajudar presidiários. “Dedico um pouco da minha vida e procuro fazer o que o Custódio fez a sua vida inteira.” Há aqueles que cometeram crimes e buscam o perdão, mas não o encontram. É o caso do ex-ator Guilherme de Pádua que, em entrevista exclusiva à Viver Brasil, disse querer o perdão da autora Glória Perez pelo assassinato da filha dela, Daniela Perez, cometido por ele e pela esposa. “Se me encontrasse com ela, beijaria os pés dela, deixaria ela me bater. Eu ia ter para dizer a ela que o mesmo Jesus que consegue salvar um criminoso e fazer a vida dele ter sentido, é o mesmo que faz uma mãe que perdeu a filha fazer coisas maravilhosas”, afirmou durante a entrevista. A autora sempre faz questão de frisar, em entrevistas e no seu blog, que não o perdoa. “Creio no meu coração que até o ódio que se perpetuou tanto tempo, que é persistente, que é alimentado, nutrido, enquanto outras pessoas vão se abrandando, está no propósito de Deus.” Para o catolicismo, o perdão é a virtude que mais nos aproxima de Deus. Só o perdão, segundo o padre Áureo Nogueira de Freitas, é capaz de estancar e romper a cadeia de ódio, vingança, de querer fazer ao outro o que se sofreu. “Acompanho muitas vezes as pessoas que ficam intoxicadas pelo ódio, cheias de rancor, de violência no coração e elas vão sendo convidadas a experimentar o perdão, tornando-se sadias, sem enfermidades emocionais ou físicas. Ficar atrelado ao passado faz mal, não desabrocha”, diz. Na logosofia, ciência que tem como proposta conduzir o homem ao conhecimento de si mesmo, o perdão é conceituado por dois ângulos. O do lado positivo, que representa um bem enorme, especialmente para quem perdoa, e o segundo, um lado negativo, do perdão para aquele que ainda não está preparado e nem quer se redimir dos seus erros. “Então, uma coisa é, internamente, perdoar alguém que lhe fez um mal, tirar aquilo da sua vida, isso requer um esforço enorme. Outra é uma pessoa ser perdoada por um erro cometido e, em vez de construir uma conduta mais digna e se redimir, ela se aproveitar do perdão para não construir uma conduta diferente. Isso é altamente negativo”, afirma a reitora da Fundação Logosófica, Maria Lúcia Silveira. |
Nem sempre é possível a alguns perdoar. Isso implica um tempo que pessoas como a pedagoga Sílvia Pereira da Silva, 53, ainda não têm. Em maio deste ano, ela perdeu o filho mais novo, Saulo Jonathan, 22, assassinado por um policial. O sentimento é o de revolta. “Ainda não perdoei. Esse homem que matou meu filho abalou minha fé. O tiro que ele deu em Saulo também atingiu o meu coração para sempre”. Foi assim que durante muito tempo se sentiu o comerciante Masataka Ota, 54, que perdeu o filho Ives Ota assassinado pelos próprios funcionários de sua loja, em São Paulo. O ódio e a amargura eram tão grandes, que Ota passava os dias tramando como matar os culpados pela morte do filho, a essa altura já presos. “Quando você vê um filho no caixão, a gente se transforma, o ódio é imenso”, relembra. A certa altura, bebendo pelo menos meia garrafa de uísque por dia para dormir, Ota se assustou quando, no trânsito, ao pensar nos assassinos, freou bruscamente seu carro. “Vi, naquele momento, que poderia matar alguém, que era preciso fazer algo para tirar aquele ódio do meu coração, para me curar”. Mesmo assim, o sentimento de vingança persistiu por meses até um programa televisivo o chamar para perdoar os assassinos do filho em horário nobre. Só um aceitou encontrar-se com Ota na cadeia. “Quando cheguei, vi duas cadeiras e pensei: é com elas que vou matar esse assassino. Mas, à medida que ouvia os passos dessa pessoa chegando, fui me modificando.” Nem mesmo Ota acreditou quando o eu te perdoo saiu de sua boca. Parecia que todo o peso de anos estava saindo de suas costas. “Foi então que me virei para o sequestrador e perguntei se ele tinha uma filha. Assustadíssimo ele disse que sim. Falei então: desejo que ela cresça, seja uma pessoa feliz, tenha filhos. Que ela possa te dar tudo aquilo que você me tirou ao matar o meu filho”. Hoje, Ota se diz tranquilo. A mulher, Keiko Ota, é deputada federal e tem um projeto de lei para transformar 30 de agosto, data da morte de Ives, em o Dia do Perdão. “É um dia para que as pessoas reflitam sobre esse sentimento”, diz. O psicanalista Sérgio de Mattos afirma que a falta do perdão adoece, aprisiona, paralisa o outro e a nós mesmos. Para ele, é preciso que o perdão não seja conceituado apenas como uma coisa boa para o outro, mas, sobretudo, para quem perdoa. Ele liberta do ódio e do rancor que pode se entranhar no corpo e adoecê-lo. “Logicamente, é preciso que aquele que nos fez mal saiba o que nos fez e o que fez a si mesmo e que seja feita a justiça necessária. Mas ele não é só esta mentira, esta traição, esta destruição. Qualquer sujeito é mais do que alguns de seus atos e precisamos acreditar, sobretudo, que também é capaz de mudar.” Foi esse o sentimento que Davi Ferreira, 82, teve há alguns anos, ao ser abordado por dois homens que roubaram seu carro e o ameaçaram com uma arma. Ele conseguiu fugir e soube, dois dias depois pela polícia, que seu carro havia sido encontrado, totalmente danificado pela troca de tiros e batidas durante uma perseguição. Não pensou duas vezes – foi à delegacia para falar com um dos assaltantes. “Minha intenção neste encontro era conversar com esse moço, ajudá-lo na reflexão de como era perigosa uma escolha de levar uma vida como a que ele levava. Ele ficou comovido e me disse que ninguém jamais havia se importado com ele.” |
Perdoai-nosO que dizem algumas religiões sobre o perdãoCatolicismoPara os católicos, o perdão é a compreensão do grande ensinamento de Jesus Cristo: perdoai a todos e não somente aqueles que nos querem bem. Segundo o padre Áureo Nogueira de Freitas, o primeiro passo para o perdão é sair da própria dor para, a partir daí, redimensionar a vida. “O perdão é a virtude que mais nos aproxima de Deus” EspiritismoÉ no cristianismo que os espíritas vão buscar, também, seu conceito de perdão. No Livro dos Espíritos, Alan Kardec escreve que a caridade é a benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições alheias e o perdão para as ofensas. Porém, perdoar para os espíritas não significa o esquecimento. “Muitos acham que os danos físicos, morais, devem ser esquecidos. Porém, por algumas encarnações, guardaremos conosco aqueles episódios que envolveram a nós e a quem nos fez mal”, diz o presidente da União Espírita Federativa, Marival Veloso de Matos BudismoPara os budistas, o principal objetivo da vida é a compaixão e todo esforço desprendido pela compaixão acelera o fim do sofrimento LogosofiaNa filosofia logosófica, o perdão tem dois ângulos. No primeiro, é o lado positivo que representa um bem para quem perdoa e deixa de ruminar o ódio, o rancor, que só fazem mal. O perdão representa a manifestação da paciência, da tolerância, do verdadeiro sentir e transforma as pessoas que têm essa capacidade em almas grandes, amplas, bondosas e dignas de toda a admiração. Já no lado negativo, o perdão para aqueles que não estão preparados pode servir para o não crescimento, já que essa pessoa pode não construir outra conduta e voltar a repetir seus erros JudeusO perdão é tão importante que os judeus criaram o Yom Kipur (Dia do Perdão), considerado a festa máxima dos judeus. Data de jejum absoluto. É o dia do perdão e da purificação: esquecimento dos erros e extirpação das impurezas da alma. MuçulmanosO perdão é o ato de deixar de condenar pelo erro. De acordo com o Alcorão, Deus espera pelo pedido de perdão e pelo arrependimento. Ele sabe que o ser humano não é destituído de falta ou de pecado |
O que o rancor pode causar
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TudoBH Mãe de Eliza quer pena máxima para Bruno - Minas jornaltudobh.com.br/minas/mae-de-e? via @TudoBH
VIVER_BRASIL "Achar mão de obra qualificada também é um dos nossos grandes desafios", afirma Paulo Castellari.